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por Sulamita Esteliam
Parecia uma libélula em forma de gente: esguia, quase transparente, delicada e ágil.
Uma ninfa recém-emergida. Cabeça bem redonda, cabelos cortados rentes ao couro cabeludo, emoldurando um rosto suave, de olhos puxados e vivazes, sorridentes. A boca espelhava o sorriso em dentes alvos, brilhantes.
A água, de fato, estava uma delícia, e ela parecia apreciar cada gota no vai-e-vem das ondas que seu corpo moreno furava com leveza.
Um verdadeiro balé em que os braços longos se faziam de asas ao desaparecer e erguerem-se da água, acompanhando o emergir do mergulho.
Estava em seu elemento.
Não consegui tirar os olhos dela, desde que chegamos à barraca de costume. Senti-me abduzida.
A associação com a jacinta ou lavadeira, como se diz no Brasil – em Portugal é pinga-azeite, ensina o Google – foi inescapável.
Pensei: que linda figura esta mulher! E que bom ela estar aqui para eu poder apreciá-la.
Reza a lenda que a libélula tem conexões espirituais, e traz sorte quando visita sua casa. Além de eficaz controladora de pragas. Pois bem, ela estava no meu quintal. Perfeita situação para se chamar de feliz.
A praia estava lotada, como só o é aos domingos. E era sábado, o primeiro do ano, na temporada destas férias de verão.
Foi o nosso primeiro dia de praia, depois da virada. A maré ainda estava cheia, mas secando, e Euzinha disposta ao banho de mar prolongado.
Sorvi a água de coco como se não houvesse amanhã, enquanto não vinha a cerveja. Depois fui mergulhar na água tépida.
Tudo, sem tirar os olhos da moça, que deixara a água e deslizava ao longo da preamar. Fomos para a água também e, na ultrapassagem, recebemos o prêmio do sorriso daqueles de encher a alma de borboletas.
Devolvi à minha moda.
Gosto de água, mas sou bicho de areia: meu banho demorado não vai além de uns quinze minutinhos… Não tenho paciência para o molho.
Retornei ao abrigo do sol, deixando o marido boiando… Foi quando dei de cara com a moça, logo atrás da nossa barraca. Estava de pé, com o sorriso luminoso, à espera de algo ou alguém. Puxei conversa:
– Amei seu cabelo. Ando tentada a fazer o mesmo com o meu, faz um tempo …
Ela manteve o sorriso.
– Estou em tratamento. Os cabelos caem muito. Cortei. Mas não foi o suficiente, então resolvi passar a máquina.
– Fez bem e lhe fica ótimo, à revelia do motivo.
Ela tornou a sorrir e continuou, sem que eu perguntasse:
– Tive um câncer de mama, me curei; me preparava para a cirurgia de reposição. Mas agora apareceu um outro nódulo na axila do lado oposto; e estamos investigando.
– Você há de ficar boa. Meu marido teve um câncer pulmonar; perdeu metade do pulmão esquerdo, mas se curou, graças.
– Sim, tenho fé de que vou me curar. Tanto, que hoje escolhi celebrar meu aniversário com um banho de mar. Moro em Garanhuns e vimos passar o fim de semana no Recife.
– Parabéns, que Iemanjá abençoe sua vida e seus caminhos. Coincidência boa: minha tia caçula faria aniversário hoje, 3 de janeiro. Era alegre, sorridente como você, está encantada. Sim, também sou caprica, do dia 28 de dezembro. Emplaquei 72 anos.
– Faço 35 anos hoje. Quero chegar ao menos no dobro, tão bem quanto você.
Vai chegar, Héricka – assim mesmo, com H (“minha mãe caprichou!”). Vai chegar e ir além.
