No 25 novembro, é preciso registrar a violência política sem precedentes em campanhas

Ainda que tarde, bom lembrar que 25 de novembro é Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher.

Foi nesse dia, em 1960, que as irmãs Mirabal – Patrícia, Minerva e Maria Teresa, Las Mariposas, foram assassinadas pelo ditador Rafael Leónidas Trujillo, na República Dominicana.

Agentes do governo forjaram um acidente, jogando num barranco o jipe em que estavam. Mas elas foram torturadas, espancadas antes de serem executadas por enforcamento. As três eram ativistas políticas contra o regime totalitário.

Uma das irmãs, Dedel, menos ativa até então, sobreviveu para contar a história , que terminou selando a queda de Trujillo, um ano depois.

Detalhe: as irmãs eram ativistas, mas pertenciam à classe média alta da sociedade dominicana.

A data foi sacramentada pela ONU como dia de luta pela não-violência contra a mulher em 1999. Dezoito anos antes, o I Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho de 1981, na Colômbia, havia aprovado a proposta.

Violência política ainda hoje é arma utilizada contra adversários na disputa pelo poder. Quando não é a força, é a farsa, a mentira, a fraude, a calúnia, o jogo sujo.

É cada vez mais comum nas campanhas eleitorais, agora com o auxílio luxuoso das redes sociais. Mas não apenas.

Aqui no Recife, ressuscitaram até o lambe-lambe, sem descartar os velhos panfletos apócrifos, distribuídos em igrejas, para atacar a candidata Marília Arraes, do PT.

Tudo porque ela avança sobre o feudo da oligarquia Campos, que controla o governo de Pernambuco, a Prefeitura do Recife, o PSB, o Legislativo e os partidos aliados – e dizem as más línguas, também o Judiciário e as leis da tábua de Moisés.

A herança do falecido pai do primeiro filho, João Campos, deputado federal eleito nessa cartilha, é regida pela matriarca-viúva. É de conhecimento até dos arrecifes que pontificam no mar de Boa Viagem.

Ela está convencida do direito divino do filhote vir a ser o alcaide da capital pernambucana. Nem que seja a poder de vilanias de quaisquer matizes. 

Richa de sangue. Marília, como Eduardo Campos, são netos de Miguel Arraes, ícone da resistência política na ditadura civil-militar de 1964. O primeiro filho é bisneto do “velho Arraia”, apelido carinhoso atribuído pela voz do povo.

Puro machismo ante a postura independente de uma mulher, que jamais se dobrou às idiossincrasias do clã. 

A misoginia está a serviço da baixaria também em Porto Alegre-RS, contra Manuela D’Ávila, do PCdoB; Marília Campos, do PT em Contagem-MG; Margarida Salomão (PT), em Juiz de Fora-MG; Célia Tavares (PT) em Cariacica-ES.

A candidata do PT à Prefeitura de Goiânia-GO, deputada Adriana Accorsi não foi para o segundo turno, mas recebeu ameaças de morte, via Instagram, por um homem desconhecido do Acre; ele foi preso.

Bizarrice perigosa que atinge mulheres, mas também homens; candidatos e sobra para eleitores. Levantamento do TSE aponta o crescimento de 471 por cento nos registros de violência nessas eleições municipais em relação ao pleito de quatro anos atrás.

Um consórcio de nove veículos alternativos, do qual faz parte o Marco Zero Conteúdo daqui do Recife, levantou os casos de agressões de toda natureza no primeiro turno.

Constatou onda de violência sem precedentes: 114 casos só nos primeiros 15 dias de novembro. Vale dizer, uma ocorrência a cada três horas. Os links das reportagens estão ao pé da postagem.

Sinal dos tempos milicianos que imperam no Brasil. O buraco está cada vez mais fundo e o breu não é o limite.

De toda sorte, é inadmissível que se coloque a torpeza a serviço do desespero e da tentativa de perpetuar o domínio masculino na política. Pior, fere o direito das mulheres à vida política.

E um partido que se quer socialista deveria dar o exemplo de ética, equilíbrio e lisura na disputa.

Campanha eleitoral é importante no exercício da democracia, e deveria ser o momento de se conhecer e debater propostas e programas de governo, de forma propositiva e civilizada.

Marília Arraes e as demais canditadas-alvos de ataques sujos têm feito a sua parte, a despeito do nível de seus adversários.

Sou velha de guerra, também nesse meio. Cubro eleições desde 1982, no início da distenção política do país. Milito em campanhas diversas da esquerda, também desde então.

Trabalhei a comunicação de campanhas aqui no Recife desde 1998, sempre na esquerda. Nunca vi nada parecido com o esgoto que transborda do lado adversário de Marília Arraes. É chocante.

Dizem que a política sem polêmica é a arma das elites – é o bordão do Tijolaço, editado pelo colega Fernando Brito, que asessorou Leonel Brizola, lá no Rio de Janeiro. Baixaria é outro papo, é pobreza de espírito e de argumentos.

O que se espera é que o povo do Recife saiba discernir o melhor para si, sua cidade e sua gente.

A propósito, em Minas, o Nepem – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Mulher da UFMG elaborou cartilha  para explicar como reconhecer, diferenciar, denumciar diferentes tipos de violência e saber o que fazer. Eis o link: https://bit.ly/2ltz9ws

Um questionário ajuda a entender melhor o fenômeno da VPCM no Brasil: https://bit.ly/36qr6Zw

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Fontes citadas:

Marco Zero Conteúdo

Reta final das eleições teve uma caso de violência política a cada 3 horas

Metrópole

Eleições: violência contra candidatos tem aumento de 471% em relação a 2016

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Postagem atualizada dia 26.11.2020, à 00:07 hora para incluir informações e links sobre pesquisa do Nepem/UFMG. E novamente às 12:41, para corrigir erros de digitação e agregar detalhes em alguns parágrafos.

 

 

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