Cenas do nada normal na convivência com a peste

por Sulamita Esteliam

A não ser pelas máscaras, que alguns insistem em usar sob o queixo ou como adereço manual, quem anda pelas ruas de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, não diria que estamos sob pandemia de coronavírus.

Hoje, quando descia para caminhar na praia, assisti a cena deveras engraçada. Dessas que faz a gente pensar: é cada uma…!

A mulher vinha no sentido contrário ao meu, toda, toda, balançado a máscara na mão. Desviei-me acintosamente; ela olhou para a minha máscara preta “vaza peste”, e automaticamente levou a dela à boca para terminar de atravessar a rua.

Nem me esforcei para não rir.

Por aqui o índice de contaminação e de mortos segue em queda, a despeito disso. Mas no Brasil deste 7 de outubro já ultrapassam 5 milhões e mais 694 infectados, 148.228 mil vidas ceifadas pela Covid-19 – e pela omissão e irresponsabilidade do Estado em desmantelo.

E se o número de óbitos vem caindo nacionalmente, o ritmo de contaminação diário voltou a acelerar-se – no Brasil como alhures. Certamente, reflexo da retomada das atividades e fim do isolamento social.

Apesar de tudo, o plano de convivência avança, e aqui na maioria das regiões pernambucanas. Enquanto a Justiça bloqueia a volta às aulas do ensino médio, e professores entram em greve, cinemas, teatros e parques de diversões já podem abrir sob as benção da Senhora de Aparecida.

Basta garantir metade da capacidade do espaço, o que vale também para eventos corporativos, culturais e sociais. Que a padroeira seja vigilante atenta.

O movimento nas ruas faz tempo já retomou o fluxo normal – de pessoas e carros. O comércio que resistiu aos meses de isolamento funciona em tempo integral.

Todos com oferta de álcool 70% à entrada e saída e aviso de uso obrigatório de máscara.

No shopping, entretanto, onde tive que ir duas vezes, na semana passada, resolver um problema com o celular, os corredores estão tranquilos. E os vendedores tentam laçar o cliente à porta das lojas, no melhor estilo do comércio de rua.

A praia segue o movimento normal dos dias de semana depois da reabertura do comércio na areia: a maioria é de caminhantes, pouca gente nas barracas, boa parte de avós dando canseira nas crianças para garantir tranquilidade no retorno à casa.

Sábado ainda é possível caminhar com certa tranquilidade e distanciamento na areia mais perto da arrebentação. O banho de mar também é amigável. Já o domingão e feriados, só para os indômitos.

Os moradores de rua se multiplicam em cada esquina, mas é desde 2016. Os sinais, as pontes, o entorno das pontinholas sobre os canais, as calçadas dos supermercados estão repletos de pedintes. As crianças maltrapilhas retornaram aos sinais de trânsito.

A fome está estampada nos olhos e faces encovadas de adultos e pequenos. A praca da igrejinha, onde brotou Boa Viagem, em 1707, tornou-se acampamento a céu aberto. Pelo menos 10 famílias habitam o local desde há muito.

Vez por outra, a Civil se apresenta para o baculejo – revista em pernambuquês. Sim, e agora estão cercados também por bandeirolas de certo candidato da direita tradicional à prefeitura da cidade.

Nesses tempos, desaconselha-se o uso das ruazinhas internas, pouco movimentadas, do bairro, sobretudo no fim de tarde. Os assaltos à mão armada voltaram a ocorrer.

O maridão provou a ameaça de peixeira dias atrás. Cercado por dois e a arma, não teve alternativa que não entregar o celular e o dinheiro, pouco, que trazia na carteira. E dar graças por sair inteiro da experiência.

Os caras estavam nervosos, olhos esbugalhados de pavor – e/ou pedra, me conta depois do susto. Já se disse que quanto mais amador, pior o risco.

Só depois que a dupla se pôs a correr, os porteiros dos prédios, que certamente espreitavam a ocorrência pelas câmeras, puseram-se a gritar “pega ladrão”! E oferecer água e solidariedade para a vítima.

Os homens desovaram o produto a menos de dez quadras da ação. Fácil rastrear pela internet, é só seguir o Imei.

Você faz o BO, também digitalmente, porque precisa dele para bloquear número e aparelho. Mas sabe que a polícia não vai atrás – porque não quer, ou porque tem mais o que fazer.

Logo depois do assalto, um morador, assombrado, surgiu numa bicicleta para se inteirar do acontecido.

Revelou indignação um tanto blasé: “Fazia muito tempo que isso não acontecia por aqui. É preciso avisar a comunidade para estar atenta e tomar providências”.

Com esse nível de preocupação e comentário, não precisa ter oráculo para saber o tipo de cidadão de que se trata.

A essas horas, o maridão dá graças de Euzinha não estar junto, pois que a língua não cabe dentro da boca.

– Por que será, cara pálida!?

Vem-me à memória uma marchinha de Carnaval das antigas: “É por isso que o Brasil não vai pra frente…”

2 comentários

  1. Tenho treinado desvios acintosos e olhares fusilantes aos zumbis que insistem em andar pelas ruas de Ipatinga, isso obviamente quando saio às ruas por necessidade extrema… fora isso tô dendicasa. Ótimo texto como sempre.

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