Beagá: barreiras, ladeiras e prazeres

Por Sulamita Esteliam
Vista aérea da Praça da Liberdade, com o palácio do governo clicado pelos fundos. Foto: Marcelo Pinheiro

Desculpem-me, mas reservei a sexta para tentar desatar alguns nós com raízes nas Geraes. De quebra, aproveitei para revisitar minha Beagá da juventude, hoje nem tão cordial assim… Mas isso é papo para outra postagem. E para curtir amigos, e parte da minha extensa e substanciosa família.

Compartilho com vocês o resumo da ópera sextanista:

1) Encarei um cartório, de nome Oliveira, no centro dito nobre de Belo Horizonte. Tudo devidamente informatizado e compartimentado, a partir de uma senha…

2) Preciso de procuração pública de minha filha – a terceira de seis, dos quatros que eu pari. Junto a necessidade de cumprir exigência legal de abertura de pessoa jurídica – e na área de comunicação, do ponto de vista fiscal, não existe empresa individual – com o contexto presente e futuro: sou jornalista, minha filha é publicitária, relações públicas e produtora de eventos. Somos complementares.

3) Ocorre que, no referido cartório, só há agenda para fazer um procuração pública em janeiro. Sem problemas se eu não morasse no Recife, não tivesse já extrapolado meu tempo programado para as Alterosas, e não tivesse passagem marcada para as primeiras horas da manhã do dia 22. No caso, não há argumento capaz de vencer o estabelecido, e o bendito cartório é o mais conveniente para nós.

4) Levei meia hora para conseguir deixar o estabelecimento com a cópia autenticada de RG e CPF, pelos quais paguei a bagatela de R$ 8,54. É por isso que todo tabelião acaba rico, e a burocracia vai continuar atazanando a nossa vida, indelevelmente, obrigada.

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5) Quis almoçar na Cantina do Lucas, no velho Edifício Maleta, na Augusto de Lima com Bahia. A comida é boa – do menu de lá incorporei o fetuccine à parisiense, o peixe ao comodoro e o peru à francesa; aliás, me ocorre que faz tempo não frequentam minhas panelas. Tempos do senhor Olímpio, o garçom mais querido e longevo da velha Beagá, ainda cordial, estrela na constelação humana faz alguns anos.

Impossível: nem uma mesinha vaga para contar a história, e nenhum conhecido à vista para filar um lugar… É nisso que dá, viver longe da terrinha há 21 anos.

Cardápio básico das Geraes. Foto: sítio Butecando

6) Retornei sobre minhas próprias pegadas. Arrisquei o Butecando – Restaurante Cultural, trinta passos acima, em direção à Espírito Santo. Xuxu, minha amiga-irmã, já havia tentando me levar ali, há cerca de um ano, numa noite em que, depois de um espetáculo musical no Palácio das Artes, buscávamos – eu, ela e minha irmã-amiga Lili – um canto para botar a conversa em dia. Devidamente regada. Então, para variar, o Lucas estava tomado, e o Butecando de portas cerradas. Desta vez, conferi: lugarzinho simpático, bufê razoável, preço decente. Informaram-me que é da filha do dono do Lucas.

7) Nos fundos do restaurante, espaço para shows e pista de dança. A programação é variada: do forró pé-de-serra à música caribenha, passando pelo samba-canção e samba de raiz. E títulos sugestivos para cada noite: Terça em Cartaz, Quinta Autoral, Sexta de Balanço, Sábado di ver cidade. Não souberam me explicar por que a quarta sobra. Ingressos de R$ 10 a R$ 12, a  partir das 23 horas. Bom saber que o centro de Belô volta a ter alternativas culturais acessíveis: www.butecando.com.br/.

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Monumento Praça Afonso Arinos, na Álvares Cabral com Augusto de Lima, João Pinheiro e Goiás, a uma quadra da Bahia. Foto: Marinho/Flickr

8) Depois do almoço, subi a Bahia até a Álvares Cabral. Em frente ao Sindicato dos Jornalistas, peguei o amarelinho-circular para a Assembleia Legislativa. Fui me encontrar com a amiga-irmã Eneida, que é produtora da TV Assembleia. Não entrei no Sindicato, casa da qual me orgulho de já ter sido vice-presidente. Se o fizesse perderia o horário de Dêda deixar o trabalho.

9) Externamente, o prédio do Legislativo mineiro é o mesmo dos meus tempos de repórter política. Nos anos 80, fui a segunda mulher a frequentar o centro de imprensa – à época, reduto machista e conservador por excelência. Trabalhavalha no Diário do Comércio, depois na sucursal de O Globo. A primeira jornalista política de Minas foi Ângela Carrato, do Jornal de Casa, do mesmo grupo do DC. Outras chegaram, ainda naquele começo dos anos 80, mas tenho péssima memória para nomes: Jalmelice, do Jornal de Minas, é uma das quais me lembro, vivamente.

10) Internamente, o prédio da Casa do Povo está mudado: tem até auditório com pauta para música, teatro, dança. Artistas e grupos inscrevem seus projetos para seleção. Muito legal!

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11) Cortamos, eu e a Eneida, a Praça da Assembleia, onde acontece a Feira da Providência, artesanato em benefício de obras sociais; tradição de dezembro que se mantém. Descemos a Álvares Cabral e sentamos no Esquinão, boteco com pequeno espaço interno, mas um varandão instalado na calçada, como também é praxe. Cerveja gelada, butequeiro atencioso e simpático, e o melhor pão de alho que já provei até hoje: recheado com requeijão, coberto com parmesão e crocante.

12) Demoramos um pouco mais do que o previsto. Em compensação, pude rever Raquel, a primogênita de Eneida, jornalista como nós, exercendo competência em assessoria de Comunicação de empresa privada. Orgulho.

Primo Wanderley acarinhado pela prima-esposa, Lourdes, e Lela, a caçula dos quatro que o casal gerou e criou. Foto: álbum de família

13) Ganhei uma carona providencial até a casa de meus primos Lourdes e Wanderley, a 200 metros do antigo Palácio dos Despachos do Governo de Minas e da Praça da Liberdade. Encontro minha prima-amiga revivida, depois de cirurgia delicada do reloginho-coração. Linda, leve e serelepe. Viva!

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No melhor da tradição montanheza – de apostar no amor e na sorte, desafiando a genética – meu casal de primos têm quatro filhos já adultos; maravilhosos, saudáveis, inteligentes e afetivos, e que me tratam por “tia”. Aí, chope e paçoca de carne de seca com manteiga de garrafa no bar da esquina; em família.

E a noite virou criança, e alimentou minha alma.

Por que hoje é sábado, recomeçamos, em outro núcleo destas plagas das minhas origens.

Bom fim de semana.

2 comentários

  1. Olá, Sula querida. Seu blog é ótimo. Já tinha dado auma espiada antes. Mas, quando você diz que fez referência a mim, fui à procura. Obrigada pela lembrança daqueles tempos. Hoje, vejo que foi um processo de amadurecimento e aprendizagem e amor pela profissão. Você, Raquel Matos, Miriam Gontijo, entre outras mulheres jornalistas, foram referências importantes na minha vida pessoal e profissional. Com erros e acertos já são quase três décadas de jornalismo, de trabalho suado, pouca grana, alegrias, tristezas, mas com dignidade. Você é inspiradora. Obrigada. Bjs

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