por Sulamita Esteliam
Difícil para a turma do contra encontrar argumentos para jogar para baixo o tema escolhido para a redação do Enem 2023, parte da prova inaugural sobre linguagens e ciências humanas: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
Absolutamente pertinente.
Sabe quantas horas envolvem, por exemplo, a amamentação básica de um bebê no primeiros seis meses de vida? A bagatela de 650 horas. E olha que o ideal para o desenvolvimento saudável da criança é que seja amamentada por leite materno nos primeiros 2 anos de vida.
O cuidado é a base invisível da vida doméstica e do trabalho externo, e essencialmente é feito por mulheres. São 7 milhões no Planeta, segundo a OIT.
Há um termo para esse trabalho não-remunerado: “economia do cuidado”, nos termos da Oxfam – Tempo de cuidar:
“A economia é um conjunto de regras invisíveis que organiza a forma como vivemos.
Mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não-remuneradoCuidado é um trabalho de manutenção da vida que envolve muitas horas e tempo dedicado: dar banho e fazer comida, faxinar a casa, comprar os alimentos que serão consumidos, cuidar
das roupas (lavar, estender e guardar), prevenir doenças com boa alimentação e higiene em casa e remediar quando alguém fica ou está doente, fazer café da manhã, almoço, lanches e jantar para os filhos, educar e segue por horas a fio.”
Foi dissecado pela Think Olga em pesquisa com vistas a soluções via inovação social, deflagrada durante a pandemia do Covid 19.
Os tempos terríveis de mortes aos milhares e isolamento social são inesquecíveis, mas permanece a questão central investigada na pesquisa, o que torna relevante trazê-la à memória.
A questão central dialoga com o tema da redação do Enem 2023: “Como viabilizar o trabalho invisível das mulheres na economia do cuidado?”
Confira um recorte das possibilidades sugeridas pelo estudo da Think Olga:

Dentre outras coisas, o levantamento detectou que as mulheres dedicam 61 horas semanais a atividades do cuidado não-remuneradas. Esse trabalho não pago equivaleria a 10,8 trilhões de dólares, só alcançados por quatro economias mundiais, e o Brasil não é uma delas.
A coisa fica mais séria quando se traz à baila o recorte de raça.
Se 93% do trabalho doméstico na América Latina e no Caribe está nas mãos, braços e pernas das mulheres, no Brasil 47,8% das mulheres negras estão no trabalho informal e 63% das casas chefiadas por essas mulheres estão abaixo da linha da pobreza.
Compartilho uma pílula em vídeo com o resumo do trabalho:
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- Aqui o acesso à íntegra do relatório: Acesse, role a tela até o final e clique em “Leia o material” em PDF.
- Mais literatura sobre o assunto “Economia do Cuidado” na Revista da Fapesp, edição 299 de janeiro de 2021. É da reportagem de capa a imagem que abre esta postagem: ilustração de Linoca Souza. obrigada.