por Sulamita Esteliam

O Geraes, tabloide sobre o Vale do Jequitinhonha que circulou do final dos anos 70 a meados dos 80, ganhou edição especial com radiografia atualizada daquele torrão do Nordeste de Minas. E vai transformar-se em livro, uma coletânea de todas as edições do jornal e mais a recente, a ser lançado em julho, no Festivale – festival de música do Vale. Tudo financiado pelo BMG – Banco de Minas Gerais (e não BDMG – Banco de Desenvolvimento do Estado de Minas Gerais, conforme publicado antes), via lei estadual de incentivo à cultura.
Ainda não tive acesso a um exemplar do Geraes. Mas busquei um aperitivo no sítio do Instituto Imersão Latina, que recupera um pouquinho da história do jornal e do Vale, a partir da edição especial.
O editorial do número zero, em março de 1978, dizia:
“Quando os olhos de nossa consciência percorrem o Vale, a visão de conhecimento e compreensão que adquirimos é acompanhada de um sentimento de desolação e miséria”. 32 anos depois voltamos a percorrer o Vale para ver se tudo continuava sendo “desolação e miséria”.
A história, agora, não é a mesma:
“Encontramos em primeiro lugar o povo do Jequitinhonha com o seu abraço forte, sua alegria contagiante, sua força humana que pode derrubar cercas e porteiras e semear os campos e junto a tudo isso, sua cultura que resiste aos tempos, apesar do conteúdo da televisão, do axé, do breganejo e do pagode.
A desolação e a miséria já não se observam como antes mas ainda existe a pobreza. Hoje ela se concentra muito mais nas áreas urbanas das cidades do Médio e Baixo Jequitinhonha, que se alimentam fundamentalmente através do Bolsa Família e do dinheiro dos aposentados. A razão disso é que a terra está concentrada em grandes propiedades com baixa produtividade e pouca demanda de mão de obra e isso obrigou cada vez mais o camponês a fugir para a cidade. O Alto Jequitinhonha não sofre tanto desse problema, pois é formado por pequenas propiedades que ainda encontram em sua terra um meio de subsistência e assim enfrentar os desafios da pobreza. Esse aspecto demonstra de maneira irrefutável a importancia de uma verdadeira reforma agrária no nosso país, como instrumento de transformação social.”
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A edição especial preserva a logo da criação – ou não seria memória -, no traço do amigo de juventude, Manoel Soares Teixeira-Del, irmão de Júlio – com quem divido a estrada há 20 anos. Ambos e mais João Lefu são frutos do Jequitinhonha, onde estão suas raízes, e vêm a ser tios de Tadeu Martins, idealizador do projeto. Mais abaixo, posto entrevista que fiz com ele, por correio eletrônico.
O lançamento do Geraes – Edição Especial foi no último 26 de maio, no Restaurante Maria das Tranças, em Belo Horizonte – especializado em frango/galinha ao molho pardo, que é como se chama a cabidela das montanhas. Festa que reuniu boa parte da comunidade e da fina flor da cultura do Jequi, com direito a canja de ícones como Rubinho do Vale e Tadeu Franco.
À entrevista, pois.
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ENTREVISTA/Tadeu Martins
Tadeu é filho de Itaobim, e leva o sobrenome do avô materno, respeitado “coronel” daquelas plagas. Um engenheiro químico, escritor, cordelista e contador de causos, que leva a vida na produção cultural e na atividade política à esquerda – sem mandato -na capital mineira, aonde chegou rapazinho para prestar vestibular na UFMG. Em Beagá, exerceu várias funções públicas, inclusive na direção da Belotur. É casado com Solange Mendes, pai de Tatiana e Vladimir; avô de Gabriel, Raquel e Rafael, e bisavô – pasmem! – de Henrique.
A Tal Mineira: Por que uma edição especial do Geraes? De quem foi a ideia?
Tadeu Martins: O Geraes circulou no Vale do Jequitinhonha de março de 1978 a julho de 1985, e ajudou a mudar um pouco a realidade daquela região mineira. Os criadores, Aurélio Silby, Carlos Castilim, George Abner e Tadeu Martins, se reuniram para elaborar um projeto que foi aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura. Os quatro voltaram a viajar pelo Vale, recolhendo material para o novo trabalho.
O projeto foi idealizado por Tadeu Martins e previa:
1 – lançamento de 3.000 exemplares de uma edição especial do Geraes, mostrando o Jequitinhonha nos dias atuais.
2 – lançamento de um livro com todas as edições do Geraes, incluindo a especial, no formato do jornal (tabloide). A previsão é que o livro seja lançado em julho próximo, no Festivale, que será realizado em Jequitinhonha, na última semana de julho.
O projeto aconteceu graças à parceria com a ADP – Associação de Desenvolvimento de Projetos e Grupo Neoplan, com patrocínio do Banco BMG.
A Tal Mineira: O foco é a realidade atual do Vale do Jequitinhonha. O que mudou nos últimos 26 anos?
Tadeu Martins: O Vale mudou muito. Passou de 52 para 80 municípios, melhorou um pouco nas questões de saúde, educação e infraestrutura urbana, mas continua vítima de uma péssima política: a região só elege deputados paraquedistas, de outras regiões de MG, que sempre compram votos, que são vendidos por cabos eleitorais (prefeitos e ex, vereadores e lideranças com interesses pessoais).
O governo Federal teve uma atuação mais significativa na região durante os oito anos do governo Lula, mas ainda deixa muito a desejar.
O goveno estadual, além de pequenas obras de pró-acesso, ligação asfáltica das cidades até a estrada principal, muito pouco fez pela região e perpetuou práticas explícitas de compras de votos, como por exemplo, nomeando ex-prefeitos da região para trabalho na Cemig, com o intuito único de conseguir votos na região.
Para se ter uma ideia do descaso:
1 – o Vale do Jequitinhonha hoje nem mapa tem. O governo de Minas tem três mapas diferentes para a região, mas todos errados, variando de 53 a 72 municípios. Na verdade são 80. Eram 52 quando o Geraes circulava. Em 1992, emanciparam quatro e, em 1995, emanciparam mais 24, totalizando 80 municípios. Fizemos matéria no Geraes especial.
2 – A BR 367, principal estrada da região, criada por JK (NR: Juscelino Kubitscheck), ligando Diamantina a Porto Seguro, até hoje, continua sem asfalto. O trabalho de asfaltamento já dura 40 anos e ainda tem 100 Km sem fazer, na parte mineira. A parte baiana é toda bem asfaltada. A BR tem 733 Km. Também fizemos matéria no Geraes.
A Tal Mineira: Existe plano de o jornal voltar a ser editado, regularmente?
Tadeu Martins:Estamos pensando em manter circulando o Geraes eletrônico. Já fizemos um blog: www.blogdogeraes.blospot.com .
A Tal Mineira: Como vai ser feita a distribuição depois da festa de lançamento? Onde o jornal pode ser encontrado? Tadeu Martins: O jornal está sendo enviado para as cidades do Vale e foi distribuído na ALMG (Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais), Câmara de BH, Cemig, Secretaria Sedvan (do Vale, Mucuri e Norte). Todos os participantes do Geraes estão recebendo o jornal.
O livro terá uma foto de cada um dos que participaram do Geraes. Peça ao Júlio para enviar uma foto dele (da época, ou atual, ele decide). Ele, Manoel e Lefú ajudaram a criar o jornal. Para facilitar a vida de futuros pesquisadores, o livro terá foto, cidade de origem e e-mail de todos os que participaram da história.