É pela educação que se rompe o machismo. Obrigada, Enem.

por Sulamita Esteliam

Minha caçula, que cursa o quinto período de Publicidade, compartilhou no FB imagem dos Melhores do Twitter. Resume bem o impacto da prova do Enem encerrada na tarde deste domingo em todo o país:

Enem e as mulheres

 

O tema da redação colocou, sim, 7 milhões de pessoas, a maioria jovem, para refletir. Não apenas sobre violência contra a mulher, mas sobre sua persistência, a despeito das campanhas e políticas públicas de combate no Brasil.

A Lei Maria da Penha caminha para 10 anos de existência, e é considerada a legislação mais completa, e rigorosa, sobre o assunto, no mundo.

Políticas de apoio à sua execução vêm sendo implementadas, mais lentamente do que o desejável, é verdade. Contudo, não se pode acusar os últimos governos de omissão nesse sentido. A lembrar que, em matéria de políticas públicas, no geral, o fosso é largo e profundo. Haja prioridades.

Entretanto, a violência persiste e recrudesce.

Não se trata, apenas, de violência física e sexual. Há violência institucional, sobretudo contra mulheres negras e pobres, sobretudo na área da saúde maternal. Um cancro que o serviço público brasileiro já reconhece, mas que exige mais do que vontade política para extirpá-lo. Exige educação, formação para a cidadania, de parte a parte.

Info_abortoE tende a piorar, se prevalece a vontade da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que semana passada provou o PL 5069. É um retrocesso sem tamanho, que avilta a dignidade das mulheres vítimas de violência sexual. Também daquelas que precisam de socorro médico para salvar suas vidas, mesmo nos casos em que a legislação brasileira autoriza o aborto.

Tudo, em nome de um moralismo covarde, de fundo religioso. De uma hipocrisia que usa o nome de Deus e a Vida para atender aos seus complexos de filhos chocadeira. São esses, os primeiros a se revoltarem com a “indução de política de gênero” a partir da redação do Enem. Querem nos conduzir às trevas. Pateticamente ridículos.

Os machistazinhos de plantão, do tipo que usa as redes sociais e as ruas para esculhambar com as mulheres, a começar pela presidenta da República, certamente, tiveram que dar nó para escrever a redação. Rio só de imaginar.

Os homens aqui de casa, que fizeram a prova, não tiveram problema com a redação.  Meu companheiro, Júlio Teixeira, que ama fazer Enem – é o seu terceiro, embora curse faculdade federal – comentou ontem, entusiasmado, que, neste andar da carruagem, dá vontade de virar, mesmo, freguês.

Escreveu, e transcrevo o trecho de abertura da sua redação (tive que insistir para ele autorizar):

“Os números da violência contra as mulheres representam verdadeiras chacinas. Informam, aos gritos, que nossa sociedade precisa ser atualizada, que nossa educação precisa ser revista, que nossos valores devem ser ressignificados.”

Meu neto, mais velho, Gabriel, 19 anos, gostou da prova: “A redação foi muito de boa, tema fácil; só complicou matemática, que deixei por último…”, me respondeu pelo WhatsApp, na noite de domingo.

Disse que também tirou de letra a prova de Ciências da Naturezas e suas Tecnologias, sobretudo química em que havia concentrado seus estudos justo em orgânica, o que mais caiu.

De Fortaleza, minha neta única, Larissa, 17 anos, também não teve problemas com a redação: “Não esperava que fosse esse tema. Achei que fosse ser mais difícil, gostei muito”, me respondeu pelo WhatsApp. Para ela, a prova este ano, estava “menos difícil” que no ano passado.

Observou, com propriedade: “Feminismo na prova de humanas e violência hoje. Amei”.

Eu também, querida neta.

Enem mulherBeauvoirLarissa se referiu à questão ao lado, de Ciências Humanas e suas Tecnologias, que capturei do caderno rosa, que meu companheiro trouxe para casa no primeiro dia – clique na imagem para ampliar. Simone de Beauvoir na medula. É pra machistas e reaças endoidecerem…

Em Beagá, minha sobrinha caçula, Marina, 16 anos, cursa o segundo ano do Ensino Médio, e fez o Enem por experiência. Havia usado o zap-zap para desejar boa prova para cada candidata/o na família, no primeiro dia. No domingo à noitinha ela me retornou:

– Lembrei de tu na prova hoje. Ia arrasar na redação tia; ia tirar 1000 com certeza.

– Gostou do tema?

– Gostei. Mas eu podia falar muito mais se fosse artigo de opinião.

(…)

– Não se avexe, vai se dar bem. Digo que hoje eu teria dificuldades em escrever uma redação formal. Já estou por demais contaminada…

Enem Mulher-Ingles

“Por que sou compelida a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que eu temo. Porque eu não tenho escolha. Porque eu preciso manter o espírito da minha revolta, e eu vivo. Porque o mundo que eu crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. Através da escrita eu coloco ordem no mundo para que eu possa compreendê-lo. “

Carta às Mulheres do Terceiro Mundo – Anzaldúa Gloria Evangelina, escritora americana de origem mexicana, falecida em 2004. Escreveu sobre questões culturais e raciais. Citada em Mulheres que Escrevem Resistência: ensaios sobre a América Latina e o Caribe, Boston, 2003 In: Hernandez, J.B (Ed).

Enem Mulher-espanholA questão de gênero e o imperativo do combate à violência contra a mulher também está presente nas questões de espanhol, a língua estrangeira alternativa ao inglês na prova de Redação e linguagens, Códigos e suas Tecnologias.

O texto, que acredito ser desnecessário traduzir, traça o quadro no Peru, em irônica contradição ao dia em que se celebra o amor e à amizade.

Note-se que a questão seguinte trata das relações sociais no trabalho do plantio da cana-de-açúcar na América Latina.

Enem-Meio ambienteA prova de língua portuguesa, por seu lado, é um mosaico representativo da diversidade social, de gênero, etnia, raça, cor, cultura e alteridade. Dose cavalar de cidadania na medula, em tempos de intolerância.

É a celebração da vida, na plenitude da riqueza, multiplicidade e do caos cotidianos.

Claro, não é prova para decorebas. Exige leitura, muita leitura acumulada, memória, reflexão e raciocínio. A escola e os cursinhos preparam nesse nível? É o que o resultado deste Enem dirá.

Meu companheiro tem razão: dá ‘coceira’ para fazer prova.

Tiro meu chapéu para Renato Janine; o homem é mesmo nota 10. Deixa seu estilo marcado no único Enem que passou por sua batuta. Seis meses de Ministério de Educação. Prova de que mais do que quantidade, importa qualidade. Pena, muita pena, ele ter saído.

E olha com que elegância ele trata a presidenta Dilma Roussef – confira na entrevista à Revista Fórum: Dilma é alvo de injustiça.

Faço minhas as palavras do colega jornalista Leandro Fortes, no FB:

“Obrigado, ministro Janine Ribeiro. Quando a árvore é boa, precisa só de meia estação para dar frutos de qualidade.”

 

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Postagemrevista e atualizada às 23:04h, hora do Recife: correção de erros de digitação em diferentes parágrafos.


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