Dramaturgia na veia: ‘Pra não passar em branco’, de Manu Pessoa

por Sulamita Esteliam

Li, quase sem respirar,  o texto de do monólogo de Manu Pessoa: “Pra não passar em branco”. Leitura dramática na acepção contemporânea da expressão.

Dramaturgia de inensidade extrema. Realidade e ficção na medida. Curto-circuito energético.  Memória pessoal e coletiva, necessárias. Transbordamento de emoções.

Corre para ver, você que tem a sorte de estar em Belo Horizonte, MG! Dia 30 deste janeiro é a última chance desta curtíssima temporada, sob as bençãos da Lei Paulo Gustavo: às 20h no Teatro Espanca, no Centro. A entrada é franca.

Um solo performático, que embola amor, humor e dor. Gesto dramático, transmutado em arte – para não permitir que o afeto e o luto, que o tempo transforma em saudade,  se percam no esquecimento.

O texto me chegou por email, conforme prometido. Logo na semana de estreia. Só pude ler há dois dias. Casa cheia, minha filha Gabriela de mudança, ela assoberbada também de trabalho profissional.

Fiquei por conta da neta, da cozinha para mais duas, três… e quem mais chegar.  É assim casa de mãe e avó. Sim, teve praia, um dia.

Não havia clima para mais emoção e compartilhamento.

Manu, que também é atriz de teatro – performática e acrobata – e produtora de eventos – e poderia ser jornalista, pelo detalhamento que fez aqui –  havia me dito, quando nos encontramos em Beagá: estava escrevendo uma dramaturgia sobre e em homenagem à mãe encantada.

Almoçamos juntas em casa da minha filha Carol, em minha última estada. Euzinha cozinhei. Talvez por isso, e também para se resguardar, não tenha entrado em detalhes.

O que ela não me disse, ou não registrei, é que a mãe embarcou no comboio da Covid 19,  no trem de meados de junho de 2021; no vagão do descaso e da esculhambação.

E ela, a mãe, era a favor da vacina.

José. Maria. Lourdes. Ricardo. Bruna. Mari, Xikus. Cláudia, Cleonice, e os 716.626 mortos pela
covid 19. Hoje é por vocês.

Não vamos esquecer.

A memória é o vagão da História, e a atriz chama pessoas da plateia a ler trechos do texto, numa espécie de chamada às pessoas queridas que se foram.

Não podemos esquecer.

Manu alterna diálogos com a mãe, com a morte, com a plateia, com fatos, dados, deboches e tiranias conectados com a pandemia de Coronavírus – no Brasil e no mundo.

Nos leva, os sobreviventes, a refletir sobre a herança que o passado nos legou para a eternidade: o silêncio, o tudo, o nada, a passagem, o rito, a música…

Ou seria a Morte a porta para o reencontro? Nunca mais é um tempo longo por demais.

Com habilidade e paixão pela mãe, pela vida e pela arte, a dramaturga nos conduz pelos labirintos do amor e da dor.  Vivencia o luto no barco da saudade.

Dialoga com a Mãe “catireira” e com a Morte sestrosa, em viagens de fantasia e através da música: “La Muerte”, em espanhol, e um karaokê-homenagem com a trilha sonora preferida da mãe.

A peça poderia terminar aqui, se a intenção fosse leveza. Pero, “não vamos esquecer”, lembra-se?  Segue, portanto.

E vem a parte mais intensa. E é aí que o nó estaciona em sua garganta, e o peito arfa em agonia.

Desespero compartilhado com a filha à porta do hospital, à espera de notícias sobre o estado da mãe, que tem o ar sequestrado pela peste em dose dupla.

Numa cidade do interior todo mundo conhece todo mundo. A filha não mora mais lá, mas todo mundo a conhece.

E ela confia que há de encontrar um médico, uma enfermeira, alguém conhecido que lhe diga a real sobre a mãe na UTI, aonde ela não tem acesso.

E os parentes se solidarizam com ela. Vão visitá-la, e também buscam as atualizações sobre a mãe dela que, imaginam, torcem, resiste no leito ao qual só médicos e a enfermagem têm acesso.

Confesso que chorei, soluçado. A ponto de o maridão vir me acudir na mesa de trabalho.

E mais não digo. Apenas comento, como se pensasse em voz alta:

Não é à-toa que Manu Pessoa é capricorniana.

*******

Fotos: Instagram da autora + divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta