por Sulamita Esteliam
Acordei com um breve fulgor na janela, como se fora o alvorecer com pressa de se amostrar e partir. Pensei que já é hora de me aprontar para a piscina, mas foi quase um piscar – “um atmo”, como diria minha tia Mundica – e voltou a escurecer.
Liguei o celular: 3h35, muito cedo. Conferi a luz, estava escuro. Virei de lado e tornei a dormir.
Saí da cama às 5h25, direto para o banho. Cumpri a rotina das manhãs de terça e quinta-feiras antes de sair de casa, mas deixei posta a mesa para o café. O relógio da cozinha marcou 6h10, a aula começa às 6h20, e o parque aquático está a 200 metros. Não tornei a olhar o celular.
O clima estava bem fresquinho, céu enevoado, porém sem formação de chuva, um dia triste para os padrões do Recife. Fiquei tentada a retornar ao lençol – aquecido pelo corpo do maridão, que dormia a sono solto, quando saí.
Recusei a ideia, pensando que um pouco de exercício na água só poderia me fazer bem, e abrir o apetite da manhã, e de fato a aula foi ótima. Entretanto, havia algo navegando peito adentro, uma agonia fina que Euzinha teimava em não reconhecer.
Minhas rotas de fuga me são familiares.
Cris, a professora, perguntou-me se estava bem, como sempre faz, à saída da piscina – tem sempre muito cuidado com a velhinha da turma. Respondi que sim, estava melhor do que quando entrara na água. Sinal de que me recuperara do resfriado, apesar da tosse.
– “E dos aperreiros que atuam na imunidade…” – completou.
Tive que concordar com ela. Sucessivas perdas mexem com nosso corpo e com nossa alma. Nos dão a medida de que somos passageiros só com bilhete de ida; a questão é quando e como.
Por isso, aproveitei para dar notícias do primo hospitalizado, sobre quem comentara na aula anterior, e ela parecia se lembrar: continua “sustentado na morfina”, expliquei. Era a notícia do dia anterior.
O quadro era irreversível, toda a família o sabia. O próprio Zé o sabia, e sempre conversava a respeito. Então, aquela dor funda que atravessava o peito me fez desejar voltar para a água, aonde todos os líquidos são uma coisa só.
Numa das derradeiras vezes em que trocamos mensagens ele me disse que estava “costurando no escuro com agulha de coqueiro”.
Antes, me agradeceu os cumprimentos pelo aniversário, 75 anos em 05 de agosto, mesmo retardatário. Contou-me que era cardíaco e o coração estava pedindo socorro, machucado pela carga de medicamento de combate ao câncer de medula. Fez piada, entretanto:
– “Estou do jeito do possível… o bastão entorta, mas a madeira é marmelo. Um abraço.”
Tinha aí um forte tom de ironia: marmelo era de onde saíam as varas que nossa avó e nossas mães colocavam para curtir na fumaça do fogão a lenha, para garantir que não quebrassem nas nossas pernas ou lombos.
Havia um certo sadismo no rigor da educação que recebemos. Nós dois já velhinhos relembrava-mos esses tempos em longos papos no mesão da sala de jantar ou da cozinha de sua casa, desde sempre.
E dávamos boas risadas, quando eu contava das minhas escapadas das surras da minha mãe- “Tinha que me pegar…” De sua parte, ele lembrava que “era o cão”, que aprontava poucas e boas nos tempos que viviam na roça, na Pindaíbas das Gerais, nos cafundós de Jequitibá, aonde a menina urbana aqui amava passar férias:
– Mereci todas as lambadas e também os murros que meu pai me dava” – o aparentemente manso tio Geraldino… Fiquei chocada e rebati: “Ninguém merece apanhar.”
No tempo em que desfrutava saúde, Zé usava seu tempo vago na cozinha. Fazia um peixe saboroso com pirão rico, de cabeça. Peixe que ele próprio pescava, limpava, temperava e cozinhava- sempre cantando e fazendo graça.
Como era adorável meu primo Zé!

Evitava ligar para ele, ultimamente, porque sabia das dificuldades de articulação da fala, da dor que o ressecamento da garganta e do aparelho digestivo provocava, além da dificuldade respiratória.
Vi de perto todas as fraglidades, nos poucos dias que passei em sua casa, quando fui visitá-lo, em maio do ano passado.
Mesmo assim, fez questão de sairmos para almoçar, junto com Raquel, sua companheira de vida e mãe de suas três crias, e que também tem a saúde bem frágil. Também escapulimos para ligeira e lenta caminhada até a quitanda, porque ele queria tomar caldo de abóbora, que fiz para ele.
Os dois dias que fiquei no centro de Osasco, num hotelzinho próximo ao Mercadão, aproveitei para reconhecer os locais de nossas fugas na infância. quando moramos brevemente com nossa avó, na Bela Vista.
