por Sulamita Esteliam
Houve um tempo em que mulheres eram propriedade de seus maridos, ou de seus pais ou irmãos, ou tios, ou tutores, todos vestidos de calças, quando não conseguiam se casar.
Houve um tempo que mulheres não podiam votar, e depois que conquistaram o direito, ainda precisavam da aprovação marital. E ainda hoje há aquelas que só votam em quem seu mestre mandar.
Imaginem, mulher deputada, quiçá no comando da Nação!. O espanto se tornou versos na pena de Carlos Drummond de Andrade, que anuncia o escândalo da candidatura de Mietta Santiago a deputada, ainda que sob as barras dos tribunais.
Tempo houve em que a mulher não podia estudar, depois não podiam exercer a advocacia, a medicina, a engenharia e outras profissões ditas liberais.
Mulheres também não podiam jogar futebol, e as que insistiam, e conseguiam, eram chamadas de “fanchonas” ou “Maria tomba homem”.
Nada disso vale mais.
A Copa do Mundo de Futebol Feminino está aí para nos dizer que não cabe recuar nas dificuldades, a despeito dos resultados adversos, que o diga a seleção do Marrocos.
A meninas do Brasil foram despachadas e a Argentina idem. O consolo é que a Alemanha, única tetra campeã e algoz das brasileiras na única final que disputamos, em 2007, também na China, voltou para casa igualmente.
O que se lamenta é que a inspiradora Marta Veira da Silva, seis vezes melhor do mundo, se despeça da Seleção sem o título de campeã. Muito justa e nobre a homenagem que lhe faz o cartunista Brum em seu perfil no Instagram:

No quicar da bola, enfim, cada jogadora cumpre seu papel e cada equipe é apenas uma dentre as 32 que, desta vez, se reuniram para a disputa na Austrália e Nova Zelândia. Vem aí as oitavas, depois as quartas e, ao fim e ao cabo serão apenas uma campeã e uma vice.
Detalhe a calhar: a técnica da seleção feminina brasileira, Pia Sundhage, artilheira da sua seleção enquanto jogou, conta que teve que se disfarçar de menino para começar a jogar futebol. E aconteceu sabe onde? Na vanguardista Suécia.
A âncora do patriarcado, como se vê, é pesada.
Por isso, é preciso reconhecer e louvar as pioneiras da bola e do feminismo, e mais as ativistas que seguiram a trilha da luta até os dias presentes. Fizeram e fazem um trabalho mais do que necessário.
Registre-se: a despeito de serem acusadas de se fixarem em pautas identitárias, ontem e hoje, até pela esquerda que defende igualdade entre gêneros, e a solidariedade de classe e entre os povos.
Fundamentalismos e bovinices à parte, reconhecer a pertinência das demandas não é exigir demais das cabeças que se arvoram pensantes.
Enfim, há que admitir-se, para o bem ou para o mal, que nada, nadica mesmo, será como antes: Minas Gerais endoideceu. O Brasil pirou de vez. O mundo está de cabeça para baixo.
As “modernidades” ainda deixam de cabelo em pé e boca espumando muita gente por aí, tosca ou envernizadas, é bom que se diga.
O equivalente ao furor que mulheres ativistas por equidade de direitos provocavam nos conservadores de antanho.
Mas o bonde do tempo sob e desce ladeira, indiferente ao vozerio, ao tropel e ranger de dentes.
Aliás, a Netflix tem uma série excelente sobre o exercício do direito por mulheres, nos campos profissional e dos direitos humanos, sobretudo na área criminal. Dá-se na Itália no começo do século XIX.
O título é As Leis de Lídia Poët:
No aguardo da segunda temporada.
Interessante observar que, em terra brazilis, só em 1932 a mulher só foi autorizada a advogar, com a aprovação do direito ao voto (as casadas com autorização do marido, como citado acima).
Todavia, em 1898, Myrthes Gomes de Campos tornou-se a primeira mulher a formar-se em
Direito e a se inscrever no Instituto dos Advogados do Brasil, precursor da OAB. História semelhante à da heroína da minissérie.
Há mais, que encontro via navegação na rede: a OAB Nacional reconheceu a escravizada Esperança Garcia como primeira advogada do Brasil, em dezembro último.
O Piauí, berço de Esperança, já o fizera no plano estadual, em 2017, a partir de dossiê organizado com base em pesquisas da ‘Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra da OAB local.
A reparação histórica foi demanda da Comissão da Mulher Advogada e da Comissão Nacional de Promoção da Igualdade do Conselho Federal da OAB. A base é carta escrita por Esperança, em 1770, localizada pelo historiador e antropólogo Luiz Mott, anos antes
É dirigida ao governador da província, em denuncia os maus-tratos de que eram alvo ela e todas as mulheres escravizadas da fazenda Couto.
Na “petição”, assim reconhecida, Esperança conta que havia sido forçada a sair da fazenda Algodões, onde seu marido também era escravo, e arremata:
“Peço a Vossa Senhoria pelo amor de Deus ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar ao procurador que mande para a fazenda aonde me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha”.
O reconhecimento é a prática da filosofia ubuntu, que nos fala sobre a justiça da restauração, do resgate da memória para evitar que se repitam as atrocidades dos opressores.
A palavra Ubuntu tem origem nos idiomas zulu e xhosa do sul do continente africano. Nas línguas Bantu, do grupo ngúni, significa humanidade para todos.
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Créditos da ilustração da abertura: capturada na página da OAB Nacional, sem identificação do autor.
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