Pernas para que te quero…

pernas ou perna e perna

 Beto Vianna – Mais Hum
Numa oca às margens do Rio Negro - Foto: Carol Estelian/maio 2011

perna, perna

duas pernas

devo falar de cada uma por uma

ou do par perfeito em conjunto?

tanto faz

ou tanto fazem

e fazem tanto…

a esquerda (de quem entra)

nada deve à outra esquerda

canhotinha de quem sai

a forma, o gosto, a espessura

a cor e a textura

até a função (na andadura)

a esquerda bem serve à dona

com perfeição

como serve, aliás

ao que não se metendo em dono

toma o membro emprestado

presse andar cavalgado

que a seu corpo todo apraz

a direita (de quem entra)

é no mínimo tão perfeita

quanto a outra de quem sai

cada dobra, junta e tendão

cada articulação

monta tal maquinação

que a direita doa à dona

um maquinário preciso

necessário também

a quem nem dono é
e afinal essa direita
parece mulher de césar

pra deixar seu dono a pé?

que saco uma perna uma por uma

pernas que sem serem pernas de um amor vivo

são vivas por si

duas pernas de bichos

pernas vivas que andam em caminho reto

pernas vivas que andam pela ruazinha

pernas vivas que andam o corpo todo meu

pernas vivas que andam

até onde o carro, que não é vivo nem nada, morreu

as pernas todas, as duas em conjunto,

o par, a dupla

dessas (dessa) eu falo como quem fala

em meio a uma controvérsia

porque uma perna só não é e nem pode ser

objeto último de análise,

mas duas perfazem enfáticas

um par

e um par não se separa

como a componentes cartesianos

em um discurso metódico entrado em anos

as duas pernas juntas – o par de que agora lhe falo

lembra, se é singular, se bem me lembro

“a escola de sereias”, de george sidney,

ou “blade runner”, de ridley scott,

duas (ou uma) máquina de amar, ou de matar, ou de matar de amor

conjuntas pernas como insurgências

revolucionárias

anárquicas pernas

como dois e juntos apêndices autônomos de

um ser vivo tão in toto,

que metendo seus pés, minha amada,

pelas minhas mãos,

aprontam tal revolução

que não

me permitem qualquer espécie de oposição

oh! canetas juntas,

metades duplas,

de todo um meio de locomoção

do meu torbellino furacão,

que levando meu amor pra cá e pra lá,

levam-me à mais louca loucura

que eu louco já pude

por deus imaginar

se não convencia (ainda)

dos meandros da política, da cultura e da história

ou até da minha pouca e desgenerosa memória

do que fizeram em mim

essas pernas (ou esse par delas)

você me permitia?

se eu mudasse de assunto, tema e matéria

para a área da gastronomia?

aí já não sou eu quem diz

há outra autoridade no assunto

que esse par de apêndices juntos,

fala mais que ao linguajar bobo da minha boca

e torna à professora bem mais louca e mais fundo:

o paladar

ainda que esse também exerça, a sua profissão

usando o mesmo artifício da conversação:

a boca por medida

e a língua por medição.

eu não minto nesse assunto, que seria hipocrisia,

já provei de outras pernas,

uma dura outra macia,

mas de todo empiricismo,

de toda teoria formada, em tantos

anos de estrada,

eu falo e posso provar:

ponha à prova estas pernas

que são meu assunto agora

e verás que o gosto delas

ainda que tu não as prove,

passa na prova dos nove:

uma perninha pra esquerda,

outra esticada à direita até o fim.

mais que eu gostar dessas pernas

são elas que gostam de mim.

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