Por amor aos meus neurônios

por Sulamita Esteliam

Conversávamos eu e meu companheiro, à hora do almoço, sobre o bombardeio da mídia ao governo Dilma e a “faxina” que ela tem-se obrigado a fazer na administração federal  – elogiada no editorial de certa publicação que se quer revista – ele me conta; tudo parte do jogo. Prosa ruim para a digestão, a propósito da matéria de capa da última Veja, que eu prefiro Oia!, que traz denúncias sobre o ministro da Agricultura, supostamente corrupto, bola-da-vez.

Então, vim para o computador e,  navegando pelos blogues e agências de notícias, me deparo com o artigo do colega jornalista e blogueiro, Leandro Fortes, no Brasília, eu vi, que transcrevo mais abaixo. A tal da consciência coletiva em ação…

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Júlio argumentava que esta reles blogueira precisaria, vez por outra, passar os olhos pela tal revista. Recuso-me, terminantemente. Tenho amor aos meus neurônios.

Até porque, devolvi, é desnecessário: é mais do mesmo, desde o primeiro governo Lula. É filme de um roteiro só, articulado com objetivo único: a semanal levanta a denúncia, verdadeira ou falsa, pouco importa. As TVs ecoam ainda no domingo, os jornalões correm para repercutir. Haja estômago!

Basta ligar a TV, qualquer canal, e está tudo lá, a partir do tal Fantástico, que também não assisto, faz tempo. Passo os olhos pelas capas dos jornais nas bancas, daqui e os ditos nacionais,  que reverberam o assunto da semana e com os de sempre. Eca!

Graças! Salvo uma ou outra circunstância profissional, hoje posso dar-me ao luxo de passar ao largo do PIG – expressão cunhada pelo deputado Fernando Ferro (PT-PE), apropriada pela blogosfera e que, para quem não sabe, quer dizer Partido da Imprensa Golpista. As exceções são exceções, e só confirmam a regra. Infelizmente para todos nós! E em particular para mim, que sou jornalista por vocação e formação.

A blogosfera é onde busco o panorama dos acontecimentos, desde há muito. No mais, leio CartaCapital toda semana – de cabo a rabo -, e uma ou outro impresso alternativo. É o quanto basta para manter-me informada e cultivar minha saúde, física e mental.

PS: Antes que alguém ponha em dúvida meus princípios quanto à corrupção – que inclui corruptos e corruptores – sugiro leitura de outro artigo, desta vez de Altamiro Borges, em seu blogue, que assino embaixo: A quem serve a “faxina” do governo Dilma?

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Vamos ao que escreve Leandro Fortes:

Dilma e a guerra que se anuncia

por Leandro Fortes – Brasília eu vi
No instantâneo, o tiro de largada

O movimento era previsível e as razões óbvias, mas não deixa de ser perturbadora a investida dos grandes grupos midiáticos ao governo da presidenta Dilma Rousseff, depois de um curto período de risível persistência de elogios e salamaleques cujo único objetivo era o de indispô-la – e a seu eleitorado – com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Digo que era um movimento previsível não apenas por conta do caráter ideologicamente hostil dos blocos de mídia com relação a Dilma, Lula, PT ou qualquer coisa que abrigue, ainda que de forma distante, relações positivas com movimentos sociais, populares e de esquerda. A previsibilidade da onda de fúria contra o governo também se explica pela transição capenga feita depois das eleições, um legado de ministros e partidos de quinta categoria baseado numa composição política tão ampla quanto rasa, e que, agora, se desmancha no ar.

Assim, pode-se reclamar da precariedade intelectual da atual imprensa brasileira, da sua composição cada vez mais inflada de jornalistas conservadores, repórteres raivosos e despolitizados, quando não robotizados por manuais de redação que os ensina desde a usar corretamente o hífen, mas também como se comportar num coquetel do Itamaraty. Mas sobre a indigência do comportamento da base aliada, é tudo verdade, como também é verdade que, ao herdar de Lula essa miríade de ministros-jabutis colocados na Esplanada dos Ministérios, Dilma aceitou iniciar o governo com diversos flancos abertos, a maioria resultado da aliança com o PMDB, e se viu obrigada a fazer essa tal “faxina” pela mídia, embora se negue a admiti-lo, inclusive em recente entrevista à CartaCapital.

