O inimigo do povo veste farda

por Sulamita Esteliam

O fantasma do golpe jamais deixou de assombrar o Brasil. Acontece porque se dá importância demasiada ao poder dos milicos, que afinal, detêm as armas e inventaram a república brasileira, com Deodoro da Fonseca, em 1889.

E os militares, provado está, ficaram anos no ostracismo e agora, com ganhos extraordinários acima do teto legal, viagra e picanha a rodo, é que não querem largar a mina, mesmo.

Muito bem traduzido pelo cartunista Aroeira na charge que posto mais abaixo, obrigada. E a Carol Cospe Fogo, que abre esta postagem, vai no cerne da questão ao desenhar os “inimigos” da milicada: o povo. Obrigada, também.

É quem sofre as consequências da farra com o dinheiro público – inflação galopante, desemprego a mil e desmanche das polítidas públicas.

É com a vida fácil concedida aos militares que o inominável conta para arrotar valentia e inseminar a dúvida na lisura das urnas eletrônicas para compensar a anunciada perda eleitoral.

Isso se o povo mantiver aceso o juízo, e o Deus brasileiro nos liberar do castigo que já abunda e conceder a graça, no primeiro turno.

Há fortes razões para crer, mas também há sinais de que os coturnos estão atiçados. E agora impulsionados, além das benesses do poder, pela tecnologia e comunicação baseada na mentira e no ódio, pilares da guerra híbrida.

Como barrar a concretização do golpe é a questão que precisa ser encarada pelas instituições pertinentes: no caso, o Ministério Público Federal/PGR , o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral.

A lembrar, e alguém o fez semana passada nas redes, que as Forças Armadas não passam de instância burocrática do Estado, subordinado ao Executivo, como estabelece a Consituição Federal.

Os outros poderes são o Legislativo e o Judiciário, e priu. Militares não são poder algum, muito menos moderador, que inexiste no regime presidencialista.

Em Juiz de Fora, onde encerrou nesta quarta seu périplo de três dias por Minas Gerais, Lula voltou a tocar no assunto “golpe”, mas em tom que mistura ironia e confiança:

“Mas no dia 2 de outubro, o povo brasileiro vai dar um golpe contra o autoritarismo dele. Vai ser um golpe popular para restabelecer a democracia, um golpe sem armas.”

Talvez não baste. Mas, fico por aqui.

Deixo análise de quem tem mais propriedade para falar a respeito. Capturei postagem recente do Luis Felipe Miguel, cientista político e professor da UNB em seu perfil no Facebook.

Captura de tela 2022-05-11 214209

‘A preparação do golpe a pleno vapor’

por Luis Felipe Miguelno Facebook

“Não sei se o golpe já é o plano A de Bolsonaro – isto é, se ele já se desencantou da ideia de ganhar novamente as eleições. Talvez não, não apenas porque a autoilusão é sempre forte em políticos em campanha (taí o Ciro que não me deixa mentir), mas também porque o arsenal de recursos subterrâneos de que Bolsonaro dispõe é grande.

Mas, seja plano A ou B, o fato é que a preparação do golpe está a pleno vapor. O endosso, agora explícito e sem ressalvas, da cúpula do Exército à deslegitimação das eleições é o sinal mais preocupante.
Sempre me alinhei àqueles que pensavam que as Forças Armadas, por mais autoritárias e corruptas que sejam, dificilmente embarcariam num golpe de velho tipo. Por três motivos principais:
(1) São desprovidas de liderança forte, capaz de comandar uma ação desta magnitude. Na verdade, estão divididas em bandos concorrentes, todos interessados em parasitar o Estado brasileiro, envolvidos em disputas territoriais internas.
(2) Sabem que o cenário internacional mudou e que é difícil manter uma ditadura militar aberta num país como o Brasil.
(3) Acham mais cômodo ficar onde estão, desfrutando das benesses, mordomias e oportunidades de negócio, com muitas vantagens, pouco desgaste e nenhuma obrigação. Alguém imagina o Centrão dando um golpe para assumir o centro do poder? Pois é.
Mas agora está claro que um punhado de generais afoitos está fornecendo endosso institucional às manobras golpistas de Bolsonaro. Até onde estão dispostos a ir? Não sei. Talvez ainda seja o velho jogo de ladrar como ameaça, sem grande vontade de efetivamente morder. Mas sempre pode evoluir para algo mais.
E não dá para esperar para ver. É preciso atacar desde já a movimentação golpista e debelar a ameaça.
Cabe ao Supremo vencer a lendária pusilanimidade de seu presidente, Luiz Fux, e tomar a iniciativa, identificando e reprimindo os focos de agitação golpista. Usando, em defesa do respeito às eleições, um pouco da bravura que às vezes exibe em favor de sua própria “honra” vilipendiada.
Na arena institucional, é ele, Supremo, que tem a maior responsabilidade – embora também seja importante que os governadores estaduais enquadrem suas polícias, que o bolsonarismo tenta mobilizar como linhas auxiliares do golpe.
Creio que Lula poderia sinalizar que não terá complacência com os envolvidos na trama golpista. Incluindo políticos civis e também capitalistas que, neste momento, sejam omissos ou coniventes. Parece-me que este é o patamar mais mínimo para a amplitude da frente: não compactuar com o golpe contra seu candidato presidencial…
Trata-se sempre de ampliar o custo do envolvimento na trama golpista.
Cresce também a importância de lutar pela vitória de Lula já no primeiro turno. A campanha para o segundo turno, com Bolsonaro ferido mas ainda na rinha, seria provavelmente o momento de maior risco.
Uma vitória expressiva, já no primeiro turno, de preferência com uma campanha mobilizadora, é o ideal.
Todos sabem das críticas que fiz e ainda faço à chapa presidencial e, mais do que simplesmente a ela, à opção pela recomposição da política de não-enfrentamento dos primeiros governos petistas. Mas é claro que derrotar o bolsonarismo é a primeira tarefa.
O caminho é ampliar a mobilização e organização do campo popular. Para derrotar o bolsonarismo, para garantir o respeito às urnas, para impedir que o futuro governo democrático se limite à acomodação conservadora em posição recuada.”

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