Na resistência ao golpe, a cultura faz a diferença

Universo da cultura é diverso, potente, colaborativo, horizontal. Mas elite não comprende — por ser arcaica, cafona, obtusa, bocó. Para ela e seus cordeiros, o criativo incomoda

Jéferson Assumção, escritor gaúcho

 

Artistas em ato #OcupaFunarte em São Paulo, nesta quinta 19 - Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres
Artistas em ato #OcupaFunarte em São Paulo, nesta quinta 19 – Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres

Começou por Belo Horizonte, ganhou o Rio, São Paulo, Porto Alegre, Recife. Hoje já são 14 sedes da Funarte e/ou representações do Minc ocupadas, em protesto contra a extinção do Ministério da Cultura.

O Minc está transformado em secretaria atrelada ao Ministério da Educação, hoje dirigido por um senhor que é contra a política de cotas, o Pró-UNI e a destinação de verba do Pré-Sal para a Educação.

As ocupações se tornaram centro de convergência artística e cultural diárias, e concentração para caminhadas pela democracia e contra o golpe, que também têm se tornado cotidianas Brasil afora. Ainda bem.

Resistir aglutina forças e faz ecoar nossa voz.

Topei com a citação reproduzida ao alto durante minha navegada diária pela blogosfera, em busca do assunto a abordar no blogue; variações sobre o mesmo tema, naturalmente, pois nada é tão importante do que restituir o país à legalidade, à normalidade democrática. E este blogue anão contribui como pode.

O autor, Jéferson Assumção, é dono de vasta obra literária. No sítio Outras Palavras escreve lauto artigo em que aborda as (des)razões que levaram Temer, o usurpador, a iniciar seu desgoverno pela degola da Cultura.

Sintomaticamente, ele abre sua escrita com a transcrição do comentário de uma internauta no Facebook. Reproduzo:

 

“Há um Brasil de verdade, que não cabe nem jamais coube
na mentalidade bocó, tacanha e predatória de sua elite e classe média escravocratas.
Neste Brasil, há arte, pensamento, ciência, compromisso democrático,
consciência, luta social, cultivo da memória e da história.
Este Brasil de verdade faz cinema, música, literatura, ciência, filosofia. (…)
E é também um país que está golpeado, ferido, espancado, ameaçado e violado.
Mas vivo, muito vivo.”

Katarina Peixoto, em sua página no Facebook dia 18 de maio

 

Não é à toa que só depois de cinco recusas o desgoverno provisório tenha conseguido um ser que aceita conduzir a Secretaria de Cultura, que, diga-se, pretende substituir o Minc, sem prejuízo das ações desenvolvidas pelo desativado ministério:

“Essa reforma administrativa, essa integração nova não comprometerá, muito pelo contrário, fará com que nós tenhamos, cada vez mais, um foco para que as atividades culturais promovidas pelo governo federal tenham eficácia e eficiência.”

Palavra do Mendoncinha, como é conhecido em Pernambuco o ministro interino da Educação.

É o caso de perguntar, como o personagem trapalhão: “Cumã”…!?

O jornal GGN,  do Luis Nassif, onde capturei o exercício de contorcionismo do Mendonça Filho (DEM), presta grande serviço ao recuperar o bate-papo que a presidenta legítima, Dilma Roussef, afastada pelo golpe em curso, manteve com internautas, nesta quinta, 19 de maio, em sua página no Facebook/Dilma Rousseff.

Dilma faz dobradinha com seu ministro da Cultura, Juca Ferreira, para explicar porque a extinção do Minc é um retrocesso.  A Tal Mineira reproduz o essencial da matéria escrita por Luiz de Queiroz:

 

Dilma e Juca falam com internautas sobre a extinção do Minc:

Dilma e Juca s o MInc_19.05.2016“(…) Para Dilma, ao reduzir o Ministério da Cultura a uma secretaria do Ministério da Educação, o governo temporário reduziu a importância da área cultural e assumiu o risco de perder capacidade administrativa.

Questionada sobre por que uma secretaria não poderia desempenhar o mesmo papel que um ministério, a presidente disse que um setor tão grande e importante precisa encontrar representação direta na hierarquia do Estado. “É bom lembrar que a criação do MinC foi uma das primeiras medidas depois da conquista das eleições diretas para a Presidência da República. Isso não foi uma coincidência. O fim da ditadura foi um período que permitiu ao País voltar a sonhar com mais liberdades, com a melhoria da qualidade de vida. O desenvolvimento cultural foi uma das grandes marcas desse período. Por isso, agora, não é coincidência que a primeira medida do governo provisório seja a extinção do Ministério da Cultura . É como se eles quisessem voltar ao passado autoritário”, disse.

