Retrospecto necessário para seguir adiante

Clique para ouvir o áudio desta postagem:

por Sulamita Esteliam

Não me esqueci de que 6 de janeiro é Dia de Santos Reis, a festa da abundância e da prosperidade para saudar o Menino Deus. Salve, salve!

Há, porém, um retrospecto necessário preso nos rascunhos, à espera da libertação. Faz bom tempo.

Ao que parece, é moda aqui neste A Tal Mineira, infrequente e renitente.

Muito antes de o predador laranja, corregedor do mundo, sequestrar o presidente da Venezuela e sua mulher, e fazer deles seus prisioneiros sob a acusação de narcotráfico e outros “crimes” mais.

O que Trump faz tem nome, em qualquer compêndio, à revelia do caráter de seu alvo. Não está sozinho, todavia, teve parceria. E a memória histórica não permite que nos enganemos.

Por mais que parte de nós  se deixe atormentar pelo complexo de vira-latas. Por mais que nos cutuque o impulso de sermos palmatória do mundo, não cabe aplauso em atos imperialistas, nazifacistas. O AroeiraCartum bem o traduz (tem muito mais no Instagram do Cartuminas, acesse e curta). 

Dito isso, vamos ao retrospecto necessário para avançarmos na primeira semana útil do ano. Então, prepare-se, porque Euzinha vou me alongar na tricotagem.

Tinha tudo para ser um domingo perfeito o 14 de dezembro, aniversário de 78 anos da presidenta Dilma Rousseff, primeira e única. A lembrar que, em Pindorama, tudo começou a desandar quando armaram para arrancá-la do poder.

Só faltava combinar com o Universo o desfecho. O lado direito da força não pode ganhar todas. E a vida segue, a despeito dele.

No Ferrugem, extremo-Oeste de Belo Horizonte, nas Minas Gerais, meu irmão Alarcone Lalá se emocionava no Moda de Viola, bar de gente fina, vizinho à casa onde crescemos.

O coração afinado com a presença de familiares e amigos no lançamento do seu primeiro livro de poesias, aos 70 anos. Motivo bastante compreensível.

“Essência” reúne poemas viscerais que pontuam toda uma existência. Minha escolha afetiva para abrir as asas do selo Ideias & Letras.

Deu nome à empresa de assessoria em Comunicação que mantive por cinco anos e encerrei em 2015. por motivos estritamente pessoais.

A logomarca, um triângulo vermelho com asas douradas, é criação do meu amigo Eloísio Libório Melo, já encantado. Dar-lhe outra serventia é propósito antigo, adiado infinitamente.

Por essas ironias do percurso, não pude estar junto, de corpo presente, no lançamento do livro que inaugurou o novo ramo.

No entanto, fui muito bem representada por minha parceira e sobrinha, Marina Nadu, primeira na galeria de fotos do lançamento.

É ela quem assina a capa do livro e cuidou da revisão, repetindo o que fez em meu livro mais recente: O Livro de Dora e suas Irmãs, 2024, editado pela Comunicação de Fato Editora, de Belo Horizonte.

DNA é coisa séria.

E nossa mãe, dona Dirce, encantada, certamente adoraria essa tertúlia, registrada nas fotos que reposto acima.

No mote do encantamento…

Enquanto isso, meu querido amigo Marcelo Prates, jornalista mago das lentes,  parceiro e sobrevivente de coberturas e aventuras jornalísticas, sucumbia às complicações de um infarto na UTI de hospital especializado em Beagá; aos 71 anos.

Os sete filhos, uma moça – que ele teve com seis mulheres diferentes; os familiares mais próximos e a namorada estavam reunidos para as despedidas. Que, afinal, não aconteceram: ele estava sedado e sedado voou para o outro plano.

Meu amigo não resistiu à vasoplagia pós-cateterismo para desentupir três artérias.

Vasoplagia, nome estranho que traduz uma condição cruel: vasodilatação excessiva e inadequada, que leva à baixa perigosa da pressão arterial e, comumente, ao óbito, recita a IA. 

 Penso em Ivone, a “amada mãe”, que tem 94 anos, e era companhia constante do filho, sobretudo nos últimos tempos. E a abraço, chorando por dentro.

O meu domingo acabou.

E Euzinha não consegui chorar.

Muita luz para o meu amigo. Força e consolo a quem o ama pela eternidade.

