‘Epifania’ de um materialista resistente

por Sulamita Esteliam

Meu amigo Márcio Metzker, jornalista e escritor mineiro, me envia a beleza de crônica que posto abaixo, sobre experiência reveladora na noite da última quinta-feira.

Não se espante, que é isso mesmo: ele escreve do hospital onde está internado para tratamento de pneumonia virótica que lhe compromete, até o boletim médico do referido dia, 60% do pulmão esquerdo e 20% do direito.

Está sob controle, bem cuidado. Enviou-me pelo zap-zap detalhe por detalhe do tratamento a que está sendo submetido pela “melhor equipe médica de Belo Horizonte”.

A companheira dele também está com Covid-19, mas com sintomas leves: “Fran está branda, saturando  97…” Poderia ir para casa, mas está de acompanhante. “Também precisa dos meus cuidados”, ajunta meu amigo, que jamais perde a piada.

 – Aqui, tem que ficar esperto. Se a oxigenação baixar de 90 de noite, a máquina apita e eles te intubam.

Fran tem a seu favor a idade. Metzker , inteligência, sagacidade, preparo e ironia à parte, carrega uma série de comorbidades, além do fato de ser idoso; é um pouco mais velho do que Euzinha. 

Todavia como me lembra na troca de mensagens, “quem não tem esses balangandans é que vai pro Bonfim”.

Hoje, alguém em um dos grupos que frequentamos perguntou por notícias sobre a saúde “desse moço”, marcando o recado que ele havia deixado sobre a internação para tratar a Covid. Pois são essas.


Epifania

por Márcio Metzker*

Noite passada, eu tive uma epifania, uma experiência psíquica profunda que só ocorre em situações extremas ou como fruto de um poderoso exercício de concentração para viagens extracorpóreas.

Enjoado de ficar na cama aqui do hospital, me sentei numa poltrona reclinável junto à janela. Pouco antes tinha acontecido uma tempestade elétrica com trovões ensurdecedores e chuva forte, mas já havia amainado.

Podiam ser umas dez da noite, minha mulher começava a dormir, as luzes apagadas, fechei os olhos e não vi a escuridão. O que vi foram milhares de luzinhas que se moviam rápido. Até comentei com minha mulher: “Estou vendo estrelas. Será que é o remédio novo?”

Fui firmando a vista e ao fundo vi a Via Láctea, com aquele brilho fantástico de trilhões de estrelas aglomeradas. Havia uma claridade difusa na curvatura da Terra, deixando perceber vultos rastejando na superfície. Uns eram pessoas, outros animais.

De repente vi centenas de pessoas desprendendo-se da gravidade terrestre e flutuando na atmosfera. Pareciam felizes, e começaram a se agrupar e a voar para a Via Láctea. Olhei para aquela claridade que me pareceu um lugar magnífico e acolhedor para ir. Eu também flutuei e quis acompanhá-los, mas fui detido, eu e outros que nos entreolhávamos com surpresa.

Embaixo de nós, vi vultos ajoelhados em oração contrita a Deus, Jesus, Maria. Outros de pé, braços levantados, vestindo túnicas longas, faziam conjurações e pedidos às forças do Universo. Eram muitos, muitos, e suas vozes foram se elevando e nos impedindo de partir. Entendi que eram as pessoas que nos amavam e não queriam nos perder. Nosso lugar ainda era entre os vivos.

Eu não estava acordado nem dormindo. Era uma espécie de limiar entre a vigília e o sono. Ouvia os barulhos da rua, o som borbulhante do umidificador de oxigênio, mas ia tendo essas revelações.
Compreendi que não se tratava de algo religioso ou divino, mas de forças psíquicas poderosas que se encadeavam para influir na harmonia do Universo, pedindo não um rearranjo do destino das pessoas, mas apenas um adiamento da partida delas por terem ainda uma missão a concluir na Terra; tudo em nome de uma motivação que pode ser simpatia, reconhecimento, solidariedade, identificação, amizade, mas que ficaria melhor se chamada apenas de Amor.

Esta epifania, numa noite em que os relâmpagos abriram o céu, foi a primeira vez que um cético materialista como eu ingressou no campo da espiritualidade, e acreditou que há um destino para as almas humanas depois que deixam o corpo: vão refugiar-se nas estrelas.

*Márcio Metzker é mineiro de Belo Horizonte, nascido em agosto de 1952. É autor do romance épico Utopia Tropical, 600 páginas, Outubro Edições, 2020, dentre outros inéditos. Uma obra de fôlego, de ação, culturas e paixões, onde a ficção se mistura à interpretação bem particular da História recente do país e à crítica política.
Jornalista pela UFMG, com larga experiência e passagem por diferentes veículos na capital mineira, foi pioneiro na Rede Minas de Televisão, fundou e dirigiu a TV Assembleia, e foi secretário de Comunicação do governo Itamar Franco. 

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