E a farsa do golpe vai para o próximo ato, e há quem creia

Anastasia e o relatorio_o
Charge capturada no FB/Renato Aroeira, a quem agradecemos a benção do talento e olhar clínico
por Sulamita Esteliam

A gentil e simpática senhora que dirige a farmácia onde manipulo o cálcio que tomo diariamente, há coisa de 12 anos, estava de costas quando entrei. Desejei bom dia e anunciei que fora buscar minha encomenda.

Ela fez dois movimentos simultâneos: girou, lentamente, o banquinho onde se acomodava e disse para a funcionária: “Sulamita Esteliam”. Só depois olhou para mim.

Converso sempre com ela, quando coincide de estar no estabelecimento, nas vezes em que passo por lá. Mas não posso devolver a gentileza do tratamento personalizado, porque sou muito ruim para guardar nomes, na mesma proporção em que dificilmente esqueço um rosto.

Fazia exatos dois meses que a gente não se cruzava, desde a última vez em que lá estive, por igual motivo.

É uma mulher pequena, como Euzinha, bonita, de aparência muito bem-cuidada, simples e elegante. Tem, talvez, seus 50 e poucos anos. Coloca com propriedade as palavras, e as pronuncia com dicção trabalhada. É psicóloga social, disso me lembro bem.

Sou muito grata a ela, embora não o saiba. Por um desses acasos, acabou me livrando de um trauma que nem dois anos de terapia deram conta. Explico.

Tempos atrás, coisa de seis ou sete anos, ela conversava com outra cliente sobre medo de água, e me intrometi. Disse que, se existe outras vidas, numa delas eu deveria ter morrido num dilúvio, pois tinha pavor d’água. Contraditoriamente, amo tomar banho de cachoeira e de mar.

“Minha relação com água externamente no corpo é só na vertical, e sem deixar que atinja meu rosto, o nariz principalmente. Até no chuveiro… entro em pânico” – confessei.

Talvez por conta disso jamais aprendi a nadar. O máximo que me arrisquei, mal e porcamente, foi mergulhar… e tão somente em água morna, em piscina. Vai entender.

Antes que você ironize, digo logo que adoro beber água. Ate porque, garante hidratação para o álcool. Eis o segredo, água e álcool. Nas eu não o disse na conversa.

A senhorinha retorquiu, não sem antes perguntar o meu nome:

– Sulamita, creio que seu medo não tem relação com outras vidas. Provavelmente, você passou por intenso sofrimento fetal.

E eu devolvi, sem pensar, mas já no curso do raciocínio:

– Meu trabalho de parto durou 36 horas. Nasci em casa, minha avó foi a parteira, e era craque. Foi muito complicado, e minha mãe me dizia, ante qualquer desafio ou obstáculo, que eu conseguiria vencê-lo: “você nasceu”.

Pronto, fiquei curada. Não sufoco mais sob o chuveiro, mas ainda não me animei a tomar aulas de natação.

Então…

Ontem, a gentil senhora me brindou com o sorriso de sempre, a mesma voz suave e o tom assertivo. Perguntou como eu estava. Respondi que vou bem, graças, mas nem tanto como gostaria, dada “a situação do país, de ponta-cabeça, e o povo mal se mexe, e isso me agonia” …

E aí, desenvolvemos o seguinte diálogo:

– Você tem razão, a apatia é injustificável diante da gravidade da situação. Eu fui na manifestação domingo, meus filhos também foram, toda a minha família fez questão de estar presente. A gente tem que participar.

– Muito bem. Eu também fui com meu marido e um casal de amigos, que veio especialmente de Porto de Galinhas…

E antes que ela dissesse qualquer outra coisa, resolvi emendar:

– Mas a gente foi lá – apontei em direção ao Centro -, no Derby. Sou vermelhinha, e eles também… A gente é contra o golpe.

Minha terapeuta de ocasião parou uns segundos e tentou uma cara de paisagem, antes de retrucar:

– Mas não é golpe…!

– É golpe, sim. Não há crime de responsabilidade. O próprio Ministério Público, a Justiça Federal já se pronunciaram a respeito…

– Um Ministério Público, um juiz… Mas é crime.

– O Ministério Público e o juiz federal do Distrito Federal da vara encarregada do caso disseram que não. E também a perícia do Senado.

– Não, a perícia do Senado disse que é crime, que ela não tinha conhecimento.

– O texto é cheio de sofismas. Mas se fosse crime, o relator da Comissão do Impeachment no Senado teria sido, ele próprio, impichado, porque usou e abusou do recurso pedalada para governar Minas Gerais. Aliás, foi o mínimo que ele fez por lá.

– Mas a lei era outra. Foi o Fernando Henrique que criou antes de deixar o governo.

– Ora, o FHC criou a Lei da Responsabilidade Fiscal, que não tem nada a ver com pedalada. Mas criou uma lei para os outros. Já ele praticou de tudo, além do limite da responsabilidade.

Eu era repórter de economia, cobria o Ministério da Fazenda em Brasília. E também acompanhei de perto o governo Fernando Henrique. Sei muito bem como a coisa funciona.