 

Fui pra rua mesmo assim, distrair o nó que me oprimia o peito. Era o que ele faria com seus olhos brincalhões, o sorriso pernamente, a fala mansa e o olhar atento. Hão de me acompanhar e a todo o séquito que o ama, enquanto vida houver por aqui.

Tenho muitas histórias para contar de nossa convivência. Trabalhamos juntos por alguns bons anos. Escreverei sobre quando estiver pronta. Por ora, o indispensável registro.

O povo na rua contra a canalhice e a opressão

A chuva na capital mineira dera uma trégua, permitindo a circulação das pessoas, a pé ou motorizadas, sem maiores atropelos.

No Recife, onde resido, já é verão e a chuva eventual não passa de pancadas rápidas, que evaporam passageiras.

É tempo de praia. Aqui, porém, afora banhistas locais e turistas aos borbotões, em matéria de protesto, a orla é reduto mal-assombrado por gente sem-noção, partidária do Coisa-ruim, soluçante presidiário. 

Ao contrário do Rio de Janeiro, onde artistas do primeiro time atraem multidões. E de São Paulo, onde a indigência não consegue impedir o movimento.

Nos sete cantos do país, o povo que tem juízo se mobilizou. E se prepara para voltar às ruas no 8 de janeiro. É preciso mostrar que ainda estamos aqui, e daqui não arredamos pé: o Brasil é nosso, não vamos deixar que nos surrupiem de novo.

O alto nível de acanalhamento do Congresso Nacional nas duas últimas legislaturas, sobretudo na Câmara dos Deputados, estimula o desfrute do bom tempo, não obstante. Nem os chamados “anões do orçamento”, na primeira metade dos anos 90 do século passado, podem competir.

Unir a indispensável indignação ao agradável da atividade coletiva. Juntar a oportunidade de rever e abraçar amigos, de usufruir a alegria de flanar com lenço, documento e propósito.

A retomada das ruas, desde o ano que passou, se contrapõe à horda com código de barras. São mais de 300 picaretas com e sem anel de doutor, que insistem em aliviar para os golpistas do 8 de janeiro e para a bandidagem; com e sem colarinho ou salto agulha.

Quem ama não espanca, não abusa e não mata

Nossa gente voltou às ruas, também, para se manifestar contra o recrudescimento do assassinato de mulheres, por serem mulheres.

Nas ruas e no recanto doméstico, a violência cresce em onda galopante de feminicídios, a despeito dos rigores da lei. E não se pode calar ante a covardia que viola o direito de existir de meninas e mulheres.

O porte das cidades não carrega exceção à misoginia. É como se os homens fossem filhos de chocadeira: só enxergam a mulher como objeto de posse – no sexo e na vida -, pancada, exploração e extermínio.

Repito aqui as perguntas que estão na contracapa do meu livro Em Nome da Filha, Viseu, 2019: 

Que amor é esse que machuca, tortura, aterroriza, subjuga e mata? E que amor é esse que se submete, se anula, se morre um pouco a cada dia?

Inerente ao caráter nacional desde a primeira invasão de Pindorama, o ódio despropositado, que se cria domesticado, escapou da Caixa de Pandora. Isso é fato.

Imaginava-se que, mantido sob chaves, ele poderia ser administrado. Tolice, ao menor vacilo, ganha palácios, picadeiros, as redes, a praça pública. Assanhou-se, despudoradamente.

As leis podem pouco ante o pulsar do sangue ruim. Verdade inexorável.

Digo que não há futuro se não se cuida de educar meninas e meninos para uma vida de igualdade, liberdade e respeito mútuo, que inclui a democracia e os princípios que nos regem.

O ser humano não evolui se não fugir da posse, se não lhe for dado o direito de ser frágil, além do raciocínio lógico, a força física e mental, a disputa por espaço e poder, venha de onde vier.

A alegria e o choro são essenciais para evoluir-se rumo a um futuro qualquer, aonde o instinto animal sedento de sangue se recolha e o bom senso e a harmonia deem o tom.

É um exercício do lado vital da humanidade, questão de sobrevivência, Euzinha diria.

Ou, como escreve o poeta Walter Franco, que se foi em 2019:

Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo“.

*******

Fotos:

* Lançamento do Livro “Essência”: Moreno, Marina Nadu e Criz

* Euzinha com Marcelo Prates: Criz

* Manifestação Recife contra anistia para golpistas e bandidagem: SEsteliam

* Mulheres pelo direito à vida: SEsteliam e Raiane ( a minha foto)

 

Deixe uma resposta