A Avenida Antônio Agu, que na nossa meninice parecia uma imensidão, tornou-se rua estreita. A farmácia, aonde meu tio Dino me levava no colo para tomar injeções de bezetacil continua no mesmo lugar, em frente à praça da Igreja de Santo Antônio.
Quando fiquei boa, a gente pedia para vovó nos deixar passear, ver as vitrines do comércio na avenida, visitar o mercado para ver os bichos. Não tinha errada: era só pegar o caminho da igreja e descer direto até quase a estação da CTTU,depois voltar pela mesma trilha.
Nossa avó era brava, mas tinha certas cumplicidades com a neteiada que a cercava; éramos seis morando com ela, então, quatro crianças. Talvez fosse a maneira que encontrava para ter uma nesguinha de sossêgo. Devia rezar para nosso Anjo da Guarda tomar conta e ela poder respirar um bocadinho durante umas poucas horas.
Dizia para a gente não demorar muito, e às vezes até dava um trocadinho para o pirulito ou para a pipoca. O argumento tinha um ingrediente infalível: Zé sentia saudades da roça, de ouvir o canto dos passarinhos – que ele caçava no alçapão e com bodoque, diga-se.
O que a vovó não sabia é que a gente economizava na guloseima, e pegava o trem para a Lapa, onde o mercado era bem maior e os viveiros muito mais povoados de asas, pios e cantos do que no Mercadão de Osasco.

Na manhã da terça-feira, 3 de setembro, não abri o celular até que eu e Julio concluímos o desjejum. Quando o fiz, de cara vi a mensagem da minha prima Lurdeca, irmã do Zé, que mora em Beagá: o “santinho” com os dados do funeral.
Antes de conferir os detalhes, busquei o perfil da Erika, filha dele, que foi quem me avisou da hospitalização, e com ela vinha conversando desde a última semana de agosto. Lá estava:
– “Oi! O papai descansou… envio notícias em breve”.
Conferi a hora: 3h33. Conexão imediata.
O “santinho” foi enviado às 9h50: o velório seria a partir das 13h e a cremação às 17h, em Osasco. Vi as mensagens por volta das 10h. Só conseguiria chegar em tempo se fosse de jatinho fretado e garantisse translado de helicóptero até o local das exéquias.
Mesmo que conseguisse embarcar no vôo de 13h25, sem atrasos ou tráfego aéreo intenso, desembarcaria em Congonhas por volta das 16h50, a 10 minutos da cerimônia. E do aeroporto a Osasco, nesse horário, é coisa de hora e meia.
Desdigo: teria havido alguma chance, se tivesse conferido as mensagens na madrugada; à hora em que as asas dos Anjos cutucaram a constelação ancestral, e todas as estrelas que lá habitam através dos tempos piscaram de uma só vez para dar as boas-vindas ao nosso canarinho.
Ao meio dia da segunda-feira, acendera a terceira vela no altar dos Anjos, que mantenho a um canto no escritório. Pedi a Manakel e Gabriel, que habitam o espírito do meu querido, a intercessão junto ao Pai pela Misericórdia.
Faria de qualquer forma, porque os Anjos são bons ouvintes, e mantenho relação estreita com eles. Mas o Zé pediu para a filha que a gente orasse por sua partida. Ele, um homem de fibra e de fé, que já sonhara com a própria travessia.
Contou-me de suas viagens pelo hiperespaço metafísico, histórias detalhadas, que o levavam a supor que estaria “à prova” até um outubro desses, restava-lhe suportar. Jogou a toalha. Há limite para tudo.
Meu companheiro de travessuras na infância, cúmplice de espírito na adolescência, parceiro de conversas intermináveis e gargalhadas sonoras, protetor nas jornadas da juventude, amante da cantoria, da boa cozinha, da mesa farta, há tempos começou a murchar.
José Geraldo, o nosso Zé, ou Zezé, o passarinho cantante não vai piar mais… Moleque, sobreviveu à engrenagem do engenho, que levou-lhe mais da metade dos dedos da mão direita junto com o bagaço da cana.
Foi agricultor e operário. Cursou Direito em curso noturno, tornou-se advogado com OAB e escritório próprio. Junto com Raquel, criou e formou a filha e os dois filhos. Deixa cinco netos, uma menina.

Minha gente é do tipo que vive espalhada pelos sete cantos do mundo, mas sem se perder. Tem o hábito, também, de embarcar em temporadas. De agosto do ano passado para cá já foram quatro.
O que nos leva a dar razão à minha neta caçula, a recifense, quando o pai foi buscá-la na escola, onde a mãe a deixara pela manhã no integral:
– Cadê a minha mãe, por que ela não veio me buscar?
– Sua mãe teve que viajar de emergência…
– E foi a trabalho, foi, assim de repente?
– Não, filha. Ela foi pra Fortaleza para o velório da mãe da sua prima Larissa…
– Ôxe! Esse povo não pára de morrer mais não, é…!?

