Mães de Maio querem justiça

por Sulamita Esteliam
"Tributo às Mães de Maio e às mulheres de coragem do Brasil e de todo mundo" Carlos Latuff, Maio/2011 - capturada no blogue Mães de Maio

Faz cinco anos, nesta quinta, 12, que São Paulo viveu um massacre: pelo menos 493 pessoas foram assassinadas por agentes públicos, das quais nada menos que 122 com indícios de execução sumária, aponta estudo da ONG Justiça Global, divulgado recentemente. Dezenove corpos foram enterrados em valas coletivas e sem identificação. Até hoje, ninguém foi responsabilizado ou punido.

O luto permanece. Tornou-se luta, entretanto; agregada no Movimento Mães de Maio, que tem em Déborah Maria da Silva, mãe de uma das vítimas, um símbolo de força e determinação. A história é contada no livro Do Luto à Luta – As Mães de Maio, a ser lançado hoje, no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, a partir das 16 horas. Haverá coletiva de imprensa, caminhada até a Praça da Sé e Ato Ecumênico em protesto contra a impunidade. No blogue Mães de Maio, a programação completa.

O Movimento Mães da Praça de Maio pretende, aliás, denunciar a omissão das autoridades no que se refere identificação e punição dos assassinos à OEA – Organização dos Estados Americanos. Quer, também, que as investigações sejam federalizadas, e que a Justiça autorize a exumação dos corpos enterrados sem identificação. Clique aqui e aqui para ler na Rede Brasil Atual.

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À época, escrevi a crônica-artigo Licença para Matar, que foi publicado no portal independente La Insígnia – por interveniência do meu amigo Urariano Motta, jornalista e escritor pernambucano. Busquei o acesso no sítio latino-americano, não encontrei. Por isso, reproduzo o texto, em recuo no tempo:

Brasil

Licença para matar

Sulamita Esteliam (*)

La Insignia. Brasil, maio de 2006.

Ando farta de notícias ruins e de notícia nenhuma, transbordantes de ficção travestida de fatos. Também, tenho, cada vez mais, menos paciência para soluções sob encomenda, receitas prontas para efeitos colaterais. Mas, vamos lá: a crise de segurança no Brasil é sistêmica, suas causas são conhecidas e não haverá solução à vista enquanto não se tratar das raízes da questão: o oceano de desigualdade social, e de justiça – material, moral e legal – que separa a casa grande da senzala, desde sempre. A impunidade grassa. Num país em que as elites se escondem de si mesmas, e em que o Estado, quase sempre, só se faz presente como algoz para a imensa maioria, não é de se espantar que a violência exploda com dimensões de guerra civil.

Ainda assim, o noticiário, que pego em andamento, na segunda-feira 15 – depois de um final de semana de abstinência total -, me soca o estômago. Deixa aquele conhecido, e incômodo, travo na garganta, sempre que me deparo com situações diante das quais somos impotentes. São Paulo, a cidade que não pode parar, está apoplética, tomada pelo pânico. O sistema de segurança, já em falência há tempos, está em colapso. Começara a sangrar na sexta-feira, 12. Vazara por todo o final de semana. Tornara-se hemorrágico. A selvageria alcança policiais civis e militares, soldados do Corpo de Bombeiros, guardas municipais, agentes penitenciários, bandidos e não-bandidos. O PCC dá as ordens.

Ônibus são queimados, delegacias, postos policiais e outros prédios públicos metralhados. Quem desafia o medo, para não perder o ponto, usa os pés para cruzar distâncias impensáveis. O comércio cerra as portas. Locaute no sistema de transportes. Rios de aço de tráfego nas veias abertas da capital paulista – transmutados em deserto de asfalto, mesmo com a liberação do rodízio de placas.

O sangramento se espalhara pelo estado, ultrapassara suas fronteiras a noroeste, a leste, a nordeste – com requintes de selvageria: um refém fora degolado, no Mato Grosso. No Recife, ao meio dia, a Secretaria de Defesa Social vangloria-se de ter abortado o pipoco da barbárie em Pernambuco – estado campeão em homicídios no país; proporcionalmente. Apresenta à imprensa sete suspeitos – entre os quais duas mulheres -, de serem pombos-correios do PCC “sulista”, encarregados de semear, aqui, o terror por ele comandado na locomotiva brasileira. Com os réus, confessos segundo a polícia, as armas do crime não levado a cabo: alguns revólveres 38 e duas garrafas PETs – uma pela metade – de combustível, que seria usado para “incendiar ônibus” em Caruaru, no agreste pernambucano; com dois litros e meio de gasolina.

Naquele dia, que revela-se inútil no território do maior PIB do país, soma-se perto de 100 mortos, 40 deles policiais. Nas 48 horas seguintes, o número de “suspeitos” detonados subiria para 93, nenhum policial. Nas 36 horas transcorridas entre a noite de segunda-feira e a tarde da quarta-feira, 17, são abatidas 55 pessoas, 40 delas não identificadas, de acordo com a agência Carta Maior. Execuções, pura e simples, acusam as entidades defensoras de direitos humanos: “À paisana, e usando capuzes, a polícia mata. Depois, bota a farda e volta para recolher os corpos”, denuncia um ativista. Tudo como d’antes. Relembre-se Carandiru e favela Naval.

Grande parte dos mortos é formada por jovens, em sua maioria pardos e pretos, pobres todos. Retaliação. Surpreendida, depois atarantada, a polícia, agora, readquire licença para matar. Os alvos de sempre se encontram na periferia.

Na segunda-feira, 15, o governador Cláudio Lembo (PFL), dispensara ajuda federal sob pretexto de que “tudo está sob total controle”. Na quarta, acusa as elites, na qual ele necessariamente tem que se incluir, de ser “uma minoria branca muito perversa”. Seu vaticínio, em entrevista à Folha de São Paulo, corrobora o que se quer, aqui, argumentar: “(…) Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país (…). A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira, no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.” Que ironia…!

(*) Sulamita Esteliam é jornalista e escritora. Mineira, mora no Recife.

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