Poema para Dilma nos 10 anos das jornadas

por Sulamita Esteliam

Resolvi publicar meu livro de poemas. Volta e meia ao meu mundo, desde os primeiros versos, aos 14 anos, dedicados ao mar que então não conhecia. Meu presente de 70 voltas em torno do Sol, a serem completadas no próximo 28 de dezembro – logo ali, portanto.

O título do livro é Trôpego Sexo – poemas de março e outros janeiros. Ainda não sei a editora.

Compartilho, em primeira mão, quentinho, quentinho, no gancho dos 10 anos do que se convencionou definir como Jornadas de Junho, o poema que, por assim dizer, fecha o tempo da obra.

Homenagem a uma irmã por escolha, a única dentre as várias que cultivo que ainda não pude abraçar.

Que mulher é essa!
(para Dilma Rousseff)

Puxaram-lhe o tapete:
na rasteira do preconceito,
no diapasão da intolerância,
na multiplicação da violência,
na batida misógina, racista,
homofóbica, classista.
A porta da rua é a serventia
para quem não se enquadra
no rito nacional do convescote:
quanta ousadia!

Uma fraude escandalosa,
combinada em três tempos:
assédio, achaque e armação.
E em três frentes de poder:
Legislativo, Judiciário
e a plutocracia pluripotente do dinheiro,
que os alimenta e sustenta.
E aí se locupleta a mídia venal e corrosiva,
desavergonhada e descompromissada,
que se apoia em comensais,
mordomos-usurpadores,
vampiros do povo brasileiro.

Depuseram a presidenta,
primeira e única!
Mulher guerreira, de fibra e raça,
legitimamente eleita e aclamada
com 54.501.118 milhões de votos,
dos sete cantos do país.
É o Brasil que não se cansa
de embaçar o futuro em capitanias hereditárias
e tombar aos milhares sua gente, seus corpos.

Um golpe vergonhoso, mais um,
contra a brava gente brasileira,
contra a Nação que teima
em brincar de esconde-esconde
com a própria sorte.
O rastro da fome é o norte:
desemprego e desamparo,
o horizonte violado, o país desnorteado
no desespero da bulimia,
muito antes da pandemia.

Direitos dissolvidos em lama,
pistolagem, presepadas e jogatina
castram e adiam o sonho da cidadania.
E pensar que tudo começou por vinte centavos,
em jornadas de um junho nada poético,
transformadas em cortejos apologéticos:
multidões teleguiadas em romaria
por um Brasil padrão-Fifa e sesmarias
ensaiaram o golpe que viria.
A pátria-amada nada gentil,
dividida e aviltada, caldeirão de vilanias.
Cobiçadas as suas riquezas,
sangrada em suas belezas
a exalar o cheiro da morte em vida severina.

Não foi por falta de aviso.
Mas a história é implacável,
e o mundo dá voltas e piruetas.
A roda do tempo, cavaleiro andante,
não tropeça no vento nem tem medo de careta.
Lealdade, consciência e firmeza
traçam os caminhos premonitórios,
ainda na despedida:
“Esta história não acaba assim. Voltaremos!”

O Brasil é grande demais.
O Brasil é bonito demais.
O Brasil é diverso demais
para caber na pequeneza
de um golpe de Estado de qualquer matiz,
vista ele paletó e gravata, toga ou farda;
empunhe moedas, gargantas, microfones ou fuzis –
em nome da ganância, da mentira,
da mamata ou do complexo de vira-latas.

Aos vencedores, as batatas!
A mulher alvejada, sim, alquebrada jamais.
Altiva e confiante, sagaz e divertida.
Competente, corajosa, voluntariosa e exigente.
Politicamente discreta, avessa a holofotes,
não engole desaforo, não dobra a espinha
não cospe no prato quente.
Não nega fogo nem foge à luta,
cumpre a jornada, com inteligência,
bem distante da força bruta.
É olho no olho que encara a vida:
com amor, empatia, sororidade e destemor.
A ela, o lugar que lhe pertence:
nada menos que o topo do mundo
para Dilmãe, coração valente!

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