pernas ou perna e perna

perna, perna
duas pernas
devo falar de cada uma por uma
ou do par perfeito em conjunto?
tanto faz
ou tanto fazem
e fazem tanto…
a esquerda (de quem entra)
nada deve à outra esquerda
canhotinha de quem sai
a forma, o gosto, a espessura
a cor e a textura
até a função (na andadura)
a esquerda bem serve à dona
com perfeição
como serve, aliás
ao que não se metendo em dono
toma o membro emprestado
presse andar cavalgado
que a seu corpo todo apraz
a direita (de quem entra)
é no mínimo tão perfeita
quanto a outra de quem sai
cada dobra, junta e tendão
cada articulação
monta tal maquinação
que a direita doa à dona
um maquinário preciso
necessário também
a quem nem dono é
e afinal essa direita
parece mulher de césar
pra deixar seu dono a pé?
que saco uma perna uma por uma
pernas que sem serem pernas de um amor vivo
são vivas por si
duas pernas de bichos
pernas vivas que andam em caminho reto
pernas vivas que andam pela ruazinha
pernas vivas que andam o corpo todo meu
pernas vivas que andam
até onde o carro, que não é vivo nem nada, morreu
as pernas todas, as duas em conjunto,
o par, a dupla
dessas (dessa) eu falo como quem fala
em meio a uma controvérsia
porque uma perna só não é e nem pode ser
objeto último de análise,
mas duas perfazem enfáticas
um par
e um par não se separa
como a componentes cartesianos
em um discurso metódico entrado em anos
as duas pernas juntas – o par de que agora lhe falo
lembra, se é singular, se bem me lembro
“a escola de sereias”, de george sidney,
ou “blade runner”, de ridley scott,
duas (ou uma) máquina de amar, ou de matar, ou de matar de amor
conjuntas pernas como insurgências
revolucionárias
anárquicas pernas
como dois e juntos apêndices autônomos de
um ser vivo tão in toto,
que metendo seus pés, minha amada,
pelas minhas mãos,
aprontam tal revolução
que não
me permitem qualquer espécie de oposição
oh! canetas juntas,
metades duplas,
de todo um meio de locomoção
do meu torbellino furacão,
que levando meu amor pra cá e pra lá,
levam-me à mais louca loucura
que eu louco já pude
por deus imaginar
se não convencia (ainda)
dos meandros da política, da cultura e da história
ou até da minha pouca e desgenerosa memória
do que fizeram em mim
essas pernas (ou esse par delas)
você me permitia?
se eu mudasse de assunto, tema e matéria
para a área da gastronomia?
aí já não sou eu quem diz
há outra autoridade no assunto
que esse par de apêndices juntos,
fala mais que ao linguajar bobo da minha boca
e torna à professora bem mais louca e mais fundo:
o paladar
ainda que esse também exerça, a sua profissão
usando o mesmo artifício da conversação:
a boca por medida
e a língua por medição.
eu não minto nesse assunto, que seria hipocrisia,
já provei de outras pernas,
uma dura outra macia,
mas de todo empiricismo,
de toda teoria formada, em tantos
anos de estrada,
eu falo e posso provar:
ponha à prova estas pernas
que são meu assunto agora
e verás que o gosto delas
ainda que tu não as prove,
passa na prova dos nove:
uma perninha pra esquerda,
outra esticada à direita até o fim.
mais que eu gostar dessas pernas
são elas que gostam de mim.