De perdas e ganhos: na vida e na arte

por Sulamita Esteliam E lá se foram Sebastião Salgado e Maria Lúcia Godoy encantar estrelas! Dois artistas das Minas Gerais que cravaram sua marca de beleza no mundo. Definitivamente, Deus não gosta de gente ou coisa ruim.
Ele, poeta das imagens, ativista social e da preservação do meio ambiente, dia 23 de maio, aos 81 anos. Ela, voz de ouro na música lírica, interprete inigualável da obra de Villa Lobos, dia 15, aos 100 anos. O ano de 2025 tem sido de perdas dolentes – o pleonasmo aqui se justifica pela amplitude de quem nos deixou pela eternidade. É preciso contar os corpos de crianças palestinas no genocídio programado por Israel em Gaza: sobem de 19 mil em 200 dias de conflito contados em 24 de abril, 44% dos assassinatos em massa. Não se pode deixar de registrar que as mulheres formam o segundo maior grupo-alvo da matança: 10,4 mil mulheres no período assinalado: 24,5% do total. Uma delas, a fotojornalista Fátima Hassouna, que teve sua casa atingida por um míssil israelitaem 16 de abril; tinha 25 anos. Um dia antes, recebera a notícia de que seu filme sobre o assassinato em massa de sua gente estava incluído no Festival de Cannes. Com ela morreram 10 pessoas de sua família. A presidenta do festival, a atriz Julilette Binoche, se emocionou ao homenagear Hassouna  (foto capturada na Internet)  na abertura do evento:
– Hoje ela deveria estar entre nós.
Nem em Aushwists se matou tanta criança, e provavelmente, tantas mulheres, como nesta guerra. E quem denuncia é o presidente da Federação Palestina no Brasil, Ualid Rabah, em debate na Câmara dos Deputados, no final de abril, registrado pela Agência Câmara de Notícias.
“É o maior programa  de genocídio da história humana conhecido, que visa à desaparição de toda uma sociedade, que visa uma solução final, que visa um holocausto, talvez, jamais pensado na história humana.”
A eliminação planejada, com o objetivo de tirar do mapa o povo palestino, é bom deixar claro, é alimentada pela indústria armamentista estadunidense; e pelo dinheiro farto de judeus históricos plantados em território cúmplice da matança. Têm sido cada vez mais intensos e maiores os protestos mundo afora. A humanidade, os governos, as organizações humanitárias não podem ficar inertes diante deste novo holocausto. Parar Israel requer parar os Estados Unidos: os dois países se retroalimentam de crueldade em interesse próprio. Alguém precisa ter coragem de botar o guizo no pescoço do predador.
Pepe Mujica e a companheira Lucia, nas comemorações dos 50 anos da Frente Ampla, que ajudaram a criar – Foto capturada no perfil de Mujica no Instagram
Há poucos dias, em 13 de maio, o extraordinário Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, senador, deputado, ex-preso político e torturado. Sua resposta a quem insistia que devia tratar-se para seguir atuando politicamente deixa claro que sua morte foi livramento ansiado.
“Deixe-me morir em paz.”
O eterno guerrilheiro, companheiro de vida da amada Lucia Topolansky, também política – senadora e vice-presidente do país – foi alvo de um câncer feroz. Em março, o escritor-conterrâneo Affonso Romano de Sant’Anna, o maior gentil homem que pude conhecer, também se encantou. Marina e Affonso Romano em Porto Alegre – Foto: Félix Zuppo/Flickr Seguiu ao encalço da amada, Marina Colasanti, sua principal cuidadora, que puxou a fila em janeiro; ele completaria 88 anos em 27 de março, encerrou o ciclo 23 dias antes. Ela também não esperou o aniversário de 88 anos, em 26 de setembro. Em 21 de abril, o papa Francisco encerrou sua trajetória neste plano, levando consigo o argentino Jorge Mario Bergoglio, aos 88 anos completados em 17 de dezembro de 2024.
