E por falar em Dia das Mães…

por Sulamita Esteliam*

Pois é… Ano após ano reafirmo o sentimento e as virtudes de ser mãe por escolha. Sou mãe nada santa, nem sublime, nem meiga, nem coitada, muito menos virginal. Nunca fui.

Faz tempo exorcizei minhas culpas. Fui mãe solo das primeiras crias – no que toca à responsabilidade de cuidar e prover.

Sempre fiz tudo ao mesmo tempo: pari, estudei, trabalhei, militei, e me dava o direito de me divertir para repor as energias. Pude contar com ajuda da minha própria mãe, e irmãs, e sogra, e cunhada, e dinda, e babás. O suporte familiar me foi essencial para ser mulher-polva e ousada. Sou grata.

Sou igual a todas as mães que, antes de serem mães, são mulheres: às vezes belas, às vezes nem tanto, às vezes plenas, às vezes malas, vitoriosas ou derrotadas; seres humanos, com qualidades e defeitos. Ou não seríamos mulheres.

Somos humanas, embora não pareçamos. Somos anjas e demônias. Cada qual com sua personalidade, necessidades, desejos, limites e idiossincrasias.

Temos mil e uma habilidades, e utilidades, e imprestezas, quesitos que exercemos vida afora.

Sangramos todos os meses – até que a vida diga que não servimos mais para parir ou mesmo para foder.

Independentemente de nossas constituições, vontades e libido, creem que não as temos, ou não devemos ou não podemos tê-las.

E se o tesão, se a vontade de sexo não nos abandona na medida e proporção que a flacidez avança sobre nosso corpo, que nos viremos como pudermos.

Etarismo é palavra nova que define preconceito ancestral. Vingo-me dizendo que envelhecer é caminho sem volta – a menos que a dona morte nos encontre na esquina do alvorecer.

A espada do tempo é implacável para homens e mulheres. Só que as mulheres, bem ou mal, sobrevivem à abstenção do fálico poder do macho, ainda que boa parte deles só o sustentem na vontade. Ou nem isso.

Somos monstras. Somos temerárias.

Mães não devem ser testadas ao extremo de sua humanidade. Mexa com nossas crias e verá do que somos capazes.

Mãe é mulher-bicho, não abandona o fruto do seu ventre. E a menos que lhe sequestrem a humanidade, desafia até a morte para protegê-la. No limite, leva a prole junto.

Conservadoras ou libertárias, não importa, arriscamos a própria vida para desvendar uma verdade, que é nossa. É preciso escancarar a opressão que desaba sobre nós, e que nos cobra o preço da existência sendo mulher.

A História e a literatura estão repletas de exemplos. E o que é ficção? É a imaginação a serviço ou refrigério da realidade.

Mas o que eu quero lhe dizer é que temos peçonha. Deixamos visgo e contaminamos de amor, ou de ódio quando nos viramos do avesso.

O ódio, lugar comum, é a outra face do amor. É arma poderosa quando se depara com indignidades, com o arbítrio, com a desfaçatez. É alimento para a alma gestar saídas, buscar soluções.

Não quer dizer que tenha que ser traduzido em intolerância ou agressão, qualquer tipo de violência. É o amor pelo avesso que nos dá a capacidade de resistir, ousadia para lutar contra tudo e contra todos, até para seguir adiante; e desprendimento para morrer se preciso for.

Um amor que transcende o ato de gerar, gestar e parir. Um amor que protege e alimenta a sobrevivência, o direito à vida com dignidade. Um amor que deixa voar e que acolhe de volta para curar asa quebrada.

Nascemos prontas para a maternidade, prontas para cuidar, e prontas para dizer não. Tudo isso independe de parir. Não somos obrigadas a nada.

Maternidade não é sina, é escolha, embora sempre deva ser partilhada.

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Do inconformismo com a injustiça da desigualdade e com a dor da perda, nasceu o “Dia das Mães” , nos primórdios do século passado, nos Estados Unidos. Em nossa Macondo, em pleno Estado Novo e por decreto.

Salve, sempre, dona Dirce que me pariu e criou! Salve, tia Maria da Glória, a sobrevivente, e Leontina e Vitalina, encantadas.

Salve Euzinha, por que sei que mereço. Salve, minha filha Gabi-guerreira, que pariu e sustenta três de três gerações diferentes. E salve, minhas noras: a de ontem, Michele, e a de hoje, Daniela.

Salve, minhas irmãs de sangue, Elizethe e Zélia, e também as por escolha: Dora, estrela; Maria de Lourdes, Eneida, Elma, Ana Karla, Meré e Ana Freire.

Salve, todas as mães dignas do nome, as que conheço e prezo, sobretudo. Salve, salve as mães que tiveram seus filhos assassinados pelo Estado, pelo arbítrio das ditaduras de ontem e de hoje, sob qualquer pretexto!

Salve, Zuzu Angel! Salve, dona Elzita Santa Cruz! Mães da Praça de Maio e Mães do Acari, salve, salve!

Salve, Gercina! Salve, Mirtes!

Salve, dona Lindu! Salve, Marisa Letícia! Salve, Marielle Franco.

E salve, Dilma Roussef, mulher valente e mãe de fibra.

Muito axé e luz para todas nós… sobretudo para a pátria-mãe cada vez mais nada gentil. Isso cabe a nós transformar, com a força da nossa sensibilidade, raça e com o nosso voto.

* a partir de crônica publicada em 2018 aqui no A Tal Mineira

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Postagem atualizada em 07.05.2022, às 20:41h: inclusão de homenagens.

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