A covardia golpista é histórica

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por Sulamita Esteliam

Alguém nesta Terra Brazilis ainda consegue ficar estarrecido, mas não deveria. As revelações escabrosas do relatório da Polícia Federal sobre a articulação do golpe contra a democracia, gestado in palácio presidencial, são parte da rotina, da ciência e capacidades do Coisa-ruim e seus imediatos e assemelhados – seja tentente, seja cabo, capitão, almirante ou general.

Golpe militar-civil é uma constante neste país desde o advento da República. E a impunidade é o prêmio que se dá em nome da tal cordialidade brasileira, tão logo se restabelece a pretensa normalidade democrática.

Deixar livre os conspiradores, torturadores, sequestradores e assassinos de cidadãos e cidadãs, opositores do regime que desrespeita o Estado Democrático de Direito, é dar-lhes passe livre para voltar ao jogo sujo, covarde e ditatorial.

Quem essa gentalha pensa que é? E ainda tem a audácia de reivindicar anistia, e a cara de pau de acusar perseguição política. Faz-me rir, diria minha avó analfabeta, mas inteligente e vivaz.

É justo quando se faz a coisa certa que a horda grita, pois ela só reina no caos.

Demorou, mas é chegada a hora da verdade: que se faça justiça contra a turba que nos quer a todos nas profundezas da mediocridade. O Universo nos dá nova chance de cortar o mal pela raiz.

Urge buscar nova ordenação para as Forças Armadas do Brasil, caçando seus privilégios e de sua descendência. Explicitar seu papel constitucional, para que não reste dúvida sobre a guarda e o lugar que lhe cabe.

Tão normal desrespeitar a vontade popular, que torna-se rizível o desplante de negá-lo. Assim como o é naturalizar que se trate o assassinato do virtual chefe do governo, seu vice e o presidente da instituição responsável por organizar e fiscalizar o processo eleitoral.

Chegou-se ao requinte de redigir-se um auto presidencial de tomada-permanência no poder. Mais, projetar-se campo de concentração para encerrar o inimigo. Está no relatório – deixo o documento, liberado pelo ministro Alexandre de Moraes, ao pé da postagem.

Se a Lula e Alckmin estava reservado o recurso da cicuta, o que em si é bastante simbólico, a Alexandre de Moraes estava definido o martírio: arrastá-lo pela Esplanada amarrado a um veículo militar.

Revival do tramento que antepassados de coturnos deram o deputado comunista caçado, Gregório Bezerra, amarrado pelo pescoço, chicoteado e arrastado pelas ruas do Recife, desde a Praça de Casa Forte, Zona Norte, nos idos de 1964.

O homem era sobretudo um forte: sobreviveu às sevícias, a 23 anos de prisão acumulada em diferentes golpes, ao exílio, ao enxovalhamento. Viveu até os 83 anos e deixou seu legado registrado em dois livros de memórias. É para isso, também, que servem os livros.

Mesma sorte não teve Rubens Paiva, retirado de casa pelo arbítrio, na frente de mulher e da prole, seu corpo jamais foi encontrado; como centenas de pessoas, maioria jovens, que desapareceram na longa noite de terror.

Paiva foi torturado “por ordens superiores” e morto em um quartel militar no Rio de Janeiro. A verdade sobre o assassinato só veio à tona com o depoimento de um dos torturadores à Comissão da Verdade, criada pela presidenta Dilma Rousseff, ela própria uma sobrevivente da tortura nos anos de chumbo.

Deputado, engenheiro, empresário e jornalista, Rubens Paiva era um defensor das reformas de base que levaram à derrubada de João Goulart.

A saga da família em busca da verdade é relatada pelo filho Marcelo Rubens Paiva, no livro que resultou no premiado fime “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles Jr. Explosão de bilheteria, premiado em Cannes e candidato ao Oscar de melhor fime estrangeiro.

Selton Mello, que, por assim dizer, ressuscita o deputado, e Fernanda Torres, que interpreta Eunice, a esposa-mãe, colecionam aplausos e ganham o estrelato internacional.

Fernanda Montenegro faz a heroína no fim da vida, e a semelhança de mãe e filha leva a uma experiência sensorial surpreendente, testemunham espectadores.

Oportunidade para as gerações desses e de outros tempos re-tomarem contato com a verdade histórica, em conexão com a realidade contemporânea, sem grande esforço intelectual. A arte é ferramenta primorosa nesse mister.

Fico por aqui: só para não dizer que, no início da semana em que lanço meu terceiro livro, não falei dos espinhos, defesa natural das flores.

Relatóro PF Golpe 2024.pdf

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