Sobre juventude, cultura e pertencimento

por Sulamita Esteliam

Estou em crise de mobilidade, e impossibilitada de navegar, cozinhar, lavar, passar ou fazer qualquer coisa que implique usar o braço direito: ombro, cotovelo e pulso requerem tipoia, anti-inflamatório e, por óbvio, repouso.

Naturalmente, isso inclui escrever à mão, que dirá teclar. A esquerda não funciona sem a direita na digitação, e à mão, o ritmo é tão lento que bloqueia o raciocínio. Significa que também não consigo organizar os pensamentos para ditar texto algum.  Ainda, urge treinar.

Daí que transgrido recomendações médicas para explicar-me com você que me honra com o acesso diário. Felizmente, a semana está para o fim, e o resguardo será curto.

Busco socorro em minha caçula, de 20 anos, que tem me saído melhor do que encomenda quando o assunto é refletir em letras. Transcrevo o que ela escreveu. Produziu como trabalho de faculdade, a partir de texto proposto na disciplina Sociologia da Comunicação, acho.

Sei que cabe como luva nesses tempos, e não apenas nestes trópicos.

Não titulou. Reproduzo, com o auxílio luxuoso do meu companheiro – pai dela -, que digitou, pois que o texto foi escrito na escola, à mão:

borleta em flor

por Bárbara Esteliam

Quem sou eu? Qual a minha identidade?

Os marxistas diriam que sou fruto da relação de conflitos pela minha classe, os capitalistas responderiam a partir do que consumo, já os sociólogos partiriam dos meus grupos de convívio desde a minha infância até o presente momento.

E de verdade? Quem sou eu? Sou conflito.

Jovem, no século XXI, sou retrato das transformações do conceito de identidade e cultura.

Sou conflito porque já não posso me dizer participante de uma cultura, porque não enxergo a fronteira de ser x se não ser y. Estou no meio de conexões e, ao longo do dia, adapto quem eu sou diante das situações.

Sou brasileira, pernambucana, mineira, espírita, budista, hétero, mulher, jovem, classe média, trabalhadora, estudante. Sou um pouco de cada coisa mas separadamente não sou nada.

Sou o retrato da interculturalidade, resultado das trocas e conflitos das culturas em que estou inserida.

Não sou multicultural. O multicultural reconheceria as outras culturas e criaria políticas de respeito, que segregariam ainda mais. Não há trocas no mundo multicultural, há barreiras, viseiras e muros.

Com as novas tecnologias, internet e velocidade das comunicações, as trocas acontecem sem que percebamos. O que acontece comigo, acontece de outras formas e intensidades com as pessoas desse mundo “globalizado” ou ocidentalizado, por melhor dizer.

O local e o global se misturam, e entram em conflito nessa nossa necessidade do pertencimento, na nossa necessidade de sentir que fazemos parte de algo.

Queremos estar em paz com o mundo, mas não queremos que o mundo destrua o nosso pertencimento local.

 

 

 

 

 


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