Há poucos dias, minha primeira nora, mãe da minha primeira neta e de mais três crias de seu último casamento, encantou-se no exato dia em que faria 47 anos, 21 de agosto. A travessia foi livramento: teve um processo doloroso, por 7 anos, tentativa de sobrevida ao câncer em trânsito impiedoso pelo seu corpo.
Christiane Michele, uma mulher divertida e de fé, que camuflava sofrimento em risos, silêncio e preces. Agradeceu-me, através da filha, minha tentativa de visitá-la poucos meses antes, porque talvez não estivesse em condições de me receber.
Assim, a última vez que nos vimos, e nos abraçamos, foi em fins de outubro de 2019, no lançamento do meu livro Em Nome da Filha, em Fortaleza. Ela acompanhou a filha e o então namorado desta, ao evento.
Estava em tratamento. Não mencionou uma palavra a respeito. Foi tão somente sorrisos e parcimônia.
Não me esqueço a gentileza com que se dispunha a pegar-me no aeroporto, sempre que ia visitar a neta, fazendo questão de me deixar na casa da minha amiga, jornalista e escritora, Ana Karla. Levava junto as meninas, curiosas por ver “a avó da Lara…” .
E Euzinha retribuía com pão de queijo ou algum quitute da minha arte culinária sempre que possível. Ela amava tutu de feijão, e minha amiga disponibilizou sua cozinha, numa dessas visitas, para que eu atendesse os desejos da mãe de minha neta.
Deixou quatro crias, a mais velha das três garotas – e também do rapaz -, é minha neta, a primogênita do meu filho. É mulher adulta, testada pela vida, e certamente é apoio valioso para irmãs, irmão, que vivem com o pai, e também para a avó materna.
Dois meses antes, foi o avô das netas que tornou-se estrela. Tudo exige indispensável suporte às pessoas queridas devastadas pela dor, e que demandam um ombro amigo.
Há um ano, quem puxou a carruagem foi minha Maria da Glória, a caçula das minhas tias todas.
Vivo à distância da maioria da minha família; só minha neta está um bocadinho mais longe. Qualquer ocorrências, de alegria ou de tristeza, exige viagem, com todas as implicações. A gente faz o possível, enquanto vida há.
Ou como diria meu primo Zé, que foi cantar em outras paragens: “A árvore da vida é a mente. Mas há de conseguir ser amor.”
Que sejam luz os nossos queridos, nossas amadas. Vivem para sempre em nossos corações.
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postagem revista e atualizada às 8h50 do dia 10.09.2024: correção de erros de digitação e repetição de palavras – com minhas desculpas.
Fortalecida desta perda eu jamais estarei, mas vou aprender a viver só com o canto dos pássaros daqui, afinal tenho dois guris que dependem de mim!
Gratidão pela linda homenagem! 🙏❤️
Com o tempo a dor cederá espaço às boas lembranças, que são muitas. A saudade é o amor guardado, querida. Cuide-se bem.
Gratidão pelas palavras Tia…
Ele realmente foi um homem de muita força, muitas coisas tentaram derruba-lo, desde a infância…
Não foi só o engenho de cana, teve picada de escorpião, teve caxumba, teve tombo de égua brava, nada disso parou sua luz.
Quando adulto, batalhou mais do que qualquer pessoa que conheço, fez de tudo por nós sem nunca pedir nada em troca além de respeito, demonstrando a forma mais pura de amor, o que se doa entregando o que fez de mais precioso ao mundo, sem se doer.
Quando descobriu o cancer na medula deram 3 meses para ele, ele batalhou mais de dois anos.
Foram mais de um ano em quimioterapia, mais de 2000 agulhadas e ele sempre com sorriso no rosto, mostrando a cada minuto quão pequenos são os problemas da vida.
Mesmo depois de tudo isso, ainda foi preciso um cancer na medula que evoluiu para um tipo raro de cancer no sangue, uma infecção pulmonar e 3 AVCs para derruba-lo.
Nós seguramos a sua mão à todo momento, não deixamos ele só, demos nosso melhor, dando tudo que foi necessário, ainda sim me ma bate uma angustia, pois ele merecia muito mais a ele do que fomos capazes de dar.
Não se sinta em dívida por não poder participar do velório, tenho certeza de que ele, na essência de seu espírito se sentiu abraçado.
Mantenha em sua mente as boas lembranças das brincadeira e cantorias, quando a saudade bater, encosta aqui em Boituva que eu te faço o pintado ao molho de côco, eu aprendi as manhas do gato zé.
Que lindo, Arthur! Obrigada pelo carinho. Seu pai é luz.
Parabéns, suas histórias são poemas!
Agradeço muito.
Grata a vc, Gustavo. Bom ter vc por aqui.
É sempre um momento de muito prazer ler suas crônicas. Fortalece minha felicidade.
Abraço grande.
Que bom! 😃