por Sulamita Esteliam

A coisa andou bonita, ou feia – a depender do ponto de vista – na Prefeitura do Recife na manhã desta sexta-feira, 30. Centenas de manifestantes, tentaram participar da 2ª reunião extraordinária do Conselho de Desenvolvimento Urbano do município. Em pauta, o megaprojeto de “reordenação” do Cais José Estelita, uma das paisagens mais impactantes da capital pernambucana, ameaçada de cair nas malhas da especulação imobiliária que tem “fatiado a cidade”, no dizer de uma cidadã recifense. Teme-se os impactos sociais e ambientais da obra.
Convocados via Facebook para o #OcupePrefeitura, por integrantes do grupo Direitos Urbanos – também aqui – os manifestantes tentavam barrar a aprovação do projeto no “apagar das luzes” do mandato do prefeito João da Costa (PT). Alegam que não houve o necessário debate com a população.
Ainda que sem direito a voto, queriam, ao menos, participar da reunião. Um direito de cidadania, diga-se. Um dever de transparência que deve nortear todo e qualquer governo, antes durante e depois da tomada de decisões que refletem na qualidade de vida das pessoas – clique para ler relatos dos acontecimentos.
O Ministério Público se soma às preocupações de quem se opõe ao projeto capitaneado pelo grupo Moura Dubeaux, um dos gigantes da construção civil do estado. De fato, ao que se saiba, houve apenas uma audiência pública para debater o assunto, e ela aconteceu em março deste ano, na Câmara Municipal. Aqui um parecer jurídico sobre as irregularidades.
Em resumo grosseiro, o projeto plantaria 14 torres no local onde hoje há antigos galpões e estações da Rede Ferroviária Federal e a linha mais antiga do Brasil. Prevê, ainda, a construção de estruturas de lazer e turísticas. O terreno está situado entre os dois blocos de galpões. O que à primeira vista pode parecer um bem, pode transformar a vida do Recifense um inferno, a começar pela expulsão das camadas menos favorecidas.
Como se vê, há razões de sobra para esquentar os ânimos. E o clima ficou tenso, hoje, segundo repercutiram as redes sociais ao longo da manhã. As coberturas das mídias locais corroboram – aqui, aqui e aqui.
No frigir dos ovos, a votação foi adiada porque quatro membros do CDU pediram vistas para aprofundar a análise do projeto – IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil; o MDU – Mestrado de Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco, o Corecon – Conselho Regional de Economia de Pernambuco e a própria Secretaria Municipal de Assuntos Jurídicos – aqui.
O Conselho volta a se reunir dia 21 de dezembro. Ganhou-se algum tempo, afinal. A conferir no que pode resultar, pois é certo que a mobilização, que começou com o movimento #Ocupestelita, deve continuar. O Cendhec – Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social divulgou, dia 30 de novembro, Nota Pública em apoio ao movimento – aqui.
Na contramão, a barreira dos interesses da Casa-Grande. Vide as torres-gêmeas do Cais de Santa Rita, também beira-estuário e projeto da mesma construtora. Vide Shopping Rio-Mar, plantado em cima do mangue e sobre a comunidade Beira-Rio, no Pina – aqui. E vide, mais recentemente, a demolição da Vila Oliveira, também no Pina, com a expulsão das famílias que ali habitavam há mais de 40 anos – aqui e aqui, neste blogue.
Para quem conhece o Recife, o Cais José Estelita é o “pontilhão” à direita de quem vai de Boa Viagem para o Recife Antigo, beirando o estuário (transição entre rio e mar – no caso, plural) do Capibaribe, Beberibe e Pina. Tem o para o Bairro de São José e o Cais de Santa Rita, no meio do caminho.
Do Estelita se avista o mar, à esquerda, e Brasília Teimosa, à direita. Melhores fontes de inspiração para a resistência ambiental e cidadã, impossível.
Clique para assinar a petição contra o Projeto Novo Recife. Euzinha, claro, já assinei.

PS: Postagem revista e atualizada em 03.12.2012, às 12:02.
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