Senhoras e senhores, o Brasil pirou de vez

Registro histórico: o primeiro voto feminino, na Biblioteca Pública de Mossoró

Para início de conversa, quero saudar todas as mulheres, guerreiras, que honram as tradições seculares de, sem muito estardalhaço, administrar o tempo, a família e os afazeres, sejam eles de que natureza for – e aos homens que as valorizam.  Mulheres que se esmeram em distribuir afagos e semear entendimento, mas que sabem endurecer na hora certa e dar um murro na mesa, se preciso for. Mulheres que driblam preconceitos, superam limitações e seguem em frente, tendo ou não com quem contar. Mulheres que dão a volta ao Mundo, fazem-no girar, mas sabem retornar ao aconchego da casa, armadura despida, coração aberto, colo disponível. Ou não. Porque ninguém, nem mesmo uma mulher, é de ferro. Euzinha, mesma, não o sou.

As mulheres estão em moda. São notícias de primeira página – para o bem e para o mal. Ainda encabeçam estatísticas de violências, múltiplas: espancamento, abuso e assédios  sexual, moral, discriminação, morte. Chefiam grande parte dos domicílios brasileiros: estão na sala de aula, no escritório, no chão de fábrica, no banco, palco, canteiro de obras; nas redações, aos volantes, na faxina, no fogão, no tanque. Ainda ganham menos que os homens, companheiros de trabalho e função. Ainda reclamam parceria na dupla, tripla jornada. São minoria nos postos executivos, públicos e privados, legislativos, judiciários, sindicais, religiosos. Não obstante, vão chegar à Presidência da República, mais cedo do que há pouco se ousava imaginar. Deixam muito Zé – e Marias também, infelizmente! – a ver a banda passar.

Por aqui, na terra brasilis, chegam tarde, isso sim. Desde o primeiro sufrágio feminino, no final dos anos 20, já se vão três quartos de século! Uma potiguar e uma mineira foram as pioneiras. Tornaram-se eleitoras invocando a Constituição Brasileira em vigor, de 1891, que não amparava o veto ao exercício de seus direitos políticos e de cidadãs: Celina Guimarães Viana, de Mossoró, no final de 1927, e Maria Ernestina Carneiro Santiago de Souza, em 1928. Mietta deu a si o primeiro voto para deputada federal. Não foi eleita, mas causou assombro e ganhou poema, de Carlos Drummond de Andrade. Transcrevo:

“MIETTA SANTIAGO/ loura poeta bacharel/ Conquista, por sentença de Juiz,/ direito de votar e ser votada/ para vereador, deputado, senador,/ e até Presidente da República,/ Mulher votando?/ Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?/ O escândalo abafa a Mantiqueira,/ faz tremerem os trilhos da Central/ e acende no Bairro dos Funcionários,/ melhor: na cidade inteira funcionária,/ a suspeita de que Minas endoidece,/ já endoideceu: o mundo acaba.

Como se vê, mulheres fazem o pão desde sempre e, no mais das vezes amassam a substância com a cauda do diabo. Mas os poetas, além de cronistas, são visionários. Que extraordinário poema escreveria agora, O Poeta, diante da probabilidade de se ter a primeira mulher Presidente da República? E num embate onde dois dos candidatos vestem saia, por direito genético e convenção sóciocultural! Certamente, versaria o estranhamento em torno do bombardeio a que está  submetida a líder das pesquisas de intenção de voto,: uma “prenda”, mineira – registre-se. Não se fazem mais café com leite como antigamente.

Pode, um país onde a mulher ocupa a maioria das vagas nas universidades, admitir tamanha vilania!?, talvez se perguntasse O Poeta. Meus botões se questionam, não vou mentir, qual veículo da mídia de antanho abrigaria prosa ou verso em torno do disparate que se assiste, se ouve ou se lê. Se é que alguém ainda lê, ouve ou assiste tais arautos-do-ontem-que-engatinha. Em que plagas se perdeu o senso, o prumo, o norte, a elegância? A chafúrdia é própria de quem se considera acima do povo, da Nação e suas circunstâncias, quiçá do Universo!?