Dilma caminha, assim, sobre a mesma estrada tortuosa do primeiro ano do primeiro mandato de Lula, quando o ex-operário chegou a crer, cegado pela venda de inacreditável ingenuidade, que as grandes corporações de mídia nacionais, as mesmas que fizeram Fernando Collor derrotá-lo, em 1989, poderiam ser cooptadas somente na base do amor e do carinho. Dessa singela percepção infantil adveio a crise do “mensalão”, a adoção sem máscaras do jornalismo de esgoto nas redações brasileiras, a volta do golpismo como pauta de reportagem e a degeneração quase que absoluta das relações entre o poder público e a imprensa.

Em 2010, agregados ao projeto de poder do PSDB e de seu cruzado José Serra, os grupos de mídia formaram um único e poderoso bloco de oposição e montaram um monolítico aríete com o qual tentaram derrubar, diuturnamente, a candidatura de Dilma Rousseff. Não fosse a capacidade de comunicação de Lula com as massas e a conseqüente transferência de votos para Dilma, essa ação, inconseqüente e, não raras vezes, imoral, teria sido vitoriosa. Perdeu-se, contudo, na inconsistência política de seus líderes, na impossibilidade de comparação entre os dois projetos de País em jogo e, principalmente, na transfiguração final – triste e patética – de Serra num fundamentalista religioso, homofóbico e direitista, cuja carreira política se encerrou na melancólica e risível farsa da bolinha de papel na careca.

Ainda assim, Dilma Rousseff foi comemorar os 90 anos da Folha de S.Paulo, sob alegada conduta de chefe de Estado, como se não tivesse sido o jornalão da Barão de Limeira o primeiro condutor do circo de mídia montado, em 2010, para evitar que ela chegasse à Presidência. Foi a Folha que publicou, na primeira página, uma ficha falsa da então candidata, com o intuito de vendê-la como fria guerrilheira de outrora, disposta a matar e seqüestrar inocentes, sequer para lutar contra a ditadura, mas para implantar no Brasil uma ditadura comunista, atéia e, provavelmente, abortista. O fim da civilização cristã no Brasil. Dilma sobreviveu à tortura e à prisão, mas não conseguiu escapar dessa armadilha, e foi lá, comemorar os 90 anos da Folha. Agora, instada a fazer a tal “faxina”, talvez esteja recebendo um salutar choque de realidade.

O fato é que o embate entre as partes, haja ou não uma Lei dos Meios, nos moldes da legislação argentina, não é só inevitável, mas também inadiável. A presidenta reluta, naturalmente, em iniciar um conflito entre a lei e os meios de comunicação, não é por menos. Ela sabe o quanto foi dura e a ainda é a vida dos colegas vizinhos da Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador e Paraguai com os oligopólios locais. Faz poucos dias, um jornalista brasileiro, encastelado numa dessas colunas de horror da imprensa nativa, chamou a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, de “perua autoritária”, em resposta a leitores que lhe enviaram comentários indignados com um texto no qual ele a acusava, Cristina, de usar o próprio luto (o marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, morreu em outubro do ano passado) para fins eleitorais. Implícito está, ainda, a questão do machismo (a “faxina” da nossa presidenta), ou melhor, a desenvoltura do chauvinismo, ainda isento de freios sociais eficazes.

Tenho cá minhas dúvidas se o mesmo jornalista, profissional admirado e reconhecido por muitos, teria coragem de se referir ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como “pavão engabelado”, apenas para ficar na mesma alegoria do mundo animal atribuída a Cristina Kirchner, por ter posado de pai amantíssimo ao assumir, 18 anos depois, a paternidade de um filho da jornalista Miriam Dutra, da TV Globo – e, aos 80 anos, descobrir que caiu no golpe da barriga. Passou dois mandatos refém da família Marinho por conta de um menino que não era dele. Algum comentário sarcástico nas colunas e blogs da “grande imprensa” a respeito? Necas de pitibiriba. Com a presidenta argentina, mulher que enfiou o dedo na cara de um grupo midiático “independente” que sustentou uma ditadura nazista, responsável pelo assassinato de 20 mil pessoas, o colunista, contudo, se solta e se credencia a nos fazer rir.

Duvido que Cristina Kirchner fosse ao aniversário do Clarín.

2 comentários

  1. Pingback: Versie Crover

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