Pantanal arde em chamas, fotojornalista registra e constata: ‘a boiada quando passa, queima’

por Sulamita Esteliam

É obra de gente, ruim, o fogo que arde há dois meses sobre o Pantanal, queimando a vegetação, matando animais e reduzindo o volume de água que vai bater na Amazônia.

É a maior temporada de incêndios na última década, segundo o INPE – Intituto Nacional de Pesquisa Espaciais. O nome disso é crime, além de covardia.

A seca é de origem climática, fato. Mas o fogo não se ateia sozinho, é preciso algo e/ou alguém que o provoque. Incêndio criminoso. Palavra do Ciman-MT – Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional.

O governo do Mato Grosso e a Polícia Federal estão à cata dos causadores das queimadas, que já consumiram 12% da área em 24 mil focos de incêndio, dados do INPE.  É algo perto de 1,5 milhão de hectare queimado, segundo reportagem da RBA – Rede Brasil Atual.

Na ausência de governo e no rastro de morte da pandemia de coronavírus, a turma do agronegócio passa a boiada. Levam ao pé da letra a sugestão do des-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

O fogo chega no rastro do desmatamento, e na ausência de fiscalização.

Reportagem do Brasil de Fato mostra que o numero de fiscais do Ibama caiu 55% – de 1.311, em 2010, para 591, em 2019. Este ano se contratou 103 servidores, elevando a equipe para 694 fiscais, ainda  assim 47% menos do que no início da década anterior.

(Linques da íntegra das matérias citadas ao pé da postagem.)

De crime institucional se trata.

A ONG Ampara Animal está em campanha para ajudar os animais silvestres. Abriu uma vaquinha virtual que, no momento em que escrevo já arrecadou pouco mais de R$ 982 mil, da meta de R$ 1.100 mil, ampliada devido o agravamento da situação no Pantanal.

Imagens da covardia – Foto: Vaguinha ONG Amapara Animais

É de cortar o coração e ferver o sangue ver as fotos de animais em desespero, de bichos que tentaram fugir e não conseguiram escapar do fogo.

Como a jaguatirica que as lentes do fotojornalista João Paulo Guimarães, do Repórter Brasil, colheram tombada à beira da estrada, na região de Poconé, em Porto Jofre.

É lá que se encontra o Parque Estadual Encontro das Águas, onde se dá a maior concentração de onças-pintadas do mundo. E elas são essenciais ao equilíbrio da cadeia alimentar.

Vagner Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da USP, ouvido pela RBA, explica:

“A onça-pintada tem papel destacado no sistema da cadeia alimentar, então se ela deixa de existir, outras espécies têm proeminência e muda a biodiversidade no Pantanal.”

O relato do fotógrafo que viu o Pantanal em chamas  é pungente, e contundente:

‘Ninguém quer ver de perto a morte que o Fogo Traz para o Pantanal, eu vi.’

Animais queimados, incêndios e revolta. O relato de um fotógrafo que acompanhou de perto o Pantanal em chamas

por João Paulo Guimarães – no Repórter Brasil

Perto do Poconé (MT), o fotógrafo encontrou uma jaguatirica na estrada; “Ela morreu fugindo”, lhe disse o motorista que observava a cena ao seu lado (Foto: João Paulo Guimarães/Repórter Brasil)

Era meu último dia fotografando as queimadas no Pantanal. Saio para pegar o ônibus quase acostumado com o cheiro de fumaça impregnado na roupa, o gosto amargo na boca, os olhos vermelhos e lacrimejando. Ignoro a ardência nos olhos para mantê-los abertos; fico em vigília, atento, câmara na mão.

Do lado de fora, vejo a calamidade. Perto de Poconé (MT), focos de incêndio. A fumaça e velocidade do ônibus atrapalham, mas aperto o olhar e avisto uma cena brutal. O corpo duro e sem vida de uma jaguatirica. Grito para pararem o ônibus e desço para fotografar. O ar é pesado. Os olhos do animal brancos e a língua de fora, como se tivesse tentado sorver o pouco que ainda resta do ar do Pantanal.

O motorista aparece ao meu lado, e falamos baixo, como que em luto. Ele diz que ela não foi atropelada. Morreu fugindo. Me abaixo no asfalto escolhendo um ângulo que mostre a quantidade de fumaça no caminho que ainda vou seguir. Clico o filhote tentando não mostrar toda a brutalidade que a morte impôs naquele animal tão belo. Eu nunca tinha visto uma jaguatirica. Ainda não vi.

Em muitas situações, bombeiros e brigadistas apenas observam o fogo, alastrado por áreas grandes demais para ser controlado (Foto: João Paulo Guimarães/Repórter Brasil)

Ninguém quer ver a morte que o fogo traz para o Pantanal tão de perto assim. Eu vi. Vi o fogo e o fim de tudo em um dos biomas mais ricos e lindos do planeta.

Quando cheguei em Poconé, perto da meia noite, a cidade estava envolta na penumbra. A fumaça era tão pesada que acreditei ser a névoa da madrugada. Não era. Era o efeito causado pelos mais de 2 milhões de hectares que estavam em chamas no Pantanal. Várzea Grande e Cuiabá também sentem o impacto da queimada criminosa e covarde. Vi como o agronegócio abre pasto com gasolina e diesel. Fazendeiros apressados em passar a boiada com a chancela do governo federal e do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Quantos genocídios mais são possíveis na nossa nação? O Pantanal é só mais um crime impune na lista interminável dessa administração.

