Quem chamou o Papa na conversa?

Por Sulamita Esteliam

É o fim da picada, agora até o Papa se acha no direito de meter a colher de pau nas eleições brasileiras. Lá do alto da pompa vaticana, sua santidade houve por bem dar razão aos bispos e padres católicos que “orientam seus fiéis” a escolher o candidato que defenda as leis da igreja que ele dirige, dentre elas, a que proíbe o aborto em qualquer circunstância. Como diria minha avó, não sabe da missa um terço. A notícia é do Estadão, na rede – jornal que assumidamente apóia o Zé Santidade.

Ora, aborto só é pauta de campanha eleitoral se discutido sob o ponto de vista de saúde pública. Não é o que está posto, agora, a serviço de interesses outros. Por isso, tenho me contido, e evitado escrever sobre o assunto, enquanto durar o processo eleitoral. Falta pouco.

De volta ao Papa, que está longe de ser pop. Não satisfeito, Bento XVI recomenda o ensino religioso nas escolas, dentre outras cozitas mas. Ao fazê-lo, comete mais uma interferência indevida nas leis de outro país. Afinal, o Papa não é apenas chefe da Igreja Católica, mas também chefe de Estado – do Vaticano. A diplomacia também tem seus cânones.

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Não basta a campanha sórdida que setores ultraconservadores das igrejas – neste segundo turno, diga-se, particularmente da Igreja Católica – têm movido contra a candidata do PT à Presidência da República.  Unem-se ao que há de mais retrógado nesta terra brasilis para achincalhar o que deveria ser a celebração da democracia, da alegria do povo em exercer sua cidadania, seu direito de escolha.

Pisam em nossa Carta Magna: o Estado é laico. Pisam em nossas leis: calúnia e difamação são crimes, assim como distribuir inverdades sobre candidatos fere a lei eleitoral. Pisam no Evangelho, espalhando mentiras e destilando ódio. Pisam nos mandamentos Divinos – não levantar falso testemunho, veta o oitavo preceito; amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo, recomenda o primeiro. E usam o Santo Nome de Deus em vão, ao contrário do que prega a segundo norma da lista inscrita na tábua de Moisés.

Paro por aqui. Minhas palavras não comportam minha indignação.

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Mestre Ricardo Kotcho vai mais fundo no imbróglio igrejas-demotucanos-mídia golpista. Transcrevo o artigo postado em seu Balaio do Kotcho:

28/10/2010 – 10:21

Agora até o Papa dá palpite na eleição

Só faltava ele! Pois ao abrir a capa (alguns preferem chamar de home page) do portal Estadão.com, a 72 horas das eleições presidenciais, tomo um susto ao ler a manchete: “Papa condena aborto e pede a bispos que orientem politicamente fíéis”.

Diz a nota que “em reunião em Roma na manhã desta quinta-feira, 28, o papa Bento XVI conclamou um grupo de bispos brasileiros a orientar politicamente fiéis católicos. Sem citar especificamente as eleições de domingo, o Papa reforçou a posição da Igreja a respeito do aborto e recomendou a defesa de símbolos religiosos em ambientes públicos”.

Além de condenar o aborto, como se alguém pudesse ser a favor do aborto, embora muitos defendam a sua descriminilização, o papa também cobrou o ensino religoso nas escolas públicas e defendeu a luta pela manutenção dos símbolos religosos, citando o monumento do Cristo Redentor no Rio, como se eles estivessem ameaçados.

O Brasil é um Estado laico e mantem relações diplomáticas com o Estado do Vaticano. Com que direito Sua Santidade vem meter o bedelho em questões internas de um país às vésperas das eleições presidenciais? Já não basta o papel impróprio e deprimente  exercido por alguns dos seus bispos que, com esta falsa questão do aborto, transformaram seus altares em palanques contra uma candidatura e a favor de outra, distribuindo panfletos políticos em lugar de homilias?

Depois de ser explorado até a exaustão pelos bispos teefepeanos, telepastores dos dízimos e, principalmente, pela mídia, o assunto já tinha até saído de pauta, tão rapidamente quanto entrou, porque as últimas pesquisas mostraram que ele não estava mais rendendo nenhum resultado nas intenções de voto dos eleitores.

Em artigo publicado terça-feira no Observatório da Imprensa, o analista de mídia Cristiano Aguiar Lopes prova com números de uma pesquisa que “houve um esforço coordenado e eficiente dos principais jornais e revistas do país para insuflar a polêmica sobre o tema com vistas a um fim eleitoral mais que óbvio: roubar votos de Dilma entre eleitores conservadores contrários à descriminalização do aborto”.

Os números são impressionantes: a três dias do primeiro turno, no dia 30 de setembro, as principais publicações do país pesquisadas registraram 149 menções sobre o aborto, chegando a 430 no dia 8 de outubro, na primeira semana do segundo turno que foi dominada pelo tema.

“A primeira escalada ocorre pouco antes do primeiro turno e tem como objetivo conquistar os votos de indecisos e de dilmistas não muito convictos. A segunda, bem mais intensa, busca transferir para Serra os votos de um grande contingente de eleitores conservadores _ sobretudo católicos e evangélicos _ contrários à descriminalização do aborto”, conclui Cristiano Aguiar Lopes.

A pesquisa prova também que não houve “onda verde” nenhuma que tenha provocado o segundo turno. Foi, na verdade, uma “onda religiosa” nas igrejas e nos subterrâneos da internet que beneficiaram a candidata evangélica Marina Silva e levaram a eleição ao segundo turno, usando a ameaça do aborto como instrumento eleitoral.

O Papa foi inconveniente, chegou atrasado na história e entrou de gaiato numa falsa polêmica que até a mídia já tinha esquecido. Deveria se preocupar mais com os casos de pedofilia envolvendo religosos que grassaram nos últimos anos em sua igreja, com a perda de fiéis para as seitas evangélicas e o esvaziamento dos seus templos. Não precisamos dos seus conselhos para saber como deveremos votar no domingo.

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Sobre voto, religião, mentiras e preconceito, leia também:

O artigo de Conceição Lemes, em Vi o Mundo

Manifesto Jovens Católicos e o Processo Eleitoral, também postado no blogue do Azenha.

Em Foz do Iguaçu, Serra promete vetar lei da homofobia – ainda no Vi o Mundo


5 comentários sobre “Quem chamou o Papa na conversa?

  1. ENGANAR AS PESSOAS EM NOME DE JESUS
    É com tristeza que vejo muitos pregadores desonestos, enganando as pessoas em nome de JESUS. É muita gente safada, visando apenas dinheiro, mais dinheiro, falando o nome de JESUS. Cuidado, não vamos esquecer dos pregadores pedófilos que estão soltos por aí. Cadeia pra eles. Podridão. Você para alcançar ou ser atendido por DEUS, não precisa pagar ou dar dinheiro pra ninguem, é só fazer o pedido com fé. Agradeça quando for atendido. Podendo, ajude sim.É importante participar e ajudar as pessoas. Existem muitas instituíções religiosas sérias, procure obter informações,antes de se tornar membro de alguma delas.

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