O Zé do bem, guerreiro solidário, é estrela

por Sulamita Esteliam
Zé Alencar aliava garra e alegria de viver à lealdade e bondade. Lula assegura que nunca conheceu alguém igual - foto: Blog do Planalto

O Brasil está de luto pela perda de um guerreiro ímpar. Escrevo no momento em que o corpo do ex-vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva (PR), segue em direção à Brasília. Será  recebido com honras, devidas, de chefe de Estado e velado no Palácio do Planalto, a partir das 10:30. O velório será aberto ao público.  A presidenta Dilma Roussef (PT) e o governador de Minas, Antônio Anastasia (PSDB), decretaram lúcio oficial de sete dias.

Os mineiros também poderão se despedir de Zé de Alencar, ou simplesmente Zé – do bem -, conforme o tratava, carinhosamente, o ex-presidente Lula da Silva. Na quinta, 31, receberá as homenagens dos conterrâneos no Palácio da Liberdade, sede oficial do governo de Minas. O filho de Itamuri, distrito de Muriaé, na Mata Mineira, será enterrado no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte, no mausoléu da família.

Zé de Alencar faleceu na tarde de ontem, no Hospital Sírio Libanez, em São Paulo de falência múltipla de órgãos, aos 79 anos.  Lutou, bravamente, contra o câncer ao longo de 13 anos. Sem perder o bom humor, a ternura, a força moral, a alegria de viver e a firmeza na defesa de seus princípios políticos-empresariais. A quem o perguntasse, dizia que “Deus o levaria quando achasse que não pudesse mais ser útil”.

O portal Uai, dos Diários e Emissoras Associados, publica um perfil-homenagem: aqui.

E o Blog do Planalto publica uma seleção de imagens que também homenageiam o ex-vice.-presidente.

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A presidenta Dilma Roussef e o ex-presidente Lula, em viagem a Portugal, anteciparam seu retorno ao Brasil. Devem chegar a Brasília na tarde hoje. Dilma cancelou parte de sua agenda oficial, e Lula disse que dedicaria o título de Doutor Honoris Causa que recebe, hoje, na Universidade de Coimbra, ao companheiro de tantas lutas na condução do país.

O então presidente Lula e Dilma, já presidenta eleita, visitaram José de Alencar em uma de suas dezenas de internações mais recentes - foto: Blog do Planalto

Dilma e Lula não esconderam a emoção ao receber a notícia da morte do amigo, em telefonema do médico de Alencar. Com voz embargada, Dilma falou do privilégio de ter convivido com ele todos esses anos. Lula não se conteve, e chorou a perda do companheiro leal, devotado  e audaz: “Todo mundo é bom quando morre. O Zé Alencar era bom vivo”, disse.

Lula e Zé de Alencar formaram uma dupla imbatível no quesito cumplicidade e simpatia.  Ambos meninos pobres, que se fizeram na vida, negociadores natos, tiveram trajetórias diversas que acabaram se encontrando no momento certo, exatamente na chapa vitoriosa para a Presidência da República.  Como lembra Carta Maior, “a dignidade venceu o preconceito”. Clique para ler o editorial.

Aqui a nota oficial do PT, que também lamenta a perda e exalta “o companheirismo” do ex-vice-presidente. E aqui o editorial do Vermelho, portal do PCdoB. Clique para ler, ainda, a nota de pesar do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais.

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Dupla imbatível, a despeito das intrigas - foto: Blog do Planalto

É preciso registrar que, se Lula, campeão de popularidade entre os brasileiros, sempre contou com a antipatia da velha mídia demotucana, José de Alencar teve tratamento diverso. A explicação para a reverência é simples: Alencar, apesar da origem humilde, se transformou em uma das maiores lideranças empresariais brasileiras e um dos homens mais ricos do país. E aqui, em terra brasilis, o poder econômico dá as cartas, e o preconceito vigente é o de classe.

Embora crítico ferrenho da política de juros, Alencar, em  verdade, era um nacionalista, e  – nunca se deixou seduzir pelo canto de sereia midiática. Ao contrário, ele é que a seduzia. Como bom mineiro, usava da solicitude para mandar seus recados, muitas vezes na contramão do que lhe fora perguntado – por conta, risco ou encomenda.

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Em minha longa vida de repórter, tive oportunidade de entrevistar José Alencar Gomes da Silva., mais de uma vez, em Minas Gerais.  Eram tempos de busca de alternativas para a direção do empresariado industrial mineiro. A Fiemg era dirigida, há anos e anos, por Nansem Araújo, e Alencar tornou-se presidente, conduzindo a entidade de 1989 a 1995, com foco, digamos, mais social.

Lembro-me bem, que editora-adjunta de Política do jornal Hoje em Dia, entrevistei alguns empresários mineiros sobre o temor da perspectiva Lula, presidente. Ele foi dos poucos a dizer que não havia temor algum, havia opção. Sua resposta, que cito de memória, pois não estou de posse dos meus alfarrábios, foi algo assim”Não tem porque ter medo de Lula. Ele pode ter meu voto no segundo turno, se houver segundo turno”.

Nesta entrevista que concedeu a Paulo Henrique Amorim, no Domingo Espetacular, ano passado, reproduzida no Conversa Afiada, ele confirma que votou em Lula no segundo turno nas eleições de 1989, perdida para Collor de Mello.

Nela ele diz, também, que, depois de 15 cirurgias contra o câncer,  não teme a morte: “Não tenho medo da morte, tenho medo da desonra”.

3 comentários

  1. Zé Alencar inventou o vice não-decorativo, sempre presente, ativo, leal, incansável em seu jeito cordial, mineiríssimo de fazer política.
    em meados de outubro último, falei por e-mail com Daniel, que mora em BH e é sobrinho de um amigo meu e sobrinho-neto do Zé. eu queria saber do quadro de saúde de Alencar, preocupado com o que lia no noticiário. “o trem tá feio”, disse-se, mineiríssimamente. “você acha que ele não verá a vitória da Dilma?” e ele, categórico: “ah, o véio não morre antes da posse não… nem que Deus peça!”

    abraço

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