Dê a cara contra o preconceito

por Sulamita Esteliam

Leio no blogue Eu Decido, da jornalista pernambucana, professora e ativista das boas causas, Ana Veloso, que o Brasil carrega o lamentável título de país que mais comete assassinatos de homossexuais, homens e mulheres, no mundo.  Só nos três primeiros meses deste ano foram 65 assassinatos – de gays, travestis e lésbicas. Dado que vem a propósito do lançamento da campanha Dê a Cara contra a Homofobia, lançada neste 17 de Maio, Dia Nacional de Combate à Homofobia pelo sítio  Dê a Cara.

Mais claro, impossível. O convite é para a comunidade LGBT enfrentar o preconceito, assumindo a própria condição e história. Como? Comece por acessar o endereço-sede da campanha: http://www.deacara.com/. Deixe lá seu comentário ou testemunho. Grave um vídeo sobre a sua experiência homofóbica ou sua posição contrária a ela. Atitude é corresponsabilidade.

Mas, voltemos à bestialidade humana. Está lá no sítio da campanha, traduzida nos números do Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil 2010: foram 260 mortes no ano passado, 62 a mais que em 2009 e 113% em três anos – foram 122 em 2007.  Por trás das estatísticas, nunca é demais enfatizar, há vidas humanas ceifadas pela intolerância.

Não à toa o mantra, no mote de recentes e deploráveis acontecimentos, de que “retornamos à idade média”.

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Sobre a comparação, vale cada palavra o artigo da mesma Ana Veloso, em seu blogue. Por isso, transcrevo:

Bem-vindos/as à Idade Média!

Por Ana Veloso,  Jornalista Amiga da Criança/ANDI, professora da Universidade Católica de Pernambuco, doutoranda em comunicação pela UFPE, integrante do Coletivo Intervozes, empreendedora Ashoka e colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo.

…Mas um dia, eu sei
A casa cai
E então
A moral da história
Vai estar sempre na glória
De fazermos o que nos satisfaz…

Imorais – Christiaan Oyens e Zélia Duncan

A professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Paula Reis, lembra, por e-mail, que estamos reescrevendo a história: “Na última semana beatificamos um papa, casamos um príncipe, fizemos uma cruzada e matamos um mouro. Bem-vindos/as à Idade Média”! Como jornalista precisa de fatos para comprovar as declarações, enumerei alguns deles, que ratificam o que pesquisadora sentencia.

Não tem graça nenhuma. Estamos diante do que denomino de “Barbárie em Série”. No Brasil, parlamentar imprime e distribui panfleto ‘anti-gay’, uma emissora de televisão pensa que pode fazer humor com pessoas autistas impunemente e um cidadão ganha publicidade por fazer piada com estupro. Fico pensando: até quando a sociedade e o Estado brasileiro irão admitir que, sob o argumento de exercício da liberdade de expressão, certos “políticos”, “programas” e “apresentadores” divulguem atrocidades e violem os direitos humanos? Não podemos permitir que o mercado da mídia continue usando artifícios como a exposição de vítimas de violência e promovendo atentados à dignidade das pessoas.

Enquanto um brasileiro ridiculariza a situação dos/as que têm sua vida devastada pela violência sexual, centenas de mulheres estão tentando criminalizar, na África do Sul, o “estupro corretivo”.  A prática é usada como arma pelos sexistas e homofóbicos que se julgam no direito de cometer crimes contra a humanidade para “corrigir” mulheres que amam mulheres. As militantes que lutam para a legislação punir os criminosos que usam de tal expediente já conseguiram 140 mil assinaturas para sensibilizar as autoridades diante da grotesca situação.

Já falamos da caça às bruxas. Agora, vamos à eliminação dos negros. Na França, um grupo de dirigentes e treinadores de futebol estão sendo investigados por supostamente agir com racismo. De acordo com o site Mediapart, está ocorrendo, naquele país, a adoção de um sistema de cotas para negros e árabes para limitar o acesso deles aos campos de treinamentos construídos para os jovens. Como se só quem tivesse o sangue azul pudesse vestir a camisa da esquadra francesa. Alguma semelhança com o nazismo?

Do futebol europeu para o Brasileiro. Ou seria melhor, da xenofobia francesa para a brasileira? Após a classificação do time do Ceará para as finais da Copa do Brasil, choveram, nas redes sociais, novamente, ataques contra os nordestinos. O time do Ceará, popularmente conhecido como “vozão”, eliminou o flamengo do RJ do certame. E muitas pessoas, residentes no Sudeste, expressaram sua indignação com o resultado da partida por meio de xingamentos contra os habitantes do Nordeste do país.

Para terminar… Ou melhor, começar nossa volta ao passado, nada mais apropriado do que reproduzir uma parte de uma matéria veiculada pelo portal do jornal O Estado de São Paulo do dia 12/05: “A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nesta quarta-feira (11/05) uma nota oficial sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu, por unanimidade, na última quinta-feira (05/05), a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar. A CNBB afirma não concordar que essas uniões estáveis sejam ‘equiparadas à família’”.

E agora? Quem duvida de que estamos vivendo na Idade Média?

3 comentários

  1. É importante resaltar, que os mitos criados pela sociedade em relação ao homossexualismo, não passam de grandes mitos, impostos até hoje por uma sociedade de hipócritas, e de falsas verdades que titula suas religiões como; “A Verdade suprema”. E acreditam cegamente que, seus livros sagrados são paralelamente um “Manual da vida” e/ou “A fonte de toda sabedoria”, e acabam assim esquecendo que opiniões opostas, também são de extrema importancia.

    Tudo começa em casa, acredite ou não; de diversas formas nossas familias tentam nos passar seus dogmas, tais estes como: Escovar os dentes após acordar, fechar a tampa da privada, respeitar os mais velhos, obedecer as ordem de superiores. O que não passam de hábitos, que podem ser aplicados, ou não. Quando a familia percebe um certo desvio pessoal em um de seus membros, no caso, para o homossexualismo, geralmente qual a primeira reação? O repúdio.

    Medo da sociedade é o que eles têm, vergonha de beijar seu(ua) parceiro(a) publicamente, por não querer se tornarem alvo de chacotas. São tantos os olhares maliciosos, que, não há saída,ou eles enfrentam o preconceito, ou se tornam anônimos perante nós, o que acontece na maioria dos casos.

    Um outro assunto que está em pauta, é a liberação do casamento civil homossexual, que é alvo de várias críticas grosseiras, e sem nexo, como: “Deus criou Adão e Eva, não Adão e Adão, e nem Eva e Eva”. O que faz alguém afirmar isso? a sua fé, no que diz a Bíblia?.
    A igreja nos implantou esse caráter preconceituoso. Pergunto, se as pessoas que se dizem tão crentes no que diz a Bíblia, nunca tivessem lido a mesma, ainda sim iriam adotar tais pensamentos e atitudes? Não, pois tal não teria influência sobre nós.

    Será que é necessário uma revolução (LGBT) para que se torne reconhecido os méritos desses seres humanos, assim como nós? Não novamente, tal nem faria diferença, e não causaria nenhum abalo à eles. Só há duas formas de se conseguir a extinção completa do preconceito em geral, e essas são; esperar e acima de tudo, dialogar com essas pessoas que insistem em fazer de seus preceitos, uma enorme porta à frente do preconceito.

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