O jogo do contrário em plena tragédia

por Sulamita Esteliam

Foi impossível escrever por esses dias, ir além da mensagem pelo Dia das Mães postada nas redes sociais. Continua valendo para todas que insistem em melhorar o mundo com suas sementes e frutos. E minha solidariedade às mães gaúchas e palestinas neste momento de penúria.

A semana anterior fugiu ao meu padrão cotidiano, com agenda movimentada, atividades de avó privilegiada: festa na escola da neta, aniversário do bisneto. E mais anfitriã de irmã e sobrinha do coração, marido e filhote, saída à noite, praia, caminhada.

Resultado: corpo e cabeça se pactuaram por toda imobilidade possível em favor do ócio.

Sinal dos tempos em aceleração; ou seria des-aceleração? A verdade é que chega uma hora em que o reverso se impõe, e você não tem muito o que fazer, só respeitar suas possibilidades.

Todavia, não fugi das aulas na piscina: às terças e quintas, às 6h20; só um dia não consegui acordar. Devo confessar que tenho evoluído lentamente como aprendiz aquática: coordenar respiração e movimento, sem botar os pés no fundo da piscina, ainda é um desafio.

Minha professora Cris diz que “já estou nadando”, e confia na constância do progresso rumo à piscina olímpica; é a meta. Há dias em que duvido, mas não o bastante para desistir.

Até comprei um segundo maiô, para dividir a ação do cloro na trama com o primeiro. A piada é que, ao informar meu cpf no caixa da loja especializada, meu cadastro me nomeia como “atleta”, tamanha a minha frequência por lá nos últimos oito meses. Acreditar e perseverar.

Encarar a água já é um progresso inimaginável para quem até 12 anos atrás não se atrevia a botar a cara para cima no simples ato de colher a água do chuveiro. No mar, só “mergulhos” de agachamento e ondas quebradas no quadril.

Contei essa história aqui no blogue na abertura de uma crônica sobre conjuntura política, em 2016, e rememorei na homenagem à minha mãe este ano nas redes. Hoje até boiar já consigo – na piscina e no mar, onde já arrisco umas braçadas na horizontal, de frente e de costas.

Essa mania que tenho de fazer salada de assuntos, como se estivesse em mesa de boteco, ou como misturo ingredientes na alquimia culinária. Ainda bem que você tem bom paladar.

Fato é que tudo faço para fugir do que importa e que me tortura: a maldade, a indiferença e a ignorância. A cada dia me torno mais refratária à insensibilidade e mais alérgica ao grotesco, à idiotia.

Meu ser se agita ante a tempestade de canastrice e canalhice humanas. Parece que parte da humanidade perdeu de vez as estribeiras. A outra parte se perde em trivialidades e impotências.

As sandices que se exibem no cenário da catástrofe ambiental que solapa o Rio Grande do Sul se comparam ao êxtase genocida do governo de Israel sobre o povo palestino.

Por aqui, mentiras, simulações e abusos de pessoas vitimadas pela calamidade.

Desqualificar o esforço político do governo Lula para buscar soluções para milhares que sofrem com a cheia no Rio Grande é o que se tenta. Jogo sujo, rasteiro, que mira as eleições municipais em outubro.

Nem vou falar do Congresso Nacional, que joga o jogo para não perder a mão: tem profissional na mesa.

A notícia do dia é a nomeação do gestor federal, um secretário-extraordinário para coordenar a reconstrução do estado:  ou seja, os recursos da União, a serem investidos no soerguimento gaúcho, serão administrados pelo representante oficial do presidente Lula.

O indicado é Paulo Pimenta, deputado federal pelo Rio Grande do Sul, Ministro da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula.

Interinamente, no seu posto assume o competente jornalista pernambucano Laércio Portela, um dos fundadores do Marco Zero Conteúdo, jornal de conteúdo digital independente e respeitado.

Dentre outras medidas pra garantir recursos a quem perdeu tudo, mas sobrevive à tempestade climática, Lula criou ainda o Auxílio Reconstrução: um Pix de R$ 5.100 para cada família afetada poder comprar móveis e objetos que perderam nas enchentes.

Além disso, a Receita Federal vai antecipar a restitutição do IR para cerca de 900 mil gaúchos que entregaram a declaração 2024. Há muiito mais e é preciso recorrer às fontes institucionais para não se deixar enredar nem replicar mentiras. Deixo o link ao pé da postagem.

lula-rio-grande-do-sul

O mais inacreditável é que o governo Eduardo Leite chegou ao ponto de questionar, em entrevista, o benefício e a conveniência “para o comércio local” da solidariedade de todo o país e de várias partes do mundo para com as vítimas da calamidade. Pediu desculpas, mas já era.

Ao que se deduz, o tucano vive em estado de confusão mental, assolado pelo tamanho da catástrofe. Ora diz isso, ora aquilo, pede X, recebe em dobro e diz que é pouco, e agora mais essa.

Ou isso, ou aquilo, o que será, que será: estaria em vias de pular do muro para o extremo da indignidade política?

O marido garante que não se trata de ruindade:

“Não conheço ser humano melhor do que ele.” 

A tragédia é um desastre, é preciso repetir para deixar claro. Decorre da irresponsabilidade de medidas do governo regional, guiadas pela cegueira da ganância estimulada pela indi-gestão federal passada – que seduz desavisados, imbecis e espertalhões de carteirinha.

Como já escrevi antes, a natureza cobra.

 
Crianças em Gaza _ Ópera Mundi
Crianças em Gaza – Foto capturada em Ópera Mundi

Lá, na Faixa de Gaza, a crueldade indescritível e imperdoável com crianças, jovens e mulheres tenta enterrar o futuro de um povo que insiste em existir.

A propósito, abre-se uma fresta de esperança para o reconhecimento do Estado da Palestina pela ONU. Finalmente. É a outra boa notícia.

Os opositores, dentre eles Estados Unidos e Israel, se enfraquecem diante da maioria esmagadora no resultado da votação sobre o pedido palestino de reconhecimento: 143 votos a nove e 25 abstenções.

É preciso dizer: a resolução não concede à Palestina o ingresso pleno e automático à ONU, mas reconhece sua qualificação para ingressar como país-membro; uma reivindicação de 50 anos. Em 2012 foi admitido como estado-observador.

Os Estados Unidos mantêm o apoio a Israel  contra essa antiga reivindicação palestina, mas os ventos sopram em outra direção: o governo Joe Biden brecou o envio de armas após os ataques sionistas contra os últimos refúgios humanitários na Faixa de Gaza, em Rafah, na fronteira com o Egito.

Fico por aqui.

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Com:

Governo do Brasil

Rede Brasil Atual

Jornal GGN

Carta Capital

Revista Fórum

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Postagem revista e atualizada em 19.05.2023, às 15h39: correção de erros de digitação e inclusão de informações importantes sobre as operações de socorro ao RS.

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