A lingerie de Gisele na visão de um homem, de bom senso

por Sulamita Esteliam
Tela "Ser Mulher" - não encontrei os créditos

Retomo o caso Gisele. Apenas para compartilhar o melhor do que li, até agora, sobre o anti-anúncio de lingerie. Melhor: quem escreve é um homem, de bom senso. Sim, existe vida inteligente no Planeta Brasil.

O nome desta avis-rara é Murilo Moscheta, do blogue de mesmo nome, hospedado na Folha de Maringá, no Paraná. Não, não é jornalista. É psicoterapeuta. Vive de desvendar a alma humana. Talvez por isso fuja ao pensamento único que teimam em nos imputar. Vai direto ao ponto.

Transcrevo, a partir de mensagem enviada por Sandra Munhoz, da Bahia, à Rede Mulher e Mídia:

A calcinha da Gisele e o sutiã das feministas

Publicado em 04/10/11

1. Mulheres dirigem mal,

2. São consumistas,

3. Compensam suas falhas oferecendo seu corpo ao consumo dos homens,

4. E são tolas o suficiente para continuar comprando lingerie Hope – uma marca que acredita que pode ampliar suas vendas abusando dos três estereótipos acima.

A recente campanha publicitária da marca, intitulada “Hope ensina” apresenta Gisele Bündchen anunciando a um suposto marido que bateu o carro ou estourou o limite do cartão de crédito. Na primeira cena, ela dá a noticia vestida, com cara trágica e acompanhada de um carimbo “errado”. A segunda cena é semelhante, porém Gisele está apenas de calcinha e sutiã e acompanhada do carimbo “certo”. A lição da cartilha publicitária é bem simples: embalagem é tudo!

Em um protesto que marcou a história do movimento feminista no final da década de 60, um grupo de mulheres norte-americanas invadiu um concurso de “Miss América” em Atlantic City. Em uma lata de lixo elas jogaram sutiãs e outras peças do vestuário feminino e convocaram mulheres a enfrentar o imperialismo dos valores patriarcais. O que estava em questão era delimitar uma oposição clara a um modo de olhar para as mulheres que as reduzia ao seu sexo e que delimitava seu lugar social à sombra e a serviço do homem. Desde então, lutamos para criar um cenário de relações entre gênero no qual o certo e o errado são bastante distintos da obtusa lição que Hope quer ensinar.

O retrocesso desta campanha publicitária está em fazer o movimento oposto àquele que as feministas iniciaram. O concurso de Miss é retomado na figura da ilustre modelo internacional. A lingerie, ícone que desde o espartilho representou a opressão do olhar masculino sobre o corpo feminino é resignificado. Agora ela deve ser considerada um atributo a ser apropriado pelas mulheres enquanto recurso persuasivo, estratégia de controle, artimanha de dominação sobre os homens.

Há inclusive aqueles que advogam pela apropriação das mulheres daquilo que chamam de “capital erótico”. Para a escritora inglesa Catherine Hakin, autora do livro “Honey Money – the power of erotic capital” o capital erótico é uma mistura de beleza, atratividade e sociabilidade que, se bem utilizado pelas mulheres, pode favorecer sua ascensão e competitividade no mercado de trabalho. E aqui vale a pena fazer uma distinção importante: se o protesto feminista almejava uma libertação para todas as mulheres, o capital erótico é bem seletivo em suas promessas de libertação. Ficam excluídas as feias, obesas, e todas aquelas que se distanciarem muito do modelo Gisele.

Discordar da teoria do capital erótico não significa negar a importância da beleza e da atratividade sexual. Significa se opor ao modelo que coloca nestes atributos a possibilidade de superação de uma desigualdade, justamente porque cria uma nova ordem de injustiça ao privilegiar aqueles que eufemisticamente qualificamos como “com boa aparência”. Eu prefiro um mundo no qual a mulher, bonita ou feia, é suficientemente capaz de dirigir seu próprio carro e de pagar pelas contas que faz. Prefiro um mundo no qual os homens não são bestas dominadas por seus hormônios, por seus fetiches automobilísticos ou sua obsessão financeira – pois são estes os estereótipos masculinos complementares implícitos na campanha.

Contudo se você mulher acredita no mundo que a Hope ensina e quer ir correndo comprar uma nova lingerie, sugiro que vá de ônibus e pague a vista. E se você homem quiser presentear sua companheira com um produto desta marca, sugiro que além da calcinha, compre também o manequim. Se o que você mais preza é a embalagem, você praticamente não sentirá a diferença

****************************************

Vale ler, também, a entrevista que a ministra Iriny Lopes, a execrada de plantão, concedeu ao sítio de Carta Capital, em que fala, com firmeza e perplexidade, sobre o episódio de triste repercussão: “Fui ridicularizada” .


3 comentários sobre “A lingerie de Gisele na visão de um homem, de bom senso

Deixe uma resposta para Sérgio Oliveira Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s