De literatura e da vida em emergência

por Sulamita Esteliam

Definitivamente, o mar não está para peixe, e pescador velho de guerra se recolhe na tempestade. Instinto de sobrevivência. É o que tenho feito, a bem da minha sanidade.

Mas há limite para o recolhimento, porque senão torna-se fuga. E de covardes o mundo está cheio. Então… cá estou, a cumprir a faina.

Tinha programado ler trechos do “Quarto de Despejo”, da Carolina Maria de Jesus, que teria feito 107 anos neste 14 de março. Teria, não só porque é encantada, desde fevereiro de 1977,dia 13. É que a data de nascimento dela é provável.

Preta, pobre, mãe solteira, empregada doméstica, depois catadora de papel, e favelada. A mineira de Sacramento, radicada em São Paulo, registrou sua vida de penúria num diário.

O livro, traduzido em 13 idiomas, veio por intermédio do jornalista Audálio Dantas. Escalado para reportagem na favela Canindé, a primeira de São Paulo, em 1958, descobriu Carolina, seu diário, a força de seus escritos, e revelou ao mundo seu talento.

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia”.

Era a sua motivação.

Por que ‘Quarto de Despejo’?

“É que, em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres, que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto d despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.”

Bom, é só um aperitivo para despertar o apetite. Outro dia continuamos, porque hoje topei com algo forte e irresistível, e quero dividir com você.

Preste atenção! Por favor, ouça, memorize e compartilhe:

“Tenho comido e fumado mais do que preciso… trabalho (na linha de frente), eventualmente vou ao mercado, farmácia ou posto de gasolina. Já fiquei mais de 4 meses sem ver minha mãe e só passei a abraçá-la do natal até janeiro de 2021 … já vamos novamente pra 2 meses sem ela ver a única neta. Está  sozinha e isolada todo esse tempo… tô cheia de saudade, cansada, triste, estressada. Meu marido perdeu o emprego, tenho uma bebê hiperativa dentro de um apartamento, tenho insônia e frequentes dores pelo corpo por não mais praticar atividade física. Vejo, ouço e passo por coisas que mta gente não tem noção em meu trabalho (SAMU).

Já perdi dezenas de colegas de trabalho 😣 para essa doença 🥺 e outros diversos estão em seus limites… Faço minha terapia, eventualmente, pra não cair no buraco da depressão… pq tenho pânico em pensar que, por ser uma profissional da linha de frente (apesar de vacinada), sou uma bomba relógio, e posso contrair e passar essa doença para minha família.

Atendemos mortes evidentes em uso do “Kit covid” aos montes, e ver gente defendendo o uso disso me causa uma certa revolta, pois na prática vemos que quem usa água com limão, pinga, kit covid ou maconha tem o mesmo efeito, ZERO!!! Parte deles sempre vão parar no Tubo ou no caixão, deixando imensos vazios em milhares de famílias. 

Por vezes levamos pacientes críticos para portas de hospitais e pronto-socorros que não tem condições mínimas para receber mais pacientes. Não há leito, não tem UTI, não tem maca, não tem profissional, não tem medicação… e temos que ir batendo nas portas pra ver quem tem condições de receber o paciente… 

GENTE, NÃO TEM CONDIÇÕES!!! ESTAMOS COLAPSADOS!!!
NÃO HÁ VAGAS!!!

Estamos em uma fase crítica, onde mta gente está chegando no limite do $$ pra se manter e tbm no limite de sanidade mental… mas é preciso que nos recolhamos o qto pudermos, que façamos o distanciamento social de forma eficiente, que usemos máscaras de forma adequada, álcool gel, e que fiquemos em casa o qto mais pudermos…

Sei que a dificuldade tem batido a porta de muita gente, mas sem a compreensão de alguns e o esforço de outros, tardaremos ainda mais pra sairmos dessa! Precisamos, sim, cobrar das autoridades #vacinasjá e #vacinasparatodos , mas neste momento é preciso parar, é preciso consciência coletiva, é preciso FICAR EM CASA! 

MUITOS CONTINUARÃO A MORRER!!! PODE SER EU, PODE SER VOCÊ!! PODE SER DOS MEUS OU DOS SEUS!!!”

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Este relato me tocou profundamente. A moça trabalha no Samu.

Recebi num grupo de militância e resistência no zap-zap, que réune ativistas de todo o Brasil. É da prima de um dos integrantes. Pedi autorização para compartilhar aqui.

Trago para o Leitura Literária, porque diante da hecatombe na qual estamos imersos, é fundamental ter a visão do outro.

Além do que, para mim, literatura é a vida como ela é, muito mais impactante que qualquer ficção. Esta aí Carolina de Jesus que não me deixa mentir.

Pare, e pense: quem, em santa imaginação, poderia projetar uma nação onde a vida de seu povo vale menos que nada!?

Quem precisa de inimigo externo quando o comando do país se encarrega de eliminar sua própria gente!?

O que são 310 mil pessoas mortas em um ano, afinal?

E 3.438 vidas ceifadas em 24 horas contadas neste sábado, 27! E a gente sabe que não para aí… Quantos recordes mais teremos que registrar para se dizer basta!?

Quem pode nos salvar, senão nós mesmos, e nossa consciência individual e coletiva? Ou será que até o umbigo tornou-se planeta inacessível, ainda que plano!?

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Atualizado às 6:18 do dia 28.03.2021: inclusão do vídeo com a Leitura Literária.

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