*Áudio ao pé a postagem*
por Sulamita Esteliam
Quem me conhece sabe que sou cordial, mas tenho o estopim curto – o que inclui palavrões de calões variados; sem peia. Considero polícia, qualquer uma, um mal necessário.
Todavia, sou bem-humorada quase sempre, falo aos borbotões, e choro, como diria minha avó materna, por dê cá o que é isso.
Pois chorei ao ver, ler e ouvir Maria Geralda, a mãe da Cleide, coronela guindada ao Comando-Geral da Polícia Militar de Minas Gerais aos 47 anos; a primeira em dois séculos e meio.
Não é pouca coisa: mulheres pretas, mãe e filha, nascidas e crescidas pobres, honradas desde o berço. Retrato fiel da classe trabalhadora em seus multiplos afazeres.
Diga-se de passagem: nem toda ela terá acesso à recém-aprovada escala de 40 horas semanais: donas de casa, o pessoal da saúde, jornalistas em atividade e PMs, por exemplo.
É o que se deduz do que narram, criadora e criatura, com o bom orgulho de ser quem se é. Quem tem coração se emociona com a simplicidade e o pertencimento genuínos.
Voz calma, quase inaudível, não fora o microfone. A filha também fala manso – taí uma inveja boa, de quem troa na alegria e na ira.
Novo parenteses: assinalo que é com o coração, mas também com a cabeça, que deixo para mais adiante comentários mais detalhados sobre a aprovação do fim da escala 6×1 de trabalho. Vigora nesses 40 anos da Constituição Federal. Ufa!
Um baita acontecimento em Terra Brazilis, em permanente ameaça deste a assunção, e mesmo na queda, da flamilícia e sua horda. Pero ainda falta o Senado Federal, que anda um tanto arrevezado.
Voltemos à mãe de Cleide. Maria Geralda dá sua versão do porquê da surpresa em ver a filha promovida ao Estado-Maior da PM mineira. Agarra-se aos fatos para justificar:
– Ouvi dizer, mas duvidei. Como poderia imaginar que a filha, menina pobre, que dormia com o caderno no rosto, de tanto estudar, depois da jornada de trabalho, seria reconhecida para o mais alto posto da tropa para qual ela entrou por concurso?
– Ora, há tantas pessoas capazes no mesmo espaço, não é verdade? Repete ao PM-comunicador que a entrevista na Praça da Liberdade, sem tirar o sorriso do rosto.
Frases proferidas em ene entrevistas à mídia convencional e alternativa, desde a posse da filha. Sem tirar nem por. O choro deixou no palanque da cerimônia, contrapondo-se ao sorriso largo de Cleide.
Agora, ela traz o sorriso tatuado no rosto magro, faixa discreta à guisa de turbante sobre os cabelos brancos, vestido-camisa azul marinho ao qual sobrepôs cinto largo, marron, o olhar de grata felicidade. A elegância é simples.
Um olhar fundo, que não camufla a tristeza, a despeito de sorrir.
Já no dia da glória, 28 de maio, o sorriso em meio às lágrimas de emoção não escondia um desejo da alma. E Maria Geralda o torna público, sem que ninguém lhe pergunte. Como quem fala para si mesma: “Queria que o pai dela estivesse aqui”.
O pai – de quatro, que ambos trouxeram ao mundo, e criaram com muita dificuldade – está vivo. A gente toma ciência mais adiante, em outra entrevista.
Só está acamado, em consequência de um AVC, que redundou em hidrocefalia. Vida cruel.
Ele que era tão gentil perdeu a fala e os movimentos se reduzem ao “joinha” para agradecer os cuidados. Leio no jornal O Tempo, numa exclusiva que juntou mãe e filha.
Com voz mansa, feito a mãe, Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues, na PM desde 1997, conta que teve exemplo em casa, onde todos sempre tinham obrigações e as cumpriam à risca, desde crianças.
Tudo me-nos fala bem de perto, a não ser pela cor da pele e a atividade profissional escolhida.
E aí a gente fica sabendo: o protagonismo da mãe de Cleide, com sua ascensão, honra a memória do marido. Na corporação, desde que tomou posse, a ora comandante-Geral é “a filha do cabo Zé Roberto”.
O homem que inspirou a cria a envergar a farda, com orgulho, não possuía ouro, mas não tinha medo do trabalho. Nas horas vagas, corria o bairro onde moravam com o carrinho de mão vendendo hortaliças; que a esposa cultivava, para inteirar o soldo.
– Cada um faz a sua parte. Eu fiz a minha. Fome ninguém passou – emenda Maria Geralda.
Pobreza não é defeito. “Vergonha é roubar”, dizia o pai. Assim como a mãe de sua prole, ensinou dignidade. Não tem preço.
A mãe conhece a filha que tem. Majestade ela já carrega no nome. Pede a Deus, ou ao Universo, proteção. E torce para que Cleide dos Reis não se esqueça quem é e de onde vem. Poder e dinheiro não podem fazer mal à memória, diz com outras palavras,
Lá do Recife, o maridão me encaminha a entrevista e pergunta, e comenta, com emoji de pensativo:
– Poderá essa troca de comando da Polícia Militar representar a virada que Minas necessita? Tomara!
Euzinha respondo: sim, tomara que o espírito de tropa não nuble a sensibilidade e a empatia da mulher de origem pobre, além de preta, essa gente que, mais do que todos, sofre no lombo o peso de ser quem é. Por “questões de segurança”.
De uma coisa tenho certeza, porque acompanhei de perto: a PM mineira já se orgulhou de praticar gentileza.

Sim, revendo o noticiário, me dou conta de que a segurança de Minas Gerais está sob o comando de três mulheres: Letícia Gamboge, no comando da Polícia Civil desde abril-maio de 2023; Coronel BM Jordana Daldegan, no comando do Corpo de Bombeiros desde fevereiro de 2025.
Que seja, de fato, um novo tempo.