O Poeta há de perdoar-me, não resisto à livre paródia: Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?/ O escândalo abafa o sul da Mantiqueira,/ faz tremerem os trilhos do Metrô/ e acende nos bairros centenários,/ melhor: na cidade inteira centenária,/ a suspeita de que O Brasil, uma vez mais, endoidece,/ já endoideceu: o mundo acaba.

25 comentários

    1. Pois é. Afora a tb coincidência (?) de se ter duas mulheres candidatas à presidência, sendo uma mineirogaúcha e a outra nortista, do Acre; no pioneirismo do voto, a dobradinha foi entre uma nordestina potiguar e uma mineira… O Universo é um grande conspirador!

      Obrigada pela força!
      Saudades.

  1. Gente, eu sou mesmo uma ET neste noticiário internético ilimitado. Pois não é que Sula, repórter de primeira, texto idem, abriu com estardalhaço seu blog??? Está ótimo!!! E eu aqui a ver estrelas esfumaçadas pela poluição desenfreada desta Fortaleza de buzinas. Parabéns, amiga!

  2. Nós, mulheres, precisamos muito de interlocutores. De quem nos leia e nos escute nos blogs, nos jornais, nas rádios, nas TVs, nas ruas, nos lares, nos prostíbulos, nos parlamentos. Uma mulher vai assumir a presidência da República do Brasil (acho que não há mais dúvidas!). Mas, ainda assim, continuarão a ser inúmeras as marias que se calam, se desdobram em três ou quatro pra dar conta de ser pai e mãe, se escravizam nos “espartilhos” modernos. Mas, quando nos deparamos com a voz, com a palavra da mulher corajosa – que também encoraja outras – também sentimos uma grande vontade falar, de escrever e até de gritar. Se, acima de tudo, assumimos a coragem de lutar, seremos mulheres mais felizes. Beijos e sucesso neste novo e maravilhoso empreendimento de luta – seu blog. Virgínia Castro (amiga e colega jornalista de BH)

  3. Bacana, gostei!Que Deus o todo poderoso possa acrescentar sempre mais o teu talento. E que voçe possa ser um mordomo cuidando bem de tudo que ele te dá.
    Com ele,prá ele, por ele são todas as coisas.
    JESUS TE AMA E EU TAMBÉM!!!!
    beijusssssssss!!!!!
    Alarcone Lálá.

  4. Minha nobre Mineiribucana Sulamita Esteliam,

    Dizer vá em frente, para você, é pouco.
    Sei que você vai, ou melhor, já está indo.
    E muito Bem.
    Com toda a inteligência, garra e competência que Deus deu a vossa mercê.
    Com a belíssima escrita que tem, vai encantar leitores mil por esse mundo afora.
    Deite e role com o seu genial deslizar das letras pelas páginas em branco, fazendo da sua pena uma luta permanente, com realidade e poesia, por um mundo mais justo, mais humano, mais igualitário.
    E a primeira parte deste caminho você já está fazendo com maestria, contribuindo para a vitória definitiva de Dilma 13 em 31 de outubro de 2010.
    Você, guerreira da comunicação, terá sua parcela na vitória de Dilma, que vai mostrar para o mundo inteiro porque será a Doce Guerreira do Povo Brasileiro, nossa primeira mulher presidente da república.
    Viva você!
    Viva Dilma 13.

    1. Querido Ruy, meu Dom Quixote da Comunicação, sua generosidade me emociona e me engrandece. Cresci e aprendi muito com você em nossa curta, mas profícua convivência no Violência Zero. Espero que em breve consigamos voltar a trabalhar juntos, pelas ondas do rádio, na cruzada pelos direitos humanos. Xêro

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