A chaleira ferveu e supitou a tampa

por Sulamita Esteliam
Imagem capturada em marcelonathanson.blogspot

Hoje é sexta-feira 13, e acordei com a macaca. Fruto de noite mal dormida, mesmo para o pouco que durmo, desde sempre. Por sorte, tive muito trabalho até o início da tarde, e mergulhei fundo, procurando deixar nimbo passar. Tal auréola não combina com a minha cabeça, acostumada a chapéus, que escolho sempre que vou para a rua, e que quase nunca contrariam o meu humor.

Para acabar de completar, perdi a fome ao ler o noticiário, sempre pela rede. Fingi desimportância.

Lá pelas 13:30, hora do Recife, resolvi buscar apetite no supermercado mais próximo. Comprei mamão para garantir o desjejum da manhã seguinte, alface e salsa para a minha salada do fim de semana. Assegurei meu adoçante de stévia, extraído da erva naturalmente doce, que não me envenena com espartame – já chega o cigarro, que, após três anos, voltou a fazer parte, ainda que eventual, dos meus hábitos. E velas para meus Anjos fieis, que me ajudam a trazer luz.

Sim, não esqueci a geladinha, porque hoje é sexta, e ninguém é de ferro.

Depois de uma latinha, consegui almoçar. Um RO* do rèveillon que me aguardava no congelador: peixe ao comodoro – cortado em cubos, refogado com cebola cortadinha, mergulhado no molho branco pouco espesso, com cogumelos em conserva,  e acolchoado com purê de batatas temperado com queijo parmesão, e levado a gratinar levemente.

Receita aprendida pelo paladar, de tanto pedir o prato na Cantina do Lucas, no velho Maleta, em Beagá. Tempos em que a rua era meu segundo lar, forçado pelo trabalho de repórter.  Comi, fartamente (* Resto de ontem, em bom pernambuquês). Com salada picante: acelga, tomate e cenoura crus, pedacinhos de maçã, temperados com azeite, pimenta calabreza e limão.

Confesso que prefiro com manga essa mistureba em forma de salada. Entretanto, desconfio que regredi à infância, quando sempre que traçava a fruta (no plural), ganhava de presente meia dúzia de furúnculos corpo afora. Creio que ingeri a Rosa em excesso por esses dias, e ganhei adereço de pipocas coçantes e ardentes pelos braços e membros.

Ou será meu corpo recusando passar ao largo de tudo que me incomoda? Se assim for, a coisa anda de mal a pior – mas há de passar sem deixar rastros. Já as notícias que me chegam pela rede e pelo correio eletrônico…

*****************************************

Bruno e Macarrão, em setembro de 2010, investigações em curso – Foto: EM

Por exemplo, para mudar de assunto, sem sair da barbárie que habita a mídia: o caso Bruno/Eliza Samúdio, que retorna às manchetes – também aqui. O crime aconteceu em junho de 2010 e até hoje não foi julgado – aqui a cronologia.

Quer dizer que, agora, o Macarrão vai se declarar, ou se assumir, gay para livrar a cara do amigo-patrão? O advogado de defesa diz, na maior chalaça, que o comparsa teria levado Eliza para o ex-policial Bola trucidá-la para “agradar” o ex-goleiro, por quem “tem amor” – tatuado nas costas, aliás. Fez o que fez “por ciúme” ou despeito. Você acredita?

Tá, e o Bruno é um coitadinho!

Isso é nojento. Estratégia jurídica rasteira.

Certo, ninguém é culpado até prova em contrário. Mas afora o histórico do relacionamento, provas e testemunhos que incriminam o ex-goleiro como mandante, suas próprias contradições, o desaparecimento do corpo – que teria sido entregue aos cães -, as manobras para confundir são evidências que só depõem contra Bruno. O novo e famoso advogado, pelo menos, já admite que Eliza está morta – antes até isso tentavam negar.

Eliza Samúdio teve o filho de Bruno – foto capturada no jornalistaveramattos.blogspotcom

Primeiro, criminalizaram a vítima, uma “Maria Chuteira”, que levou o pobre do Bruno – um parvo que ganhava milhões de reais – para a cama e fez um filho dele para “estorqui-lo”.  Antes de morrer, ela denunciou espancamento a uma delegacia do Rio, onde moravam, mas a polícia não deu ouvidos, muito menos enquadrou na Lei Maria da Penha. Pouco tempo depois, Eliza “desapareceu”.

Quantas Elizas mais vão morrer por omissão das autoridades, e levar o nome de “Maria Chuteira” na tentativa esdrúxula de escamotear crime sobre crime, no caso com requintes de barbárie? Cadê o corpo, ou os pedaços do que restou dele, da Eliza Samúdio?

Não faltou tentativa de fazer o rapaz de vítima do sistema judicial corrupto. Um probrezinho que chora diante das câmeras, como um bebê desmamado antes da hora.

Pelo amor de Deus, ninguém chamou um psiquiatra para diagnosticar o Bruno? O histórico familiar dele, a se crer no que foi divulgado a partir de depoimentos de um irmão, à época do crime, pode muito bem se adequar a um psicopata. Todo psicopata é bom ator. O que não se lhe pode tirar a responsabilidade pelos seus atos, pois deles têm plena consciência – a despeito de nosso sistema jurídico controverso tender a considerá-los semi-imputáveis.

A propósito, me vem à lembrança resposta de uma mãe que lutou, desesperadamente, para ver o assassino de sua filha na cadeia, diante da reação desta escriba ao seu relato da tragédia, que me pediu para transformar em livro: “Esse homem é um louco!” Ao que a mãe retrucou: “Não minha filha, louco não sabe o que faz e não responde pelos seus atos. Ele vai pagar pelo que fez, pode escrever”. Escrevi, está pronto e há cinco anos busco uma editora para publicá-lo. Alguém se habilita?

De volta à chaleira, quem vai pagar pela orfandade do filho de Eliza e do Bruno – não importa concebido em que circunstâncias? O Bola? O Macarrão? Se este, de fato, é gay e apaixonado pelo amigo-patrão, não pode muito bem ter feito tudo a mando dele, e agora assumir a culpa, sabe-se lá a que preço? Ou não?

Encontrar um boi de piranha – mesmo cúmplice -, gay ou não, para livrar a cara do “coitadinho” que já foi “herói” das massas, usando os tabus e sentimentos da sociedade – e o dinheiro régio para pagar um criminalista. Francamente, é mais velho do que se acocorar para, numa expressão bem mineira, “cagar abaixado”.

Perdoem, mas há situações e momentos em que só a linguagem chula pode traduzir a repugnância dos fatos.

Estava evitando tratar disso no blogue, mas a chaleira ferveu e supitou a tampa.

Pronto, falei.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s