E nem precisava, há enes livros-reportagem que retratam bem as mazelas do período. É só querer saber.

– Bom, temos opiniões diferentes, mas…

– Sim, é parte da democracia. No fundo, há gente bem intencionada também do lado de lá, que acredita querer o melhor para o País. Mas com governo golpista, esse que está aí, não dá.

Já estava na porta, com a sacolinha dos produtos em mãos e o comprovante de pagamento. Como diz meu amigo Hercílio, “não vale à pena argumentar com convertidos”. Despedi-me.

Em casa comentei com o maridão: “Sabe aquela senhora da farmácia de manipulação, toda educada? É coxinha, que pena!”

Dilma no Encontro pela Democracia na UFPE, em meados de junho no Recife - Foto: Roberto Stuckert Filho/PR - Fotos Públicas
Dilma no Encontro pela Democracia na UFPE, em meados de junho no Recife – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR – Fotos Públicas

Claro que não foi surpresa para ninguém o relatório do senador Anastasia, tucano das Gerais, favorável ao prosseguimento do processo e ao julgamento da presidenta Dilma Rousseff que pode levá-la ao impedimento. Nem vale à pena mencionar o veredito da Comissão do Impeachment, dentro do previsto.

Pouco ou nada se espera em contrário da votação em plenário na próxima terça, 09, quando se decide sobre o acatamento ou não do recomendado pela comissão especial. Só é preciso maioria simples.

Aprovada a continuidade do julgamento, a contagem dos prazos leva o início das sessões de julgamento para o dia 29, a se cumprir o indicado por Lewandowski, o presidente o STF, o cuidador dos ritos. E ao que parece, tão somente.

Nessa fase, sim, é necessário maioria de 2/3 para se aprovar o impeachment. São 81 senadores. É preciso 54 votos para aprovar o impedimento e manter no poder o usurpador provisório. Portanto, a presidenta Dilma trabalha por 27 votos.

E aí cada lado faz as suas contas e se vale dos recursos que dispõe para pressionar o resultado a seu favor. E tome especulação.

O jogo está posto, e não é de hoje, mas ninguém tem bola de cristal.

Cada um sabe o papel lhe cabe. Sei de mim que vou pra rua. É a rua o lugar de quem não concorda com a farsa montada para empurrar o golpe.

Como escreve Jânio de Freitas, na Folha, não há tanque, mas sobra hipocrisia, “como jamais houve no Brasil”.

Eis um trecho para quem não leu – o acesso à íntegra segue ao pé da postagem:

“Os militares, hoje, não são mais que uma lembrança do que foi a maior força política do país ao longo de todo o século 20.

Ao passo em que a política afunda na degeneração progressiva, nos últimos 20 anos os militares evoluíram para a funcionalidade o mais civilizada possível no militarismo ocidental. A aliança de civis e militares no golpismo foi desfeita. A hipocrisia do lado civil não tem mais quem a encubra, ficou visível e indisfarçável.

Há apenas cinco dias, Michel Temer fez uma conceituação do impeachment de Dilma Rousseff.

A iludida elegância das suas mesóclises e outras rosquinhas faltou desta vez (ah, que delícia seria ouvir Temer e Gilmar Mendes no mesoclítico jantar que tiveram), mas valeu a espontaneidade traidora. Disse ele que o impeachment de Dilma Rousseff é uma questão “política, não de avaliação jurídica deles”, senadores.

Assim tem sido, de fato. Desde antes de instaurados na Câmara os procedimentos a respeito: a própria decisão de iniciá-los, devida à figura única de Eduardo Cunha, foi política, ainda que por impulso pessoal.

Todo o processo do impeachment é, portanto, farsante. Como está subentendido no que diz o principal conspirador e maior beneficiado com o afastamento de Dilma.

Porque só seria processo autêntico e legítimo o que se ocupasse de avaliação jurídica, a partir da Constituição, de fatos comprovados. Por isso mesmo refere-se a irregularidades, crimes, responsabilidade. E é conduzido pelo presidente, não de um partido ou de uma Casa do Congresso, mas do Supremo Tribunal Federal.

As 441 folhas do relatório do senador Antonio Anastasia não precisariam de mais de uma, com uma só palavra, para expor a sua conclusão política: culpada. O caráter político é que explica a inutilidade, para o senador aecista e seu calhamaço, das perícias técnicas e pareceres jurídicos (inclusive do Ministério Público) que desmentem as acusações usadas para o impeachment.

Do primeiro ato à conclusão de Anastasia, e até o final, o processo político de impeachment é uma grande encenação. Uma hipocrisia política de dimensões gigantescas, que mantém o Brasil em regressão descomunal, com perdas só recompostas, se o forem, em muito tempo –as econômicas, porque as humanas, jamais.

E ninguém pagará por isso. Muito ao contrário.”

Afastamento de Dilma é hipocrisia como jamais houve no Brasil: Jânio de Freitas, na coluna de 04/08/16, na Folha SP.

 

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Postagem revista e atualizada em 05.08.2016, às 9:37 horas: correção de erros de digitação e palavras repetidas em diferentes parágrafos.

 

 


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