por Sulamita Esteliam

O Palácio da Liberdade, que José Alencar Gomes da Silva não conseguiu ocupar pelo voto, o recebeu com honras de chefe de Estado nesta quinta-feira, 31 de março, para a derradeira homenagem dos mineiros. Coincidente e ironicamente, no dia do aniversário de 47 anos do golpe militar. Golpe que nasceu civil, engendrado, dentre outros, pelo então governador mineiro, José de Magalhães Pinto, naquele mesmo palácio. E que nos impôs uma ditadura de 21 anos, instalada em 1º de abril de 1964.
O corpo do Zé, um democrata convicto, foi velado no salão principal da antiga sede do governo de Minas durante parte da manhã e o começo da tarde, na presença dos familiares e de autoridades. O povo enfrentou longa fila e forte segurança para ter a oportunidade de passar pelo caixão do ex-vice-presidente: o tempo de um olhar.
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Às 15:23 aconteceu a cremação, no Parque Renascer, na vizinha Contagem – clique para ler reportagem no Portal Uai. Os familiares decidiram atender ao desejo de Zé Alencar, ao invés de enterrá-lo no mausoléu da família no Cemitério do Bonfim, Zona Noroeste de Beagá. O vice-presidente morreu na tarde do dia 29, em São Paulo, encerrando dura, mas digna e corajosa, batalha contra o câncer. Clique para ler neste blogue.

A presidenta da República, Dilma Roussef, o ex-presidente Lula e a ex-primeira-dama, Marisa Letícia, compareceram ao adeus ao ex-vice-presidente, que acabou levado pela doença. Deixaram o Palácio da Liberdade pouco antes da saída do funeral.
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Não resisti e fui até a Praça da Liberdade registrar o movimento, levando junto uma irmã e uma sobrinha. A fila de visitação preenchia todo o lado direito, contornava pelo pé e seguia em direção ao palácio pela lateral da alameda central. Por ela entrou o cortejo de José Alencar Gomes da Silva, escoltado pelos Dragões da Independência até o salão nobre. O mesmo espaço onde também foram realizados parte das cerimônias fúnebres de Tancredo Neves em Minas Gerais – ele foi enterrado em São João Del Rey, sua terra natal.
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Há 36 anos, esta reles blogueira estava lá, no meio da multidão, cobrindo o clima de consternação que se apossou dos brasileiros de modo geral, e dos mineiros em particular. Apesar de eleito pelo Colégio Eleitoral – deputados e senadores congressistas que, um ano antes, com as artimanhas do próprio Tancredo, adiaram o sonho das diretas-já. Aliás, defendidas desde sempre por Alencar, a época restrito às suas atividades empresariais. A despeito de tudo, o avô de Aécio e Andréa Neves incorporava a lenta e gradativa transição democrática no país.
Por pouco, naquele 23 de abril de 1985, esta intrépida repórter, então da sucursal de O Globo, não ficou sob as grades do Palácio da Liberdade. Pressionadas pela onda humana, desabaram sobre a multidão, deixando três mortos. Esta escriba, com experiência de transitar em grandes aglomerações, se deixou levar pela horda. Foi, literalmente, catapultada para o gramado dos jardins palacianos, minutos antes da tragédia acontecer.
Ossos do ofício que a lembrança teima em resgatar.