Recife Antigo com cara de quaresma

Ouça o áudio ao pé da postagem.

por Sulamita Esteliam

A quaresma tem cara. E no Recife Antigo é do mais puro deserto. Só as luzes iluminam as ruas aonde a festa imperou por seis dias, desde a quinta anterior, e reina o ano inteiro, nos fins de semana. No sétimo, é preciso descansar, ora essa.

Acobertadas pelo tempo em evolução,  as ruas estreitas já nem se lembram que,  às quatro da manhã de Cinzas, ainda era Carnaval. Alceu Valença, maestro Spok e o Orquestrão incendiando a madrugada.

Eles, depois que reinaram na noite Nena Queiroga, Geraldo Azevedo e a eterna Elba Ramalho. Elas e ele que sucederam ao espetáculo ancestral das nações de maracatu de todos baques.

Na noite anterior, Alok, onipresente nos principais palcos da folia brasileira, troou sobre as tradições. Mas só depois do desfile de blocos de frevo-canção. Embora a batida eletrônica seja igualmente palatável ao recifense de todos os ritmos.

E que o Nação Zumbi cumpriu o rito de botar abaixo conterrâneos alucinados e mulheres em combustão. Quem ainda não ouviu nem viu, precisa provar. É para não esquecer jamais.

Sei do sucesso pelas redes. Euzinha e o maridão, este ano, passamos longe do Carnaval do Bairro do Recife. A volta para casa é sempre um freje. Não estávamos dispostos.

Nos concentramos em Olinda, dois dias alternados, tão somente. Corrijo: na semana pré, honrei o grito das mulheres, na Mamede Simões: É do Xibiu!

Todavia, é quarta-feira de cinzas.  

Os andarilhos do Bairro do Recife se preparam para a noite de sono sob as marquises estreitas de um tempo que já não é mais.

É possível ouvir o silêncio.

Nem um frevozinho, sequer em som ambulante. Bares fechados na Praça do Arsenal, na Rua da Guia, na Rio Branco, Marquês de Olinda, Moeda.

Um ou outro vigia guardando o ermo, quebrado apenas pelos trabalhadores que desmontam o palco gigante do Marco Zero.

É preciso redescobrir a visão do Parque de Esculturas Francisco Brennand, do outro lado do estuário, e sua Torre de Cristal – que o povo chama de “bilôla do Brennand”.

Som abafado de canos e placas da estrutura: uma semana de trabalho pela frente, no mínimo.

O cenário que descrevo acolhe a amiga mineira, sua caçula agastada pelo ermo e seu amigo alagoano de Maceió, com raízes pernambucanas.

Jovens são jovens, dotados de urgências que já não nos alcança, nós que já subimos e agora descemos a ladeira.

Visões diversas: Virgínia, a mãe, encantada, voltava ao Recife após 40 anos. Achou “uma sorte conhecer o Antigo silencioso”. O casal  de jovem amigos nos acompanharam meio que a contragosto.

Mas é quarta-feira de cinzas.

E acabamos num dos raros bares na beira-mar de Boa Viagem, Segundo Jardim. E tudo se acomodou depois de algumas, poucas, geladas, com promessas de retorno. Quiçá no ano que vem!

Lembro-me que, ainda criança, achava divertido acompanhar minha mãe à igreja, para receber a cinza na testa. Ainda que tivesse que acordar-me para a missa das 7h.

Minha mãe não gostava de Carnaval. Dizia que era “coisa do capeta”. Nossa tia paterna, graças a Deus,  a convencia e nos levava para a folia no centro da cidade. Santa tia Mundica.

Adulta, mas ainda jovem,  dispensava as cinzas, a Igreja. A quarta-feira ingrata tinha sabor de volta ao trabalho após o meio dia, tempos de cura da ressaca da festa nos clubes da cidade. Ou não.

Jornalista, muitas vezes integrava a equipe de cobertura dos desfiles dos blocos caricatos e escolas de samba de Beagá, nos anos 80 do século passado. 

Ao final, repórteres de texto e de imagem, juntavam-se no “bloco da imprensa”. Era seguido pelo “bloco dos garis”, que davam um jeito em nossa moral.

E tem Diamantina, Ouro Preto, São João Del Rey, Sabará…. Minas também é da batucada; tem samba na alma, nas mãos e nos pés. E hoje a capital mineira é dos foliões, em bloquinhos e blocões espalhados por toda a cidade.

A folia  nesses tempos tem outra configuração, cada vez mais política e comercial – para o mal e para o bem. Mas nada se compara ao Recife e à Olinda.

Não posso fugir do assunto. Tenho que renovar perguntas que sempre fiz e faço: quanto custa manipular os fatos? Será que o povo é bobo?

Uma concessão pública, que detém monopólio da cobertura não tem que cumprir regras mínimas? Quem, além de nós, cobra postura – nem digo de isenção, mas de equilíbrio?

O que a TV Globo fez com a Acadêmicos de Niterói tem nome: é sacanagem. Som abafado que mal se ouvia o samba, que dirá as manifestações das arquibancadas.

Na abertura, o pobre do repórter, mãos trêmulas, obrigado a ler uma nota chula sobre a polêmica jurídica,  encerrada pela Justiça.

Comentários isonsos e incolores, com cheiro incontido. Imagens em plano aberto dos carros e alegorias que homenagearam Lula da Silva, com um baita samba-enredo, um samba popular, belo desfile e muita coragem:

Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil

 

Digo que a Globo, sob o risco de ser desmascarada, como o foi pelas redes sociais e coberturas alternativas, fez mais do mesmo: política anti-Lula. Repetiu a edição do debate de 1989,  em favor do adversário Collor de Mello; e o esgoto da esculhambação da Lavajato.

Só que os tempos são outros.

A Acadêmicos volta ao grupo de acesso, de onde veio do Carnaval Passado, uma uniformidade de votos que indigna. No entanto, sai maior do que entrou. Fez história. 

A amiga Ângela Carrato, dentre várias abordagens no mesmo diapasão, analisa o escárnio. Assino embaixo e compartilho.

Há quem prefira apagar esta imagem – captura no FB/Ângela Carrato

 

Fotos do Recife Antigo à noite: Virgínia Castro

Deixe uma resposta