Anjos cobertos de humanidade

por Sulamita Esteliam

No Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de Março, vou falar de anjos e de inclusão. Afinal, é de vida que se trata.

Não me refiro aos seres alados, iconográficos, que nosso imaginário constroi para associar, nas crenças religiosas ou esotéricas, de diferentes matizes, aos seres celestiais encarregados de nos proteger e guiar – Anjos da Guarda. Você pode até não acreditar que existam, mas que há, há. Eu creio, embora não tenha religião específica.

Creio, da mesma forma, que alguns anjos se corporificam em matéria humana, e cumprem funções idênticas aos guardiões: protegem e guiam. Fazem mais, ao meu ver: aprimoram nossa qualidade humana, às vezes tão requetrefe, tão repleta de adereços, que nos impedem de avaliar nossa verdadeira natureza, substância – para bem ou para o mal.

As mães, no geral, pelo menos aquelas dignas do nome, são anjos do bem. Algumas mães são mais do que as outras. Há pais da mesma qualidade. Costumo dizer que são escolhidos, essas mães e esses pais, porque são capazes de gerar, acolher, proteger e guiar seres especiais, em toda e qualquer circunstância, ao longo de toda a vida. Anjos, todos.

Conheço alguns. Mas a mim foi dado conviver mais de perto com uma dupla angelical imbatível: Vânia e Carlinhos.

Carlinhos e Vânia no clique de Rafael Farias - devidamente capturada no FB

Deu-se a partir escola da minha caçula, quando e desde a dobra da pré-adolescência.  Frequentamos, eventualmente, nossas casas, algumas festas. Curtimos juntas os progressos, as alegrias. Ressentimo-nos dos mal-entendidos, displicências, egoísmos, preconceitos. Mas a pele tosqueada sempre foi a dela, dele, não a nossa.

Carlinhos, rapaz de personalidade marcante, tinha especial carinho com Babih, talvez porque ela sempre mostrou-se atenciosa. No aniversário de 15 anos dele, foi convidada especial: “minha namorada”. Certo dia, em uma festa em nossa casa, me disse que ia casar com ela e levá-la para a Tailândia. Ri muito, e perguntei por que a Tailândia, e ele me respondeu porque “lá é um paraíso”…

Carlinhos e Bárbara cresceram, formaram-se no fundamental, mudaram de escola, seus caminhos passaram a cruzar-se com menos frequência, até tornarem-se raras as oportunidades. Ambos estão na faculdade – ele no terceiro período de Educação Física, ela no primeiro de Direito.

Hoje nos encontramos na rede.

E foi no Facebook que Vânia celebrou mais um feito com a assinatura Carlinhos, que é portador de Trissomia 21, conhecida como Síndrome de Dow – em alusão ao pesquisador John Langdon Down, que a descreveu – em 1896.

O 21 de Março é Dia Internacional da Síndrome de Down. Na véspera, conta a mãe, Carlinhos “pediu a palavra ao professor, e disse para toda a classe que ia deixar o curso, que sabia que os colegas iam ficar tristes, mas que ele se sentia excluído, que só três colegas lhe davam atenção”.

Vânia comemorou a maturidade afetiva do filho:

“Sei do carinho que todos da Faculdade têm por ele, mas não é só do carinho que ele precisa. Precisa realmente se sentir incluído, ser convidado a participar das atividades e ele sente muito quando não participa das aulas práticas, que é o que mais gosta. INCLUSÃO é um processo complicado, mas com boa vontade a gente consegue ter excelentes resultados e a participação dos colegas, como digo sempre, é fundamental para esse processo dar certo”, escreveu.

Quando pedi para citá-los no blogue, Vânia não só autorizou, como deixou no meu mural outra reflexão, que compartilho:

“Sulamita, queria apenas ressaltar que tenho certeza do carinho que Carlinhos recebe dos colegas, mas ele não só quer isso. COMO TODOS NÓS, queremos carinho mas, também, queremos ser inseridos, realmente, no contexto da sociedade. No meu entender, é isso que lhe falta.

É como se estivesse no meio da multidão, mas sempre sozinho. Nunca falou sobre esse sentimento, mas para pais presentes nem sempre os filhos precisam falar pois sabemos exatamente o que sentem.

Também nunca conversei com ele sobre esse assunto apesar de perceber que isso aconteceu em toda sua vida.

Não vejo como maldade, apenas como uma cultura negativa herdada ao longo dos anos, dos nossos antepassados, e que hoje as pessoas ficam sem saber o que fazer, exatamente. Hoje a inclusão acontece e a tendëncia é sempre melhorar.

Esse desabafo dele não desmerece ninguém, apenas foi um alerta para que a sociedade toda consiga enxergar que a inclusão tem que ser verdadeira, pois eles entendem, perfeitamente, quando isso não acontece de coração.

Carlinhos lutou muito para chegar aonde chegou, estudando dia e noite para tentar acompanhar um pouco os colegas. Mas não temos que reclamar por isso, só temos que agradecer por todas as pessoas que o ajudaram a chegar aonde chegou, e pedir que aqueles que, neste momento, estão mais próximos continuem ajudando-o.

