Pesquisador da BN descobre texto inédito de Lima Barreto

por Sulamita Esteliam
O jornalista e escritor carioca, Lima Barreto nasceu Afonse Henriques de Lima Barreto, em 13 de maio de 1881. Morreu cedo, aos 41 anos, em 1º de novembro de 1922. Deixou obra fecunda. Dentre os romances, Triste Fim de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos.
O jornalista e escritor carioca, Lima Barreto nasceu Afonse Henriques de Lima Barreto, em 13 de maio de 1881. Morreu cedo, aos 41 anos, em 1º de novembro de 1922. Deixou obra fecunda. Dentre os romances, Triste Fim de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos – Fotos: BN

Olha só a preciosidade que encontro em meio à milhares – isso mesmo, quatro dígitos – de mensagens acumuladas em meu correio eletrônico.

Uma, não, duas crônicas inéditas de Lima Barreto, escritas em 1907 e 1908. A descoberta é do pesquisador João Marques Lopes, da Fundação Biblioteca Nacional, e tem que ser comemorada. O original foi encontrado em uma pasta do Arquivo Lima Barreto: Manuscritos Preservados.

Quem me envia é Roberto Azoubel, da Representação Regional Nordeste do Ministério da Cultura, que fica no Recife.

A crônica Portugueses na África foi escrita, tudo indica, para a coluna Echos, da revista A Floreal. Não se tem notícia de sua publicação.  É uma crítica forte e mordaz à ocupação de territórios de Angola, ainda sob domínio das populações nativas, saudada euforicamente pela imprensa portuguesa e brasileira.

Atitudes apontadas pelo escritor como fruto do colonialismo e do racismo.

A colonização portuguesa de Angola iniciou-se ainda no século XV, pelo litoral, e chegaria ao interior no final do século XIX. A libertação viria em 1975, um anos após a Revolução dos Cravos.

O segundo texto limita-se ao que seria o primeiro parágrafo de uma crônica sob o título Os Jornais. Critica a repercussão, “desmesurada”, em Terra Brazilis, do assassinato do Rei D.Carlos, de Portugal, em 1908.

Donde se vê que a síndrome de vira-latice da mídia nativa vem de antanho

João Marques é doutor em Estudos Brasileiros – Literatura e Cultura pela Universidade de Lisboa, e estuda o modo como a obra de Lima Barreto é recebida em Portugal. É pesquisador-residente pelo Programa Nacional de Apoio à Pesquisa – PR da BN.

Saiba mais no sítio da Biblioteca Nacional, fonte das informações acima expostas.

Compartilho o presente de Azoubel – para começar bem a semana de trabalho:

 

Portugueses na África *

galeria-1725-cronica-inedita-lima-barreto-encontrada-bnOs srs. já conhecem a coisa. De ano em ano, os jornais daqui e de além-mar noticiam estrondosas vitórias dos portugueses sobre os indígenas de suas possessões de África. No tempo dos “Lusíadas”, talvez por não existir o jornalismo periódico, não davam tanta importância a feitos idênticos. Pelo menos não tenho notícia que Lisboa festejasse retumbantemente Antônio Salema, que, aí pelos fins de Quinhentos, matou dez mil índios perto de Cabo Frio; e se ainda nos resta memória das proezas da gente assinalada em Diu e Goa é porque alguns cronistas precavidos e meia dúzia de poetas entusiastas registraram-nas em prosa de bronze, ainda áspero, e em grandiosos versos, um tanto monótonos.

Hoje, não havendo farta messe de ações heroicas, lá pelo velho Portugal, os jornais e o governo não deixam escapar uma só vitoriazinha. Os heroísmos são narrados um a um, em frases cheirando ainda à Ilíada; os retratos são publicados e os plutarcas afiam a pena para mais essa centena de varões ilustres.

O que há em suma? Esta coisa simples: um destacamento português, de cem ou duzentas praças, derrota uma partida de desgraça dos negros, duplamente desgraçados por serem negros e por viverem em possessões do Portugal necessitado de vitórias.

Pelo jeito, o governo lusitano precisa demonstrar a vitalidade da nação; precisa lembrar ao mundo que o sangue heroico dos varões assinalados ainda não está de todo acabado; e para tal organiza, de quando em quando, umas justas art-nouveau em que morrem algumas dezenas de negros (ora, os negros!) e os portugueses praticam heroísmos dignos de versos gregos e do triunfo romano.

Tenho para mim que esses negros flexíveis e adaptáveis a toda a sorte de misteres, desde o de bestas de carga até o nobilíssimo de adversários dos esforçados varões do Portugal moderno, têm que acabar um dia. Se isso se der, a velha metrópole vai se ver atrapalhada para arranjar quem se preste à demonstração experimental de sua heroicidade eterna; e, a menos que a gente  a quem outrora Marte obedeceu queira combater os chimpanzés e os gorilas de África, Lisboa só terá festas com franco cunho guerreiro quando o governo das Necessidades sabiamente resolver condecorar com grandiosas  solenidades os valentões da Baixa que se portarem heroicamente nas rijas com tripulações de barcos estrangeiros de passagem pelo Tejo. Então é que havemos de ver o indigesto Teófilo a explicar esse afloramento do Heitor português na população da sarjeta alfacinha e o velho Camões a bimbalhar nas colunas dos jornais:

Cale-se de Alexandre e de Trajano,

A fama das vitórias…

E poderá assim Portugal, e por muito tempo, achar nos seus registos de nascimento, nomes que se possam contar naqueles outros em quem, como o Albuquerque terrível e o Castro forte, a morte não teve poder.

É ainda de Camões que, a meu ver, deve sofrer modificações convenientes para se adaptarem ao novo heroísmo de Portugal, se os nossos irmãos do Tejo querem um adaptador excelente, temos aqui à mão alguns experimentados em guerra. O Barão de Paranaguá calha, por exemplo…

* Ortografia atualizada pelo pesquisador

 

Os jornais

O assassinato do Rei de Portugal vem demonstrar do modo mais eloquente de que maneira a nossa imprensa carioca é uma pura e simples exposição dos sentimentos e das opiniões do comércio português do Rio de Janeiro. O assassinato do rei D. Carlos, em si coisa lastimável para a sua família e os seus amigos, não podia ser no Brasil senão um caso secundário e provocador de condolências oficiais. Nada havia que o pudesse fazer um acontecimento capaz de enlutar e trazer coberta de tristeza uma grande cidade, de mais de oitocentos mil habitantes, situada a milhares de léguas do local do crime e em país estrangeiro.

Graças, porém, à manha inaudita de um…

 

 

 

 


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