Guy de Almeida, jornalista e professor – Foto capturada na internet
Rigor e correção é o legado que nos deixa   jornalista mineiro, Guy Affonso de Almeida   Gonçalves, que se despediu em 2   de maio – dia   e que meu irmão de sangue,   Alarcone Lalá,   completou 70 anos. Faria 93 anos no início de   agosto, dia 5 se a memória não me falha. A força de caráter do Guy o distinguiu através de   gerações: correção e capacidade de acolher e     reconhecer talentos, e assimilar razões, apesar   do gênio “Sá Onça”, o fez temido e respeitado,   para muito além do jornalismo. Exilado político no período da ditadura, no Chile e no Peru, Guy ocupou postos na ONU e na PUC Minas, foi vice-governador do Distrito Federal e secretário-Geral do Ministério da Cultura em 1985. É dele o prefácio do meu primeiro livro, Estação Ferrugem – Vozes/Prefeitura de Belo Horizonte, 1998. Trabalhei com Guy no sistema Jornal de Casa/Diário do Comércio, de 1981 a 1984, quando ele se retirou ser vice do Ministro da Cultura, José Aparecido de Oliveira, no governo Sarney. Quantas histórias tenho para contar sobre nossa convivência! Reserva para o livro de memórias profissionais, que preciso retomar, antes que seja tarde. Não poderia, portanto, deixar de, estando na terrinha, comparecer ao seu velório no Parque da Colina. Meu companheiro Julio e a irmã por escolha, Eneida da Costa, ex-presidenta do nosso sindicato em Minas me acompanharam. Havia acabado de retornar de Brasília, aonde estive para divulgar meu livro mais recente. Elma Heloíza Almeida, que foi minha editora no Jornal de Casa, que nomeei minha fada-madrinha, e prestigiou o lançamento na capital federal, também veio para as despedidas. Não nos reencontramos na ocasião. Tornei a Beagá, onde já estivera para o lançamento da antologia poética Palavra Mineral, que reúne a arte de 56 jornalistas poetas, sob o selo editorial da Casa de Jornalistas. Organizado pelo colega de verso, prosa e política, Carlos Barroso, a intenção é distribuir o livro pelo circuito livreiro da Savassi, bairro boêmio-cultura, de comércio ativo, na Zona Sul da capital mineira. Há três poemas meus no livro: Sensorial, Impotência e Vá, Carlos! Impotência fez história quando tornou-se gatilho para deflagrar a primeira greve estudantil em 1976 na ditadura pós-AI-5. Fernando Grossi, radicado há décadas em Brasília, pode confirmar o que digo: ele presidia a assembleia no sagão da Fafich/UFMG, no Bairro de Santo Antônio, e espertamente leu o poema, que eu entregara para ele na convocação em sala de aula, antes de colocar a greve em votação. Na Macondo de origem, compromisso essencial foi o casamento dos sobrinhos Alarcone/Coninho e Mariliz, em pleno domingo, 4.  Cerimônia emocionante. Casamento do Coninho com a Mariliz, em casa no São Luiz-Pampulha – Foto: SEsteliam-4 de maio de 2025 Outro era levar O Livro de Dora e suas Irmãs – de afetos, fantasias, dores e silêncios à Bienal Mineira, na sequência. Por motivos diversos, lá, acolá e lô, pude rever muita gente com quem convivi profissional e fraternamente. Mas se faz bem ao ego e à alma registrar ganhos na vida e na arte, as perdas não cessam, enquanto vida há no prazo de validade: uma semana depois, Euzinha já de volta para casa, no Recife, lá se foi a também mineira jornalista e publicitária Neide Pessoa, queridíssima, aos 88 anos. A propósito, dia 28, tem homenagem para ela na Casa de Jornalistas, com programação para lembrar seu lado seresteira: com a participação luxuosa do casal Mirtes e Silvio Scalioni, de Margareth Petersen e Marquinhos Rocha. E uma boa prosa mineira. Perdi. Tínhamos em comum, dentre outros princípios, a luta pelos direitos humanos e a admiração por Clara Nunes, a Tal Mineira que homenageio neste blogue.  Neide foi visinha da artista na Renascença, quando ainda batalhava espaço no rádio, mantendo a profissão de origem: tecelã. Não consegui visitar a Neide, absorvida pelo rame-rame de minhas estadas em Beagá. Não é desculpa frouxa, mas alerta para a importância de priorizar a amizade, enquanto há vida. Lamento muito. Ativista política e comunista, autora do cartaz pela Anistia Política em 1979, pela volta dos defensores da democracia exilados pelo terror. Premiado pela ABI – Associação Brasileira de Imprensa e pelo Pasquim. Neide manteve a coerência e a doçura invejáveis: pulou o ritual e, em vida, tornou pública a doação do corpo para a Escola de Medicina da UFMG. Mestre Guimarães Rosa, que criou a expressão “ficam encantadas” para definir as pessoas que fazem a travessia e permanecem em nossos corações, escreveu muita coisa bonita que explica a vida e o desapego:
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da é coragem.”
Só que não há anistia para a dor: ela amaina, finge que passa, mas vai e volta, como uma dor de dentes mal tratada. Pouco importa que seja o destino de toda vida que brota e perpassa por aqui. Você segue em frente, mas a dor está lá, amoitada no canto da alma, debaixo do travesseiro, no retrato na parede, no baú de lembranças, que às vezes também nos faz rir da nossa brevidade, mas é dor, amortecida pelo tempo vão. A dor só passa quando chega a nossa hora de fazer a passagem. Tenho pensado larga e longamente a respeito, e digo que creio que ainda tenho muito a cumprir por aqui. Todavia, estou pronta, e não temo a hora do embarque – ou do desembarque, a depender do ponto de vista -, muito menos a viagem. Até porque, não há temor que afaste a nossa vez… ******* Com Agência Câmara de Notícias, no que se refere ao holocausto palestino.
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Postagem revista e atualizada em 27.05.2025, às 12h51: incluir o assassinato de Fátima Hassouna, fotojornalista palestina em 16 de abril.
Postagem refeita na mesma data, às 12h59 devido à desconfiguração ocasionada por bug no sistema WordPress: com minhas desculpas pelo inconveniente.

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