Manhãs de junho em Boa Viagem

por Sulamita Esteliam
A baixa-mar forma piscinas naturais entre os arrecifes e a areia de Boa Viagem

No Dia Mundial do Meio Ambiente, o céu resolver fechar a cara por aqui, mas sem chorar. Nada como ontem, quando a chuva acordou disposta a refrescar o dia, mas, cedeu às investidas do sol já no fim da manhã. Na sexta, fez dia aberto e a maré secante espelhava a areia em seus preguiçosos movimentos de recuo, fazendo rastros de espumas.

É uma delícia, e um privilégio, caminhar assim, sobre a areia molhada, recebendo o beijo morno da baixa-mar. Ouvir o ronronar do bom humor de Poseidon me faz sentir mais perto dos anjos; e o meu, Damabiah, reina sobre as águas de Iemanjá.

Percorri dois quilômetros, em bom ritmo, até o começo do Pina – que é quando Boa Viagem se dirige à múltipla área central do Recife, ou faz ponte para Olinda. Retomei, a contragosto, a direção de casa – que fica no rumo de, mais ou menos, metade da orla. A vontade era seguir em frente, em direção à profusão de luz que explodia no Farol de Olinda, nosso Patrimônio Cultural da Humanidade.

Mas a vida chama para o aqui e agora. É preciso ganhar o pão.

O mar já na Praia do Pina - Foto: Sulamita Esteliam

Boa Viagem, digo sem pejo, merece o título de praia urbana mais limpa do Brasil, cada vez mais. Não encontrei um lixo, sequer, no percurso de ida e volta. Contigências de um dia de semana? Sinal de que o povo, finalmente, se conscientizou de que é preciso cuidar do mais democrático espaço de lazer comum? Tomara.

Houve época em que dedicava um dia da semana para o que chamava de “voluntariado”: catar lixo na praia, normalmente às quarta-feiras. Havia dias em que recolhia o equivalente a 30 kg de plástico, principalmente, no trajeto; só na arrebentação. Claro que o fazia aos poucos, subindo para levar a carga aos lixeiros distribuídos na areia, antes do calçadão, e descendo para pegar mais. E ainda tinha que aguentar as caras de “lá vai a doida…!”

Não estava só. Há mais malucos por aí, poucos, mas há.

Resumo da ópera: o exercício manteve-me firmes as pernas, mas valeu-me uma respeitável micose na mão direita. Fui intimada pela dermatologista a abandonar o emergente ofício: “Você é do tipo chama fungo”, advertiu.

Vejo agora, com alegria, que meus serviços são dispensáveis. Faz tempo observo que o novo esquema de “varrição” da praia, agora, inclui a arrebentação, e se estende ao longo de todo o dia, em particular nos fins de semana e feriados. A João o que é de João.

Só não dá para arrefecer na campanha educativa, que não pode restringir-se, apenas ao verão. Certamente a prefeitura cuida de que isso não ocorra.

Até porque, num ano em que suspendeu, creio que 2008 – segundo consta, “por falta de verba” -, um certa emissora platinada não deu trégua: todo domingo havia repórter em Boa Viagem: gravando o lixo no calçadão e na areia, a muvuca de ambulantes, o furdunço nas paradas de ônibus, a babel nos coletivos que trazem a “reca” da periferia para a praia. Há quem se incomode.

Só não contaram, e nem poderiam, que a TV tinha interesse no cartório: a campanha “Praia Limpa” vai ao ar como realização da tal emissora e apoio da Prefeitura do Recife. Entretanto, sabe-se – por informação da assessoria municipal, que procurei à época para confirmar o que identificara como chantagem – é o município quem banca 90% dos recursos. Assim é muito fácil prestar serviços comunitários e pregar cidadania.

Agora, é claro que há alternativa. É questão de optar, e pagar o preço; este também sempre há – para o bem ou para o mal.

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O Dia Mundial do Meio Ambiente foi estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1972. Marcou a abertura da Conferência de Estocolmo sobre Ambiente Humano.  O 5 de junho cataliza as atenções e ações políticas de povos e lugares com vistas à conscientização para a preservação ambiental – e das gentes, porque da nossa sobrevivência se trata. Gaia é mãe generosa, mas enérgica cobradora.

Concurso, passeio ciclístico, plantio de mudas, peças teatrais e oficinas fazem parte da programação da Semana do Meio Ambiente no Recife, que vai até o dia 10. A abertura é neste domingo, às 15:30, quando o prefeito João da Costa lança o Concurso Público Nacional de Ideias para o novo Parque da Tamarineira. Na área do histórico Hospital Ulisses Pernambucano, na Zona Norte da cidade. Leia mais e acesse a programação completa aqui.

Selecionei algumas dicas importantes para no nosso cotidiano:

Feijão com arroz para crianças e adultos

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Também no Alecrim: Educação do consumidor é a chave para a nova lei do lixo

Boa semana, caras e caros.

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