Ócio e afeto são viciantes

por Sulamita Esteliam

Estou de volta para o meu canto recifense após um mês de andanças pela Macondo de origem, hiperdoses de atividades familiares, aconchego em profusão, muito exercício de sobe e desce ladeira, manejo de talheres e halterocopismo.

Delícias que só a Gerais é capaz de me oferecer na medida certa do exagero. Preciso dizer que sou grata pelo acolhimento generoso, sobretudo da minha irmã Lili e do cunhado Betinho, que me hospedaram a maior parte do tempo e também ao maridão.

Ainda não consegui retomar as atividades cotidianas em sua plenitude. Não acordei para a aula de natação na quinta-feira, 8 tamanho o cansaço da viagem, com direito a atraso do voo e sumiço da chave de casa. A semana se foi e Euzinha sequer passei perto da praia.

Reconheço que estou cada vez mais como naquela canção do Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso, porque já chorei demais…”

Por ora, experimento, pela primeira vez em muitos anos, as delícias de estar só comigo mesma, cozinhar e lavar apenas para mim. Ou simplesmente não fazer nada, como o gato da casa, que estava em greve de fome, tamanha saudade – de Julio, mas na falta dele Euzinha sirvo.

Ócio é viciante, tanto quanto o afeto, mas desapego faz muito bem. Só que o bichano não sabe e nem quer saber disso.

Julio está em viagem pela Península Ibérica, a convite da filha caçula de sua relação anterior. Desfrute merecido. Ele que pouco ou nunca sai de casa, só que leva a sério a prática do “calça de veludo ou bunda de fora”.

Já enviou fotos de Madrid e Barcelona, naturalmente que em visita a Miró e a Dom Quixote de La Mancha, com seu inseparável Sancho Pança. Não poderia faltar um mercado, o de San Miguel. Esta semana desembarcou em Portugal. Viagem curta, daqui a pouco está de volta.

Nos encontramos em Beagá para celebrar o aniversário da nossa caçula, e de carona nossos 33 anos de vida em comum.

nós na casa do Elgui 2024

Geral Almir-

Na véspera, Euzinha e Julio perambulamos pela área central da cidade onde crescemos, redescobrindo lugares, cheiros e sabores. Em bom mineirês, batemos perna como que a resgatar um tempo em que éramos apenas amigos.

Fomos às compras no Shopping Oiapoque, a maior concentração de orientais por metro quadrado – depois da Galeria Santa Ifigênia, em São Paulo.

Comemos pastel com caldo de cana na Rua dos Caetés. Tomamos cerveja na calçada em um dos muitos bares da Av. Amazonas, entre Tupinambás e Bahia, no quarteirão onde morei no final dos anos 1970.

Não pudemos conhecer o bar panorâmico no Edifício Júlia, na Praça Sete, pois só abria a partir das 17 horas. Há um bar mirante-musical no alto do Edifício Acaiaca, na Afonso Pena, mas só funciona à noite, com ingressos comprados pela internet.

O Espaço Sula, onde já almoçamos em outras estadas, e gostamos, está fechado para recuperação da praça central do edifício Sulamérica. Trabalhava ali, numa multinacional, em meados dos anos 70; foi quando passei no vestibular, grávida do meu primogênito.

Boa surpresa descobrir que o Top Bar, na Tamoios com Afonso Pena, o panorâmico precussor, hoje abriga o público LGBTQI+. Nos informa o sorridente porteiro de tradicional hotel ao lado.

O prédio fica em frente à lateral esquerda da Igreja de São José. Ainda adolescente, trabalhei numa consultoria de investimento que funcionava ali.

Foi quando conheci a casa noturna, a primeira no que viria a ser uma movimentada vida de boemia, traço do ofício a que me dedicaria.

Desta vez, pulamos o Mercado Central. Mas tomamos um pretinho no Café Nice, onde você ainda troca o cafezinho por uma ficha redonda colorida, de plástico vermelho ou azul, depois de pagar no caixa.

O café sempre foi ponto certo de políticos em busca da graça de eleitores. Na parede ainda há foto de Juscelino Kubitscheck, um habituê nos anos 50. Não me lembro de ter visto foto de Tancredo Neves, mas pode ser falha de atenção …

Nós no Café Nice

Ilamira - garçonete Café Nice BH

Batemos um breve e agradável papo com a garçonete sorridente, Ilamira se não me falha a memória. Ela nos conta, sem descuidar da faina, que pariu e criou os três filhos dela com seu trabalho.

Veio de Pedra Azul, no Jequitinhonha, e ali labuta há 28 anos, em incessante ir e vir pelo corredor estreito entre o balcão e a parede.

Fechamos o périplo do 2 de agosto com um shawarma de frango, delícia preparada pelo André, na Vila Árabe da Augusto de Lima, já no Barro Preto. Naturalmente acompanhado de mais uma geladinha. Depois acabamos de chegar na casa da mana, a pé.

Há muito não fazíamos essa turnê pelo centrão de Beagá, porque raramente visitamos juntos a cidade. Andamos coisa de 12 quilômetros, quase nada, porém o suficiente para queimar as geladas.

