por Sulamita Esteliam
Quando resolvi blogar, 13 anos atrás, escolhi o 11 de setembro para estrear o A Tal Mineira, como símbolo de resistência política e em defesa dos direitos humanos.
A ideia é que o blogue se constituísse num bunker. Creio que cumprimos esse papel; até a exaustão e sempre como trabalho voluntário.
Justo neste ano 13, para sobreviver e deixar fluir a escritora, a frequência passou a semanal.
Fiz postagem dupla na estreia: uma sobre a participação política das mulheres, a propósito das candidaturas de Dilma Rousseff e Marina Silva à Presidência da República; e outra em memória de Salvador Allende e as vítimas de uma das ditaduras mais sangrentas imposta à América Latina.
Em 1973, o presidente do Chile e seu estafe era bombardeado no Palácio de La Moneda. Um golpe militar, hoje se sabe, articulado pelos Estados Unidos; com apoio de republiquetas ditatoriais e servis ao império, como o Brasil de então.
Direto de Santiago, onde está para as atividades coletivas dos 50 anos do golpe que esfacelou a democracia chilena, minha amiga-irmã Reiko Miura, que também é jornalista, me envia o vídeo do ato NUNCA +, que aconteceu na noite de domingo:
Junto, a mensagem em que ela define como “um dos momentos mais emocionantes que vivemos em Santiago: O ato NUNCA+ com milhares de mulheres abraçando o La Moneda, caminhando silenciosamente e finalizando com a leitura em coro do texto NUNCA +”.
A imagem do manifesto:

Outro ato, nesta segunda-feira, liderado pelo presidente Gabriel Boric, do Unidad para Chile, lembrou as 1.747 pessoas assassinadas e 1.469 desaparecidas durante os 17 anos que prevaleceu a ditadura militar.
Às 11h52m, hora exata do início do bombardeio ao La Moneda pela Aeronáutica, houve um minuto silêncio pelas vítimas. No domingo, o presidente Boric inaugurou uma vitrine na porta da Rua Morandé, 80, com os sapatos que Allende usou no dia do golpe que o matou.
Há relatos de agências internacionais sobre a ocorrência de “confrontos” durante o ato de domingo: teria havido apedrejamento do palácio presidencial, violação de masoléus de vítimas do regime de Augusto Pinochet, o condutor do regime fascista instalado após o golpe, detenção de três pessoas e outros três policiais feridos.
É que no Chile pós-vitória da centro-esquerda nas últimas presidenciais, as forças de extrema direita saíram da toca para disputar as consciências, e têm obtido sucesso preocupante.
Sinal de que a cadela do fascismo está viva é que o referendo da nova constituição deu xabu. Tão ruim quanto é que o novo Congresso Constituinte é liderado por representantes das forças conservadoras, o que leva ao risco de a nova carta sair pior do que a herdada do regime ditatorial.
Cinquenta anos passados, ainda há milhares de desaparecidos do regime sangrento. O governo Boric trabalha para localizar esses corpos, em respeito à memória política do Chile e ao direito das famílias de enterrar seus mortos.
Tudo isso é para a gente não se esquecer do valor da democracia. E que, definitivamente, não é só o Brasil; a latino-américa não é para amadores.
Sim, para não dizer que não falei do 11 de setembro de 2001, o mais recente a traumatizar o mundo: a derrubada das torres gêmeas em Manhattan e o ataque ao Pentágono, vendido como ação do terrorismo islâmico, 22 anos depois ainda suscita dúvidas sobre a origem e o propósito.
De qualquer forma, prova de que a vida humana importa pouco quando o que está em jogo é o poder econômico e religioso, que se valem do poder político para impor seus interesses.
Fecho com uma postagem nos stories do Instagram, feita pela filhota caçula, que trabalha na aviação. Ela relembra a contagem dos mortos daquele dia para apontar o quanto a segurança dos voos ficou mais rigorosa após o ocorrido.

Com
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Postagem revista e atualizada em 12.09.23: correção de erros de digitação e inclusão de informação no quarta parágrafo, sobre a disputa das presidenciais de 2010 no Brasil por duas mulheres.