Dilma não acredita que uma secretaria tenha a capacidade de atender à complexidade das demandas culturais. “Não tem a estrutura necessária para atuar, levando em conta a amplitude, a complexidade e a diversidade cultural brasileira. O MinC trabalha com a preservação do patrimônio, o fortalecimento da diversidade cultural das manifestações regionais, tradicionais e contemporâneas, o fomento e incentivo às artes e a regulação. A construção desse conjunto de políticas, programas e ações exige uma estrutura capaz de dialogar com o conjunto da sociedade, com o meio cultural, artistas, produtores, e assim formular as políticas necessárias e incrementá-las”.

“De acordo com ela, a medida tem pouco resultado prático porque o impacto do orçamento do Ministério da Cultura é ínfimo para a União. “O orçamento do Ministério da Cultura é irrisório em termos absolutos e se a gente compara com o Orçamento Geral da União, menos de 1%”. Com essa decisão, o governo temporário economiza pouco e deixa de ganhar muito. “O que esses investimentos trazem de benefícios: fortalecimento da coesão social, melhoria da qualidade de vida, redução da violência, capacitação da sociedade para resolver os grandes desafios do século XXI, satisfação da condição humana dos brasileiros e brasileiras, e o desenvolvimento de economias importantes”.

Dilma lembrou que a economia cultural é importante para um país com as características do Brasil porque tem grande valor agregado. “Um País das dimensões do Brasil não pode ter sua economia dependendo da exportação de commodities agrícolas e minerais. É preciso desenvolver economias de grande valor agregado, como é o caso das economias culturais, criativas ou simbólicas. Com o apoio do Estado brasileiro, através do governo federal, estamos transformando a economia do cinema e do audiovisual em superavitária. O golpe em marcha ameaça o próximo passo desse processo, que é transformar a economia da música do Brasil no próximo setor a se tornar superavitário. Portanto, essa propalada economia com o corte do Ministério da Cultura é pura demagogia”.”

“Por fim, a presidente opinou sobre a negativa de mulheres notáveis (Bruna Lombardi, Cláudia Leitão, Eliane Costa, Marília Gabriela, Daniela Mercury) diante dos convites de Temer para o cargo de secretária de Cultura do Ministério de Educação. “Acredito que as mulheres não querem ser tratadas como um fetiche decorativo. Ao contrário do que alguns pensam, as mulheres têm apurado senso crítico e, por isso, são muito sensíveis a todas as tentativas de uso indevido da sua condição feminina. As mulheres brasileiras são trabalhadoras, profissionais dedicadas, lutam pelo seu espaço e têm plena consciência de seus direitos. Tenho certeza que a razão das recusas está na qualidade da consciência de gênero que nós adquirimos durante todos esses anos de luta contra o preconceito”.”

“…) Perguntado diretamente sobre a situação dos Pontos de Cultura no governo Temer, ele (o ministro Juca Ferreira) disse que eles “certamente sofrerão algum tipo de ataque”. “Hoje, trabalhamos com projetos e ações ligadas à cultura tradicional, pontos de cultura indígenas, pontos de cultura urbanos, periféricos, das tribos contemporâneas nas grandes cidades, nas cidades de médio e pequeno porte, nos assentamentos rurais e nas aldeias indígenas. Não acredito que um governo conservador, regressivo e ilegítimo, como esse que está tentando se consolidar, tenha a grandeza para compreender a importância desse conjunto de iniciativas culturais da própria população”.”

“Junto com Dilma, ele disse que é manipulação da grande imprensa dizer que os investimentos no setor privilegiam projetos com tendências políticas de esquerda. “Nada tem de partidarizado. As linhas de fomento e incentivo às artes, cinema, teatro, dança, são feitas sem nenhuma orientação ideológica ou política, baseada em critérios artísticos e culturais”.”

 

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Postagem revista e atualizada em 20.05.2016, às 0:32 horas: correção de erros de digitação em diferentes parágrafos; formatação em itálico dos trechos reproduzidos.

 


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