por Sulamita Esteliam

Olha só a preciosidade que encontro em meio à milhares – isso mesmo, quatro dígitos – de mensagens acumuladas em meu correio eletrônico.
Uma, não, duas crônicas inéditas de Lima Barreto, escritas em 1907 e 1908. A descoberta é do pesquisador João Marques Lopes, da Fundação Biblioteca Nacional, e tem que ser comemorada. O original foi encontrado em uma pasta do Arquivo Lima Barreto: Manuscritos Preservados.
Quem me envia é Roberto Azoubel, da Representação Regional Nordeste do Ministério da Cultura, que fica no Recife.
A crônica Portugueses na África foi escrita, tudo indica, para a coluna Echos, da revista A Floreal. Não se tem notícia de sua publicação. É uma crítica forte e mordaz à ocupação de territórios de Angola, ainda sob domínio das populações nativas, saudada euforicamente pela imprensa portuguesa e brasileira.
Atitudes apontadas pelo escritor como fruto do colonialismo e do racismo.
A colonização portuguesa de Angola iniciou-se ainda no século XV, pelo litoral, e chegaria ao interior no final do século XIX. A libertação viria em 1975, um anos após a Revolução dos Cravos.
O segundo texto limita-se ao que seria o primeiro parágrafo de uma crônica sob o título Os Jornais. Critica a repercussão, “desmesurada”, em Terra Brazilis, do assassinato do Rei D.Carlos, de Portugal, em 1908.
Donde se vê que a síndrome de vira-latice da mídia nativa vem de antanho
João Marques é doutor em Estudos Brasileiros – Literatura e Cultura pela Universidade de Lisboa, e estuda o modo como a obra de Lima Barreto é recebida em Portugal. É pesquisador-residente pelo Programa Nacional de Apoio à Pesquisa – PR da BN.
Saiba mais no sítio da Biblioteca Nacional, fonte das informações acima expostas.
Compartilho o presente de Azoubel – para começar bem a semana de trabalho:
Portugueses na África *
Os srs. já conhecem a coisa. De ano em ano, os jornais daqui e de além-mar noticiam estrondosas vitórias dos portugueses sobre os indígenas de suas possessões de África. No tempo dos “Lusíadas”, talvez por não existir o jornalismo periódico, não davam tanta importância a feitos idênticos. Pelo menos não tenho notícia que Lisboa festejasse retumbantemente Antônio Salema, que, aí pelos fins de Quinhentos, matou dez mil índios perto de Cabo Frio; e se ainda nos resta memória das proezas da gente assinalada em Diu e Goa é porque alguns cronistas precavidos e meia dúzia de poetas entusiastas registraram-nas em prosa de bronze, ainda áspero, e em grandiosos versos, um tanto monótonos.
Hoje, não havendo farta messe de ações heroicas, lá pelo velho Portugal, os jornais e o governo não deixam escapar uma só vitoriazinha. Os heroísmos são narrados um a um, em frases cheirando ainda à Ilíada; os retratos são publicados e os plutarcas afiam a pena para mais essa centena de varões ilustres.
O que há em suma? Esta coisa simples: um destacamento português, de cem ou duzentas praças, derrota uma partida de desgraça dos negros, duplamente desgraçados por serem negros e por viverem em possessões do Portugal necessitado de vitórias.
Pelo jeito, o governo lusitano precisa demonstrar a vitalidade da nação; precisa lembrar ao mundo que o sangue heroico dos varões assinalados ainda não está de todo acabado; e para tal organiza, de quando em quando, umas justas art-nouveau em que morrem algumas dezenas de negros (ora, os negros!) e os portugueses praticam heroísmos dignos de versos gregos e do triunfo romano.
Tenho para mim que esses negros flexíveis e adaptáveis a toda a sorte de misteres, desde o de bestas de carga até o nobilíssimo de adversários dos esforçados varões do Portugal moderno, têm que acabar um dia. Se isso se der, a velha metrópole vai se ver atrapalhada para arranjar quem se preste à demonstração experimental de sua heroicidade eterna; e, a menos que a gente a quem outrora Marte obedeceu queira combater os chimpanzés e os gorilas de África, Lisboa só terá festas com franco cunho guerreiro quando o governo das Necessidades sabiamente resolver condecorar com grandiosas solenidades os valentões da Baixa que se portarem heroicamente nas rijas com tripulações de barcos estrangeiros de passagem pelo Tejo. Então é que havemos de ver o indigesto Teófilo a explicar esse afloramento do Heitor português na população da sarjeta alfacinha e o velho Camões a bimbalhar nas colunas dos jornais:
Cale-se de Alexandre e de Trajano,
A fama das vitórias…
E poderá assim Portugal, e por muito tempo, achar nos seus registos de nascimento, nomes que se possam contar naqueles outros em quem, como o Albuquerque terrível e o Castro forte, a morte não teve poder.
É ainda de Camões que, a meu ver, deve sofrer modificações convenientes para se adaptarem ao novo heroísmo de Portugal, se os nossos irmãos do Tejo querem um adaptador excelente, temos aqui à mão alguns experimentados em guerra. O Barão de Paranaguá calha, por exemplo…
* Ortografia atualizada pelo pesquisador
Os jornais
O assassinato do Rei de Portugal vem demonstrar do modo mais eloquente de que maneira a nossa imprensa carioca é uma pura e simples exposição dos sentimentos e das opiniões do comércio português do Rio de Janeiro. O assassinato do rei D. Carlos, em si coisa lastimável para a sua família e os seus amigos, não podia ser no Brasil senão um caso secundário e provocador de condolências oficiais. Nada havia que o pudesse fazer um acontecimento capaz de enlutar e trazer coberta de tristeza uma grande cidade, de mais de oitocentos mil habitantes, situada a milhares de léguas do local do crime e em país estrangeiro.
Graças, porém, à manha inaudita de um…