A morte como testemunho

por Sulamita Esteliam

Não é fácil lidar com a dona morte – a mulher da foice, como diz o maridão. Mas essa é uma realidade da qual não se pode fugir. No campo individual, ao menos.

A coisa muda de figura quando se traz o raciocínio para o campo coletivo.

Quando se declara uma guerra, e se manda soldados para o campo de batalha, assume-se o poder de agente do fim sobre milhares. Soldados são pessoas, dos dois lados das trincheiras; invasores e invadidos.

Charge publicada originalmente na página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador-BA

Quando um governante não assume a responsabilidade devida para a preservação de vidas de seu povo, ele cumpre o papel da própria morte. Ele é o carrasco, o invasor do direito à vida, o coveiro.

Quando o resultado disso são milhares de cadáveres sem direito, sequer, à despedida de seus afetos, o nome é genocídio.

Ainda que causado por uma pandemia, como a do novo Coronavírus; que aliás está ficando velho de tanto matar gente mundo afora.

São um milhão de mortos por sua conta em todo o Planeta, 160.253 mil deles brasileiros e brasileiras, nos dados oficiais deste Dia de Finados. Já nem se fala mais em subnotificação.

É como se se dizimasse a população de Ilheús, na Bahia, ou Camaragibe em Pernambuco, ou quase uma Poços de Caldas, em Minas Gerais.

Aqui, neste pedaço dos trópicos, os mortos já são 8.638 neste 2 de novembro de 2020, o equivalente à população respectiva de aos menos 15 municípios do estado.

Que descansem em paz e na luz – os daqui, acolá e alhures.

Sorte que a incidência de contaminação e de mortes tem reduzido de forma consistente. O sopro fúnebre da primeira onda parece arrefecer, a caminho do verão.

Do coletivo para o particular, estou entre os que acreditam que ninguém morre de véspera.

Temos nosso prazo de validade, já nascemos com ele. Só que, como diz minha irmã Lili, não vimos com etiqueta nem código de barras.

Há um exemplo desse Dia de Finados: li a notícia de um rapaz de 21 anos que se recusou a entrar para o tráfico, e teve a sentença de morte decretada na hora. Levou cinco tiros na cara. Só que não, a arma falhou em todas as tentativas.

Os executores entraram em desespero e se escafederam. A polícia foi chamada, mas não conseguiu pegar os autores do atentado.

Deu-se em Contagem, na Vila da Paz.

Agora, o Estado, via Polícia Civil, tem a responsabilidade de guardar a vida do rapaz, e localizar os aviões do tráfico e, quiçá, enquadrar o dono da boca. O fará?

Então, de que maneira isso se explica, na minha crença, quando se deixam morrer um, dois, dez, centena de milhares, por não fazer o que precisa ser feito? 

E deixar morrer à míngua, de fome, preconceito, racismo e desespero, em que conta entra?

Via Instagram @arocartum

Será que essas pessoas quando foram gestadas, assumem um contrato com o etéreo de que poderiam ser colhidos por uma peste, um roedor, um baculejo troncho, um balaço direto ou perdido?

Euzinha, cá com meus botões, confesso que não tenho a resposta. Só posso dizer que não deixo de pensar a respeito.

Fico por aqui. Que a semana nos seja leve.

 

 

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