De poeta marginal a ministro do STF, uma esfinge chamada Fachin

por Sulamita Esteliam

O A Tal Mineira compartilha artigo do amigo Carlos Barroso, publicado originalmente no jornal Estadão, na quarta-feira, 18 de março; devidamente autorizado pelo autor.

Trata-se de uma curiosidade sobre autoridade de toga, que surpreende pelo que o personagem tem demonstrado no exercício de suas funções de relevo – pra o bem ou para o mal.

Prova de que a sabedoria popular não falha quando diz que “quem vê cara não vê coração”. Ou, por outra, “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, o que vem a ser a mesma coisa, ou quase.

Era para postar na quinta, mas a semana entortou e Euzinha obriguei-me ao repouso. Mas a roda gira e a vida segue.

O ‘marginal’ Edson Fachin

O ministro foi poeta atuante da poesia-mimeógrafo, mais conhecida como ‘marginal’, ao lado do grande poeta Paulo Leminski

por Carlos Barroso* – no Estadão

Atualmente no centro das atenções e polêmicas políticas do país, com a decisão de transferir os processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), da Lava-Jato de Curitiba para Brasília, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, era um atuante poeta da geração mimeógrafo, também chamada de marginal, movimento importante da poesia brasileira.

Em pesquisa sobre o movimento – da qual participei, em Belo Horizonte – encontrei vários poemas de Fachin, no livro Sangra:Cio, editado em Curitiba (PR), em 1980, uma antologia com textos de 27 escritores. Ele dividiu as páginas do livro com o excepcional poeta Paulo Leminski, entre outros.

Na mesma Curitiba, como se sabe, sede da Lava-Jato e base do ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro. Nesse triângulo político, é também onde Lula ficou preso durante 580 dias.

O poeta marginal Luis Edson Fachin, grifado com “s” na antologia, por erro de edição, é de Rodinha (RS), mas chegou com 17 anos a Curitiba, para estudar. Paulo Leminski (1944-1989) era curitibano.

Em seu “currículo” na Sangra:Cio, que foi editada quando tinha 22 anos, Fachin se autodeclarou autor ou integrante de seis livros de poesia, a maioria da seara marginal. Dentre eles, Abaixo-Assinado, com João Bosquo (Curitiba/1977); Reportagens no País das Mara Vilhas, mimeografados (1978); Sala 17 – curiosamente, número com que Bolsonaro foi eleito – antologia (Curitiba/1979); A Praça é do Povo, Antologia, poemas (Uberaba/1980). Como se vê, tinha pés e cabeça na poesia-mimeógrafo.

Sangra:Cio, mesmo com participação de quase três dezenas de autores, teve a presença de uma só poeta, Tânia Navolar, segregação comum na época. Atualmente, as mulheres mostram exuberância pouco vista na poesia, em Minas e no Brasil.

O gaúcho Edson Fachin permaneceu no Paraná, onde assumiu a cadeira de Direito na UFPR. Participou da Comissão da Verdade no Estado, indicado pela CUT, da defesa de sem-terra, entre outras atividades que lhe deram a pecha de “esquerdista”, quando foi indicado, em 2015, ao STF pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Lembrando que, embora mineira, Dilma fez carreira política na terra de Fachin – Rio Grande do Sul.

Na ambivalência política do país, além de “esquerdista”, o ministro virou também, em determinado momento, herói da extrema-direita bolsonarista, por causa da defesa intransigente da Lava-jato. Hoje não mais, em decorrência da decisão sobre Lula.

Na antologia, com mais declives poéticos do que altos, a surpresa é mesmo Paulo Leminski, o mais conceitual poeta brasileiro das últimas décadas, um dos poucos que conseguiu se emparelhar em sucesso – e vendas – com Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, para ficar em dois exemplos, com o livro Toda Poesia (2013).

“Viva a diferença!”, como o curitibano escreveu no prefácio da antologia.

No livro, há vários poemas famosos de Leminski:

parem/ eu confesso/ sou poeta/ cada manhã que nasce/ me nasce/ uma rosa na face/ parem/ eu confesso/ sou poeta/ só meu amor é meu deus/ e eu sou o seu profeta […], é um deles.

Hoje no topo da magistratura brasileira, como eram os poemas do “marginal” Luiz Edson Fachin? Fiz uma seleção de versos:

“bem mais duro e forte, aqui dentro/ há um monstro/ bem mais duro e forte/ que se contenta com rosa/ e já cedo é guindaste de ferro e aço” […]

In “Assim.”

[…] “Ao vestir o macacão diário da hipocrisia/ o reparo nas rugas de teu peito doído / de teu útero parido pedra / e de teus lábios torturados sol feito chicote” […]

In “Amada.”

“Nem azul nem vermelho / o fogo acende a noite / e esquenta o chá de erva / para a mulher doente” […]

In “Dados Familiares.”

“Te agasalho com mesma força/ do ferro que te prende” […]

In “O que é do homem, o bicho não come.”

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