Boas notícias para começar o ano de vez

por Sulamita Esteliam

Olá! Espero que tenham tido uma boa virada de ano e que 2012 tenha escancarado um belo sorriso para vocês. Passei o reveillon em família, em Porto de Galinhas, e aproveitei para tirar uns diazinhos de férias. Escapadela para curtir, mais intensamente, a presença de visitas raras e queridas. Sei que entendem. E, ademais, eu mereço.

Inauguro o ano no A Tal Mineira com uma notícia boa, para favorecer os bons fluídos para o resto do ano. Foi-me enviada pelo querido amigo – e parceiro de microfone nos saudosos tempos do Violência Zero, pela Rádio Olinda – Ruy Sarinho, jornalista, radialista e pai amantíssimo de três rapazes e uma linda mocinha; na verdade, um pãe esculpido no afeto e na necessidade.

O texto-reportagem descreve o retorno a Pernambuco e ao Brasil, dia 03, do legendário padre Vito Miracapillo, expulso do país já nos extertores da ditadura dos coturnos. “Momento belíssimo”, nas palavras de Ruy, nosso Dom Quixote da Comunicação – conforme a amiga-irmã de fé, Eneida Costa, hoje presidenta do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais.

Posto, também, o vídeo com reportagem da TV Jornal, que encontrei no YouTube, sobre a chegada do padre Vito. O amigo Ruy Sarinho aparece, rapidamente, com seu novo chapéu de abas e, conforme descreve no recado que me enviou sobre onde encontrar fotos, “barbas cada vez mais brancas, parecendo um papai-noel sertanejo, da fome e da seca”. Ele é assim, desse jeito…

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PADRE VITO MIRACAPILLO: “O avião da expulsão deu a volta”!

Rui Sarinho*
Padre Vito Miracapillo - foto capturada no portal Vermelho.org.br

Visivelmente emocionado, feliz da vida e sorrindo muito, o Padre Vito Miracapillo foi recebido nos braços dos seus amigos de Ribeirão e de Pernambuco, na noite dessa terça-feira, 03 de janeiro de 2012, mais de 31 anos após ser expulso do Brasil, em outubro de 1980, nos últimos anos da ditadura militar de 1964, pelo general-ditador de plantão, João Batista Figueiredo, aquele que gostava mais do cheiro do cavalo do que do povo brasileiro.

Depois do desembarque, cercado por umas cinqüenta pessoas que foram recepcioná-lo, entre antigos participantes da Pastoral Católica de Ribeirão, integrantes de movimentos de direitos humanos, políticos, jornalistas,  simples admiradores, ou apenas curiosos, o Padre Vito falou ao telefone com o arcebispo de Palmares, Dom Genival Saraiva de França. Na conversa, com um forte brilho nos olhos e um sorriso expansivo, ele resumiu ao amigo todo o seu sentimento, nesta volta definitiva a Pernambuco: “O avião da expulsão deu a volta”!

Entre seus amigos e seguidores, o casal Norma Sueli e Oscar Tavares de Melo, casado pelo Padre Vito no mesmo ano de sua expulsão do País, Cícero Tavares de Melo e Sônia, todos participantes da Paróquia de Ribeirão na época em que o religioso desenvolvia seu trabalho naquela Cidade da Zona da Mata pernambucana, eram o autêntico retrato da felicidade. Eles relembravam atitudes do Padre Vito, na defesa da população massacrada pelos latifundiários aboletados em suas grandes fazendas, atuação que incomodava esses distintos simpatizantes do golpe militar. “O Padre Vito denunciava as injustiças e fazia a população refletir sobre elas”, sintetizou Oscar. Já sua mulher, Norma Sueli, com as flores nas mãos que levou para o querido amigo, ria ao lembrar que na estrada, no seu fusquinha acanhado, ele saía dando carona a todo mundo que encontrava pelo caminho. “Entravam mais de dez, de um em um; certa vez, ele terminou com o volante solto, na sua mão”, contou.

A história, ainda tem gente, principalmente os mais novos, que não conhece, ou apenas ouviu falar. No dia sete de setembro de 1980, o Padre Vito Miracapillo recusou-se a celebrar a missa programada pela Prefeitura Municipal de Ribeiro, Cidade da qual era o pároco, em comemoração ao Dia da Independência do Brasil, por entender que aquele povo, sofrido e humilhado pela miséria social, pela exploração dos patrões do coronelismo rural e violência da ditadura militar vigente, não havia conquistado, ainda, a sua independência. Depois do episódio, incitado por esses latifundiários e pela ação de um obscuro e folclórico deputado estadual, Severino Cavalcante, que era uma dos mais fiéis lambedores das botas dos generais, João Batista Figueiredo baixou um decreto, expulsando o religioso do Brasil.

“Para nós, foi a morte”, definiu a paroquiana de Ribeirão, Norma Sueli. Apesar da frase forte da sua amiga fiel, de certa forma, a expulsão do padre italiano Vito Miracapillo pode ter sido a salvação de sua vida. Ninguém que viveu aquela época duvida que se ele, tivesse permanecido em Ribeirão, poderia ter sido assassinado, como o Padre Henrique, por pistoleiros contratados pelos fazendeiros da região, com o aval dos militares, incomodados com as suas pregações e com a mobilização dos camponeses, que eram orientados por ele a defenderem e lutarem por seus direitos, por suas vidas.

Nesta volta, o Padre Vito Miracapillo terá o seu visto permanente no Brasil renovado, a partir de ação impetrada no Ministério da Justiça pelo advogado e ex-deputado, Pedro Eurico, que foi um dos que o recepcionaram, no Aeroporto Internacional dos Guararapes, neste retorno festivo e emocionante a Pernambuco. Sob o coro dos seus amigos, cantando a música-poema Vito, Vito, Vitória!, composta na época pelo Padre Reginaldo Veloso, do Morro da Conceição, o momento ainda ganhou mais emoção quando todos, em coro, leram em voz alta as palavras proféticas de Dom Helder Câmara, publicadas em 31.10.1980, pelo Jornal Do Brasil, e impressas na contracapa do livro O Caso Padre Miracapillo:

                       “Em lugar de julgar os juízes da nossa Corte Suprema,

prefiro dirigir-me ao Padre Vito: vá tranquilo, Padre Vito.

Agradeço a Deus que você não leve travo nenhum em

seu coração. Continuaremos a luta pacífica, mas corajosa,

da qual você participou. Continuaremos, inclusive, a

sustentar que defender os direitos humanos é direito e dever

de todas as criaturas humanas, sobretudo os cristãos.

Saiba que não é o povo brasileiro que o está expulsando.

E alegra-me pensar que, assim que o Estatuto dos

Estrangeiros assumir uma redação humana, você voltará

a este país e a este povo que você leva em seu coração

(…) A Igreja, com a ajuda divina, não mudará sua linha

pastoral, aprovada abertamente pelo Santo Padre, em

sua inesquecível visita ao país”.   (DOM HELDER CÂMARA)

* Sintonia Comunicação popular

2 comentários

  1. A igreja católica, a que se refere d. Hélder, mudou sua linha pastoral. Agora tem uma linha pastoril. Com sua guinada, incentivou a volta da extrema direita em todas as partes do mundo, inclusive nesse nosso Brasil de opus dei.
    Apesar de não gostar de padres e afins, desejo boas-vindas, a este que lutou uma luta justa contra a ditadura e a favor do povo brasileiro.

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