A energia de uma estrela não se apaga

por Sulamita Esteliam
Orquídea – Foto: Renata Pereira/Facebook

Estamos muito tristes aqui em casa, hoje. Acabamos de perder uma irmã, que foi brilhar em outra constelação, aos 57. Na batalha da vida contra o câncer, no aparelho digestivo, este levou a melhor. Nosso consolo é que ela segue em paz, pois jamais sucumbiu ao infortúnio. A serenidade com que enfrentou a doença é a força que há de nos guiar a todos que a amam; em particular sua filha, seus dois filhos, seu marido, seus irmãos, sobrinhos … Enfim, sua família que a guarda para sempre na mente e no coração.

Nice, era assim que a chamávamos, era uma mulher corajosa, solidária, alegre e disposta. E foi com esse espírito que enfrentou a doença, descoberta há pouco mais de três meses, a cirurgia lhe lhe subtraiu estômago e duodeno, e o pesado tratamento químico: com dignidade, humildade, sensatez, mas com esperança e, até, certa ironia diante da fragilidade humana – um traço de personalidade que sempre carregou.

Minha comadre e cunhada, tia-madrinha da minha caçula, há de estar em bom lugar. Como todo ser energético, típica sagitariana que era, amava a vida e andava de bem com ela. Vai fazer muita falta por aqui. Todavia, fará diferença onde quer que esteja.

Há cerca de três semanas, eu e meu companheiro, seu irmão de sangue, estivemos com Nice em Beagá. Ela própria nos recebeu à porta, com sorriso luminoso e um caloroso abraço de boas-vindas. Estava bem mais magra, mas não perdera os cabelos, não havia olheiras, nada que pudesse lembrar alguém que sofrera um câncer, e estava se submetendo a terapias invasivas.

Conversamos, longamente, à mesa da imensa cozinha externa de sua casa, aberta para um pequeno e bem-cuidado jardim. Rimos e caçoamos; falamos de política, das idiossincrasias familiares, marido e prole em volta. Com tranquilidade e lucidez, nos detalhou todo o processo de químio e radioterapia, de adaptação às restrições alimentares, em quantidade e qualidade. Disse que estava bem, e nos pareceu bem, o que nos animou bastante.

Demonstrou indignação, entretanto, com o descaso do sistema público de saúde, do qual ela não dependia: “Sula, você não tem ideia do que passam os pacientes do SUS que precisam tratar o câncer, principalmente o pessoal que vem do interior. É desumano!”

E contou, com a voz pausada de sempre e palavras bem pronunciadas, que os pacientes são trazidos pelos ônibus das prefeituras, e despejados no hospital – no caso, o Felício Roxo, referência em Minas Gerais. E por lá ficam, horas e horas à espera, em jejum, muitas vezes sentados no chão dos corredores. E em jejum voltam para casa.

Muitas vezes, o retorno para seus municípios se dá sem atendimento, pois ninguém avisa quando quebra a máquina, e se o fizessem em tempo hábil, talvez  a maioria não tenha dinheiro para fazer um lanche: e o ônibus, de qualquer forma, tem hora marcada para “recolhê-los”.

Era assim a nossa Nice. Tinha o olhar voltado para seu o redor.

Nice começou a sentir fortes dores no abdômen semana passada. Levada a seu médico, ele desconfiou que poderia ser reflexos da radioterapia em algum órgão interno. Pediu exames e a medicou. As dores recrudesceram e, neste fim de semana, foi levada às pressas para o hospital: o intestino grosso estava rompido. Passou por nova cirurgia, ontem pela manhã, mas a infecção já  se espalhara.

Às sete da manhã desta terça-feira, 09 de outubro de 2012, encantou-se. O Universo está mais rico, agora.

2 comentários

  1. Estou solidário com vc e sua família, neste momento de despedida involuntária de uma irmã querida e boa gente. Através de suas palavras, sulamita, sinto que Nice é mais uma daquelas pessoas que precisavam ficar mais tempo neste mundo para ser exemplo de amor a vida e aos que sofrem as injustiças nesta sociedade desigual. O “universo está mais rico”, porém nossa sociedade tá mais pobre. Um abraço fraterno
    Ivanildo

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