No meio de uma tarde de 43ºC e da fumaça sem fim em Barão de Melgaço (MT), os bombeiros e brigadistas olham o fogo, impotentes. Um dos brigadistas, com a pá na mão, é ‘seu’ Crovis. Ele diz que o fogo tem raiva. Pula de um lado para o outro. Está vivo. Ele olha para o caminho sem fim, escondido pela fumaça e avisa que não dá pra fazer nada além de esperar. Encosta no caminhão-pipa ao seu lado, que está vazio, e toma seu tererê.

O fogo consome tudo ao redor e o barulho é assustador. Os bombeiros — são cinco no local — usam um drone para avaliar a situação. Mas a conclusão é a mesma: não há nada a ser feito. É esperar o fogo se cansar do mato e desaparecer debaixo da terra.

O fotógrafo acompanhou o dia de Crovis: chamado para trabalhar com brigadista, ele conta que “o fogo tem raiva, pula de um lado para o outro, vivo” (Foto: João Paulo Guimarães/Repórter Brasil)

O ecoturismo é forte na região, que tem como atração espécies endêmicas como a arara azul do Pantanal e o cervo pantaneiro. Mas o ecoturismo esbarra no agronegócio e na abertura de pasto para a boiada. É preciso expandir a área do gado. E os brigadistas, inconformados, me contam que, para isso, fazendeiros ordenam que se use o fogo em nas áreas secas com solo rico em metano e matéria orgânica. É o fogo da ganância. Destruição, pra essa gente, é sinônimo de progresso.

Patas queimadas e morte

Cansados de ver os animais sofrendo, guias turísticos, biólogos e veterinários locais se uniram para tentar salvá-los. Um dos resgates foi de uma onça pintada, transferida para Goiás. Eu acompanho o grupo, que me explica que a desidratação — por conta da seca e da falta de água em riachos e lagoas –, a fumaça e o fogo deixam os animais desorientados, fazendo com que passem por áreas em brasa. Com as patas queimadas e morrendo de sede, esses animais sucumbem ao choque da dor. E, sem conseguir se locomover, morrem.

Um grupo de biólogos e guias turísticos locais seu uniu para tentar salvar os animais das queimadas; na foto, um quati que não conseguiu escapar das chamas (Foto: João Paulo Guimarães/Repórter Brasil)

Os voluntários também saem diariamente para deixar recipientes com água em vários pontos de rio seco e da mata. Falta água. Falta chuva. E, ficou claro para mim, falta humanidade no Pantanal.

À noite, de volta ao Sesc Pantanal, onde fiquei hospedado, escuto a conversa na mesa ao lado da minha no refeitório. Um dos militares, também alojado ali, não consegue segurar sua revolta e raiva ao comentar o ministro Salles pretendia bloquear a verba destinada para a batalha contra as queimadas na região pantaneira além da Amazônia. “Ele se precipitou, pô.”

Observar cervos pantaneiros é uma das atrações do ecoturismo local, que vem sendo ameaça pelas queimadas (Foto: João Paulo Guimarães/Repórter Brasil)

Um desgoverno que brinca com os nervos de quem vê a morte todos os dias e vai dormir sabendo que, no dia seguinte, pode ser pego na mudança de direção do fogo e morrer queimado. Foi  o caso do Wellington Fernando Peres Silva, brigadista do ICMBio que teve 80% do corpo queimado em uma ação contra os incêndios do Parque Nacional das Emas (GO).

O que Salles e o governo federal não entenderam é que igual a mim existem muitos na região. Moradores, fotógrafos e jornalistas que testemunharam tudo. Viram o que a boiada representa. Gente que sentiu o fogo de perto e respirou diariamente o ar esfumaçado e doente da Transpantaneira. Gente que rezou para ver uma onça ou jaguatirica vivas, mas que, em vez disso, tiveram de se deitar na estrada ao lado de um corpo gelado para mostrar ao mundo o que a boiada faz quando passa. Ela queima.

Para o fotógrafo, a destruição no bioma deixa claro o que a “boiada” do ministro Ricardo Salles pode representar na prática (Foto: João Paulo Guimarães)
Voluntários se deparam como cenas como essas quando saem para colocar recipientes de água em diversos pontos do Pantanal (Foto: João Paulo Guimarães)

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Reportagem citadas:

*Brasil de Fato

Fogo no Pantanal tem origem humana, mostra perícia

No governo Bolsonaro número de fiscais do Ibama despencou e desmatamento disparou

*Rede Brasil Atual

Incêndios no Pantanal são resultado do desmonte promovido por Bolsonaro na Fiscalização

 

 

 

 

 

 

4 comentários

  1. Toda publicação do atalmineira.com está sob censura no Facebook, desde 26 de abril de 2019. Houve denúncia em série contra publicações que envolviam o Lula, ainda preso em Curitiba. É coisa orquestrada, e o Facebook não oferece canais que facilitam a reclamação. Cansei de protestar, larguei para lá. Compartilhe no Twitter, lá rola. E obrigada pelo acesso e comentário. Xêros.

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