O fim de semana foi animado pelas tertúlias familiares das duas bandas para celebrar a nova idade da Bárbara, completada dia 30 de julho, e a próxima do Elgui, que aniversaria em 17 de agosto.

Ela trouxe o namorado paulista para apresentar a família mineira: na casa do irmão, no sábado; na tarde de domingo, junto a irmãs, tios, tias, primas e primos na casa da família do pai.

E levou para Santos um exemplar do Estação Ferrugem, meu primeiro livro, que tem menos cinco anos do que ela. O que lhe dediquei no passado foi emprestado e tomou rumo, como quase sempre acontece.

Consegui um exemplar com o auxílio luxuoso do livreiro Amadeu Filho, que buscou, localizou e reservou o livro em outro local do outro lado do centro de BH

O livreiro, pura simpatia, mantém a tradição deixada pelo pai, o sebo na Rua dos Tamoios, entre Guarani e Olegário Maciel, no hipercentro da cidade.

Na segunda, cada qual tomou seu rumo. Euzinha ainda fiquei mais dois dias para recompor as forças e me despedir devidamente da irmã e do irmão, do casal de crias, dos netos, da nora e da longa estada.

Levei os netos gêmeos para ver a “Tia Zeíca”, promessa cumprida. Desde que chegara, Arthur e Nicolas me cobravam a visita. Entre uma casa e outra, lanchamos na padaria do Lázaro, ao lado da igreja, paraíso de guloseimas.

As crianças na casa da dona Dirce

Aprontaram boa farra com os primos João Guilherme e Marcelo, correndo com os cães pelo espaço amplo, que apelidei Quintal dos Gonçalves. Antes que estranhem: Euzinha e a Lili não carregamos o sobrenome familiar, herança de pai desatento.

Meu sobrinho cria os filhos na casa que foi da dona Dirce, a senhora minha mãe encantada. Meu irmão mora no barracão que já ocupei, só que devidamente melhorado. Ali também, em outro barracão, morou nossa avó e tia paternas.

É nosso lugar ancestral. Flano pelo mundo, mas o umbigo está lá, sob as raízes da jabuticabeira que plantei, embora as árvores da nossa infância fossem a mangueira, as goiabeiras e a mata de abacateiros.

El Grande Circo Firim Finfim

Meados de julho, tia Carol garantiu um domingo de teatro inesquecível no Quilombo dos Luízes, no Grajaú. Fui junto e fiz a foto acima e as que abrem a postagem. Puro encantamento.

Um espetáculo crítico e divertido para crianças e adultos, com toques importantes sobre a vida como ela é, encenado pela trupe Cia Circunstância – pense em nome porreta! – de que é parte a amiga Manu de Emanuelle: El Grande Circo FirinFinfim.

Palhaças e palhaços a serviço da arte e da consciência, com o necessário incentivo da lei municipal de promoção da cultura. Política pública faz diferença. Veja no Instragram @ciacircunstância (a incorporação aqui derruba meu texto, sabe-se lá por quê…).

Ainda durante as férias teve dia de Parque Municipal com a galerinha, com direito a andar de ônibus, tropeirão à beira do lago e rolê pelo centro nervoso da cidade. Programas na medida toda, que só acontecem com a avó rueira.

Sim, e teve também a tarde na casa da Tia Lili, curiosidade saciada. E com direito à aula de plantar bananeira, com técnica habilitada – minha irmã foi ginasta e professora da área – no melhor espírito olímpico. E isso bem no meio à sala da “casa chic”, definição do Nicolas.

Gosto de estar no meio de gente alegre, e a descendência não é diferente. Curto troca e memória familiares, e você dirá, percebe-se. Todavia, ultimamente tenho reconhecido em mim uma boa companhia para mim mesma.

Nem sempre foi assim, exceção a breves viagens de férias. No cotidiano, fugia da solidão à vera, talvez porque ainda precisasse vasculhar melhor o meu ser aos borbotões.

“Conhece-te a ti mesmo”, recomenda o Oráculo de Delfos. A máxima é também atribuída a Sócrates, que teria agregado: “… e conhecerás os deuses e o Universo”.

No momento, talvez nada mais me aflija, nada mais é para ontem, tudo pode esperar sua vez de vir a ser…

Digo, por outro lado, que tenho pressa nenhuma em cruzar o umbigo do mundo. Ao contrário do que, dia desses, preconizou o menor dos meus três sobrinhos netos:

– Vovó Suna, você está boa de morrer com esse cabelo todo branco…

– Tô nada, Caio, o cabelo está é pintado de nuvem.

E demos boas risadas de nossas certezas, fantasias e experiências.

Caio acabara de retornar de férias no Chile com mãe e pai, onde se divertiu a valer com neve e aventuras em profusão. Relatou tudinho, animado feito toda criança feliz, no caminho entre a escola e sua casa, a avó na direção.

Pequenos detalhes que fazem nossos corações transbordar de afeto.

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Postagem revista e corrigida em 15.08.2024, 6h: correção de erros de digitacão.

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