No Santê, de volta aos anos 1960-70

por Sulamita Esteliam

Estou a fim de tratar de amenidades por esses dias em que descanso da rotina na minha Macondo de origem; com sombra, água fresca, bebida e comida boa. Eu bem mereço.

Flano pela terrinha onde nasci, cresci, me formei, amei, sofri desamor, dei a cara a tapa, militei, me diverti, frutifiquei, batalhei até migrar para outras paragens, buscando novos caminhos para recomeçar. 

Recife, Pernambuco, é o lugar que escolhi para centrar praça, depois de trabalhar, amar e procriar em Brasília, e acompanhar o parceiro para continuar a batalha, e acolher descendência, em Fortaleza, Ceará.

E tome carregar mudança de novo rumo à capital pernambucana, a cidade mais arretada – nos dois sentidos, de extraordinária e de brava – em linha reta do Nordeste. Já são 27 anos de Recife, completados em 16 de julho, dos  33 anos fora das Gerais, 30 dos quais de Nordeste.

Mãe, avó, bisavó, irmã, tia, prima – assim como já fui filha, neta, sobrinha, como todas nós – poderia resumir bem o que sou: mulher de familia, orgulhosa de sua prole e descendência.

Todavia, é apenas parte de mim.

Sou do tipo que insiste e persiste em viver o aqui agora, em contornar as barreiras, amar a vida em seu esplendor. Escolho ser feliz, sem deixar de olhar ao redor, de indignar-me e tentar ser presente, no particular e a coletividade, no que importa.

Sou mulher da rua: não ando só, e pouco se me dá o que pensam ou falam sobre mim.

Cultivar amizades é algo indissociável deste ser, desde sempre. Conservo amigas de infância, colegas de escola e de trabalho que continuo a frequentar, com maior ou menor assiduidade, ou mesmo raramente, ou digitalmente, ou apenas carrego na memória – aqui, ali, acolá ou alhures.

O abraço, o beijo, as risadas, as ironias, os pertados, as críticas, confidências e pilhérias recuperam o nível de intimidade, ainda que sejam raros os encontros.

Minha turma de faculdade, por exemplo, se reúne, periodicamente, em Belo Horizonte, que é onde reside a maioria. Completamos 45 anos de formatura em Comunicação/Jornalismo ou Pulicidade e Propaganda e Relações Públicas este ano, a maioria em Jornalismo. Nossa faculdade é a legendária Fafich/UFMG.

A formatura1
A formatura em 14 de julho de 1979: Dídimo Paiva-E foi o paraninfo; Paulinho Saturnino e Marli Spinelli, professores homenageados; Rosane e Eneida, grávida, entre eles. a cima, Alda, o rapaz cujo nome não me lembro, Graça e Penhinha (Luiz Carlos); mais acima: Bié,Bernadete, Sônia, Lourdes, Euzinha (assinalada em azul), Thaís e Míriam

Somos uma galera divertida, que se ama infinitamene: uma dupla fora do Estado – Euzinha no Recife, Fernando em Brasília-DF e outra dupla no interior de Minas, na bucólica Pará de Minas: Bié e Lígia.

A maioria reside em BH: Alda, Adriano, Bernadete, Cadmo, Carmén, Eneida, Ênia, Flor de Maio, Lourdes, Maria das Graças, Maura, Marcelo, Peninha, Rô, Rosane e Sônia.  

Junto com a gente, formaram-se ainda Thaís, da capital, e Míriam, que era de Sete Lagoas. Ambas se encantaram alguns anos depois. Mas nossa turma original somava 25 pessoas, e faltam dois para a conta fechar.

Havia o Israel, que carregava Sebastião como primeiro nome, lembra um amigo. Era um rapaz simples, de pouca conversa, cabelos encaracolados e olhos gateados. Desistiu ainda no básico, por falta de condições de manter-se na capital.

Tinha ainda o Sérgio, que migrou para a Economia, os amigos me ativam a memória. E o Marcos que foi para Portugal cursar Medicina e acabou fazendo nada em Paris. Levei baita susto quando recebi uma carta da Cidade-Luz, já no final do curso. 

Era ele me provocando sobre meu sonho de estudar na Sorbonne. Confessou que estava se divertindo como nunca e dizia: “Venha, Sula, Paris é a sua cara!”

Quem sabe na próxima encarnação.

