A propósito da arrogância e da praga da incivilidade…

por Sulamita Esteliam

Estou pelo avesso hoje, e ainda bem que é quinta-feira, quase no fim. Como se nos últimos 129 dias pudesse sentir a diferença entre uma sexta, um sábado, domingo e uma segunda…

Dias iguais, iguais, iguais… alguns mais iguais do que os outros.

Sim, a noite passada foi ruim. Mais uma em que sou acordada por uma dupla de sem-noção, que mete o dedo na buzina às duas da madrugada para acordar o porteiro, que não percebeu os faróis do santo automóvel real.

Talvez porque cochile, talvez porque esteja no banheiro, talvez porque tenha ido socorrer alguém em dificuldades… Porteiro também é gente neste mundo – onde Deus, parece, resolveu deixar que a raça humana se lasque, para ver se aprende a ser gente.

O arranha-céu, na rua de um quarteirão – que seria metade em minha Macondo de origem -, aqui no noroeste de Boa Viagem; e que tem o portão da garagem bem em frente à janela do meu quarto.

Meu ímpeto é subir na grade e gritar: quero dormir seus…! Mas aí, estaria me igualando a eles.

Arrogância rima com ignorância. Dupla praga associada ao vírus e ao verme que consomem o Brasil.

Volto pra cama engolindo em seco o rosário de boas palavras, que desfio de cor em situações assim, e só pego no sono com o dia claro, quando deveria estar despertando para começar o dia.

Sempre há muito o que fazer, e se não há, e estou bem, invento. Do contrário, me perco no tempo, e isso me desestabiliza.

Se durmo mal, tenho sonhos desconexos, e acordo soltando fogo pelas ventas. Melhor manter distância, aviso logo ao pobre do maridão solícito.

Por que diabos não fornecem um controle remoto para esses folgados!? Educação já é pedir demais, atributo difícil de se ensinar a burro velho, quanto mais senso de coletividade – que, apesar da rima, se contrapõe à bestialidade.

Desconfio que essa dupla – vi que é um casal, sempre o mesmo – more no 14º andar da torre de 27 andares que encobre minha vista, com nome empolado – Vivendas qualquer coisa…

Aliás, no espigão, apenas numa janela, de um dos apartamentos no primeiro andar, à esquerda, se bate panelas ao som de “Fora….” você sabe quem!

Numa das janelas do nono pavimento, justo no apartamento mais à direita – parece que são quatro por andar – e não pode ser apenas que coincidência, tremula uma réplica da Bandeira Nacional. É de lá que em dias de barulhaços contra o desgoverno, pode-se ouvir um grito em voz de homem: “Miiiitoooo!”

Sei o que deve estar pensando. É constrangedor sentir ânsia de vômito diante do símbolo da pátria amada Brasil, desvirtuado pelo nacionalismo de cocheira que arruína o país. Mas é o que acontece, ao menos comigo.

Não obstante Euzinha também mantenha uma flâmula com o símbolo em uma das janelas do nosso apartamento. Só que devidamente acompanhada de outra vermelha, com a cara do Lula, Livre! É para ninguém dos meus se perder.

As três janelas do apartamento onde moramos dão para rua, e pertencem aos quartos. A faixa amarela clamando por #JustiçaparaMarielleeAnderson se desfez depois de três meses na janela do meio, onde fizemos o escritório.

Pausa para lembrar: até hoje, 859 dias depois da dupla execução, não se sabe quem mandou matar Marielle Franco, que faria 41 anos no próximo dia 27.

Quem deu a ordem tem responder também pela vida de Anderson Gomes, o rapaz que dirigia o carro onde estava a vereadora do Rio de Janeiro pelo PSol.

Mulher negra, lésbica, favelada, ativista dos direitos humanos desde antes de eleger-se para a Câmara Municipal, aonde seguiu incomodando e de onde batia de frente com a milícia que desgoverna a cidade maravilhosa.

Na janela do meu quarto, mantenho um pano preto, em sinal de luto pelo desgoverno do capiroto-genocida que desmantela o meu país, e pelas dezenas milhares, quase uma centena, de mortos da pandemia sob o pandemônio.

Devo dizer que, todos os dias, quando acordo, abro a janela, olho pro céu, depois estico o pescoço na direção da outra embandeirada a um terço do topo do prédio em frente, e penso, firmemente: vai cair!

Fico por aqui.

A propósito de ignorância e arrogância, que campeiam, deixo um vídeo com o comentário, sempre na medida, do colega Bob Fernandes, em seu canal no Youtube. É do início da semana, mas vem a calhar!

 

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