Tenho certeza que daqui pra frente será muito melhor.

Não estranho as mensagens, lindas, que recebi porque estamos cercados de pessoas amigas, que nos querem mito bem e que, mesmo à distäncia, sabemos que sempre torcerão pela nossa felicidade. Procuramos cultivar, sempre, o bem nos nossos corações, e é isso que desejamos a todas as pessoas, independente de serem ou não nossos amigos. Beijos a todos.”

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PS: Ontem não consegui atualizar o blogue. A manhã foi atribulada de afazeres, a tarde foi de trabalho externo e, à noite, minha banda larga deu xabu. E assim continuou esta manhã. Agora de tarde, arreguei a rede em casa de minha filha/genro, para conseguir trabalhar.

Sexta-feira é outro dia. Mas, tenho trabalho externo em local onde a rede não pega nem com promessa: o Centro de Convenções de Olinda é uma catatumba para internet, e é lá que vou passar o dia. Vou cobrir o Lercon – Congresso de Leitura e Contação de História para a Rede de Bibliotecas Comunitárias do Recife.

Nem vou levar o portátil, para não me estressar. À noite, se minha internet se comportar, e  meus neurônios ainda estiverem despertos, posto alguma coisa.

Inté.

6 comentários

  1. Sulamita, só agora é que vi o que vocë postou no seu blog. Eu só tenho que agradecer por todo o carinho e por todas as lindas palavras. É sempre bom a gente se sentir prestigiada diante de tanta luta e de ver que pessoas como vocë se empenham em fazer deste mundo um mundo melhor.

    Carlinhos, como muitos outros, tem consciëncia de sua deficiëncia e momentos de baixa autoestima, mas, com certeza, também é consciente de que está arrodeado de muito carinho. que levantam essa autoestima.

    Reforço apenas o meu apelo para que as pessoas disponibilizem poucos minutos em suas vidas para não só ver mas ENXERGAR a necessidade que essas pessoas tem, como todos nós, de alguém que possa escutá-los, que tenham paciëncia pelo seu ritmo lento, que se envolvam um pouco nas suas fantasias, que lhes deixem participar ativamente, ao modo deles, das inumeras etapas da vida.

    Quem de nós gosta de estar sempre como o último da fila, quem gosta de estar numa multidão e se sentir sozinho, quem não sente falta de uma companhia, de um passeio descompromissado ao lado dos amigos, longe de pai e mãe que nos acompanham 24 horas por dia, quem não gosta dessa liberdade, de poder se igualar aos demais e viver aventuras próprias de cada idade longe dos eternos vigilantes (os pais), quem não gosta de ser indicado para uma responsabilidade, por menor que seja a tarefa, seja ela em casa, na escola, na faculdade, em qualquer ambiente que frequente com assiduidade, mostrando assim de que a pessoa também é capaz e com isso se sentir valorizada.

    Eles não gostam de serem subestimados, nem querem ser tratados como “coitadinhos” e sim de igual para igual, óbvio que entendendo suas limitações e estimulando-os a superá-las

    Dessa forma, as pessoas farão sim “UMA GRANDE DIFERENÇA” e com pequenos gestos mudarão o mundo para melhor.

    Só peço a Deus para nunca fraquejar e estar sempre ao lado do meu filho, apoiando-o, lutando com ele por suas conquistas e abrindo a mente das pessoas, sem revolta, sem denegrir ninguém, apenas esclarecendo e passando um pouco da minha experiëncia maravilhosa.

    Beijo grande,
    Vania Vasconcelos

    1. Que bom, Vânia que vc gostou. E tomara que a publicação possa, de alguma forma, contribuir para a sua luta. Admiro sua força, disponibilidade e determinação. E Carlinhos, não há dúvida, é um vencedor, e muito querido por todos nós. Xêro.

  2. Minha amiga mineira virtual, Bernadete, paladina incansável pela dignidade do Povo Cigano, me envia a seguinte mensagem, via correio eletrônico:
    “Menina:
    Deixei o comentário abaixo em seu blog, mas o trem não entra de jeito nenhum.
    Deve ser meu pc. Publique, que você merece.
    Inté.”

    Publico, abaixo, pois – com meus agradecimentos pela generosidade, e meu xêro mineiribucano:

    “Gosto de zappear por aqui e encontrar você sempre guerreira, fortalecendo a todos com sua
    palavra certeira, sua incansável voz, estimulando o pensar sobre a verdadeiro razão dessa
    jornada instigante chamada Vida.
    Abração, Jornalista.
    Bernadete Lage Rocha”

  3. Minha irmã, saudades!Não poderia sair de sua alma em forma de palavras nada mais nada menos do que esta postagem sobre Anjos cobertos de Humanidade bem como de milhares de Carlinhos existentes neste mundão de Deus que você abraça como filho e como anjo da guarda que você é assim como de tantos outros que estejam em situação menos privilegiada. Vânia com certeza é também um destes anjos que ancoram para fazer diferença na vida de outras pessoas.Que recebem de Deus a força, sabedoria e energia suficientes para encarar de peito aberto o mundo que nem sempre é justo.O Ser humano tem muito ainda que aprender com pessoas como Carlinhos e Vânia.

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