Nossos primeiros encontros depois de formados foram em casa dos pais da Eneida, na Sagrada Família, o lugar das festas no primeiros anos do curso. Depois migraram para a casa da Thaís, já casada, no Sion.

Os 20 anos foram celebrados na casa da Bernadete, no Bairro Outro Preto, os 25 anos na casa do Cadmo, no Planalto e  os 40 anos no salão de festa do prédio onde morava a Eneida, em Santa Tereza.

Desta vez, tivemos que migrar o local do evento, que seria no salão de festas do prédio onde mora meu filho. Elgui nasceu no primeiro domingo após o início das aulas na faculdade, e tornou-se mascote da turma. Acontece, que ele entrou em luto pela perda recente do pai.

A turma com o mascote em sala de aula - Foto de sesteliam
Parte da turma em sala de aula e fins de 1976. Meu filho no colo do Bié, a partir da direita para esquerda e vice-versa: Miguel, Thaís. Flor de Maio, Marcelo,Penhha Rosane, Graça, Carém, Lígia, Sônia, Bernadete – Euzinha cliquei

Mudamos local, forma e conteúdo: nos encontramos na esquina mais charmosa de Tereza, o Esquina Santé. O bar e restaurante é dirigido pela família Scalioni: os jornalistas Mirtes e Sílvio, mais os filhos Beto e Teo.

Os pais são fundadores da banda Boca de Sino, que toca hits nacionais e internacionais dos anos 60-70, há 40 anos. Seus filhos também são músicos, e integram o grupo de samba Trem das Onze.

Apenas sete de nós marcaram presença, das 11 confirmadas. Há cinco anos, éramos 13. Mas houve um encontro inesquecível em minha casa, no Bairro Ouro Preto, na Pampulha, no qual fomos exatamente três: Euzinha, Eneida e Thaís.

Desta feita, dois foram atropelados pela gripe, um pelo esquecimento e a outra vaga era para a surpresa, que não houve.

Circunstâncias do viver, que nem sempre estão para Jorge ou Marlene – e confesso que não sei dizer o porquê destes nomes brotarem do meu teclar. Garanto que não bebi o bastante.

Entretantos à parte, foi bom como sempre. Tem sempre muito assunto para botar em dia, e muita alegria para a gente distribuir, e muito amor para partilhar.

Continuamos inimigos do fim.

Meus botões trocam figurinhas sobre a conveniência de nos encontrarmos com mais frequência, poderação já colocada na mesa pelo amigo Bié, há pelo menos 16 anos. A ver se caímos na real.

Em tempo: no dia do encontro, Mirtes Scalioni e eu trocamos figurinhas sobre termos aprendido a cantar com nossas mães. A gente se emociou com as lembranças.

E ela me convidou para cantar uma canção no show da Boca de Sino para comemorar o aniversário de um ano do Santê, no sábado seguinte.

Desafio aceito e cumprido, com a honra de ter sido acompanhada por Marilton Borges, nos teclados, e desconfio que o baixista era o Rogério Borges, o caçula do ícone do Clube da Esquina, além da banda que sempre tietei.

Mirtes me apresentou como “a Wanderléa do Nordeste”, gracejo que me deixou feliz. Sílvio questionou o tom em Mi Maior; garanti que era isso mesmo. Mirtes ficou por perto, no suporte.

Entrei meio titubeante, mas logo dominei a emoção e mandei ver “Foi assim”, sucesso das tardes de domingo dos anos 1967-68-69 na voz da cantora carioca; composição de Renato e Ronaldo Correia. 

Não tenho fotos nem vídeo, porque a tontice não favoreceu que Euzinha pedisse alguém para registrar. Numa plateia de maioria jornalista, pode ser que alguém o tenha feito. Torço, embora duvide. 

Digo que foi energizante. E a imagem da Tecris de pé, braços levantados acima da cabeça ruiva, sorriso largo, olhos brilhantes de turmalina acompanhando o ritmo da canção me é inesquecível.

PS: Ah, sim, me esqueci de dizer, me lembra Mirtes, ao comentar o texto desta postagem: ficamos de “formar uma duprinha” – eu de Wanderléa, ela de Martinha.

É que nós somos jovens, do exército do sempre a cantar, que seja para espantar os males…

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Fotos: acervo pessoal Sulamita; no Santê em grupos: Daniel; capa: Sílvio Scalioni

Postagem revista e editada em 24.07.2024, às 22h30: inclusão do “PS”.

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