Povo Quilombola vai à luta por seus direitos

por Sulamita Esteliam
Campanha pela demarcação e titulação das terras quilombolas vai durar dois anos - Foto: José Cruz/ABr. capturada em Carta Maior

Você sabia que há um quilombo encravado  em plena Belo Horizonte? Confesso a minha ignorância: eu não sabia. Pois há, em meio ao Grajaú, bairro de classe média alta na região Sudoeste, entre a Barroca e o Gutierrez. Tomei ciência na reportagem da colega Najla Passos para Carta Maior, a propósito da marcha inédita sobre Brasília pela demarcação das terras quilombolas, na segunda-feira, 07 – foto.

Preservar as tradições e a cultura é ponto de honra no Luízesm - foto capturada no sítio cpisp.org.br

Luízes é o nome do quilombo urbano belo-horizontino, migrado de Nova Lima ainda nos tempos de Curral Del’Rey. Tradicionalmente conduzido por mulheres, nele habitam pouco mais de 100 pessoas, cercadas de prédios e preconceito por todos os lados. Outras 200, da mesma família, estão espalhadas por diferentes regiões da capital mineira, pois suas terras foram engolidas pelas construtoras ao longo do tempo.

Foram empurradas pela especulação imobiliária, como o foram, na criação, os habitantes originais da cidade traçada na prancheta do engenheiro Aarão Reis. Recentemente, em setembro, uma audiência pública, na Câmara Municipal de BH, tratou dessa forma de violência, travestida de progresso, que de há muito achaca o Luízes e outros quilombos urbanos e rurais, de Minas e do país.

O nó da questão é que, embora reconhecidas pelo governo desde 2005, as terras dos quilomboas, até hoje, não foram tituladas. No caso dos mineiros Luízes, por exemplo, dos 18 mil metros originais, restam apenas 4 mil. E se depender das empreiteiras e da vizinhança, não restará um quadrado sequer. É o que descubro em rápida navegada pela rede – aquiaqui e aqui.

Os Luízes lutam, assim, pela regularização fundiária das terras junto ao Incra – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e pela preservação de seu patrimônio e cultura. Não estão sozinhos. A mobilização de ontem na Capital Federal, justamente, deflagra Campanha Nacional pelos Direitos do Povo Quilombola, pela demarcação e titulação de mais de 5 mil territórios Brasil Afora.

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Numa destas felizes coincidências, a reportagem vencedora do Prêmio Abdias Nascimento, na categoria Televisão, foi Quilombolas, da jornalista Vera Valério, da TV Educativa de Maceió/AL, filiada à EBC – Empresa Brasileira de Televisão. A solenidade de premiação aconteceu no Rio de Janeiro, exatamente, na noite do dia 07, dia em que Brasília foi ocupada pelo Povo Quilombola.

De luto pela morte de Gelson Domingos, repórter cinematográfico da Band, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Munícipio do Rio de Janeiro manteve a festa para premiar “a experiência negra” no jornalismo brasileiro – aqui a relação dos premiados. Não poderia ser diferente. A vida tem que seguir.

Na cerimônia de premiação, a presidenta Suzana Blass propôs um minuto de silêncio em homenagem a Gelson, que morreu em serviço, na cobertura de troca de tiros entre policiais e traficantes.

Ainda ontem à noite, o Sindicato dos Jornalistas do Rio confirmou, junto à perícia, que o colete a prova de balas que o repórter cinematográfico usava não era adequado, estava desgastado e não poderia protegê-lo das balas de fuzil. Como de fato não o fez.

Significa que a TV Bandeirantes mentiu sobre o grau de proteção do equipamento usado pelo profissional – saiba mais aqui. Pior, fez pouco da vida de um trabalhador seu, cuja segurança era sua obrigação intransferível.

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Revista e atualizada em 12.11.2011

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