No sertão de Sergipe

Por Elma Almeida* – especialmente para A Tal Mineira
A jornalista Elma Almeida, com o cineasta Hermano Penna (de branco) e a equipe da TV Cidade

O sol explode sobre as pedras do calçamento, sobre as árvores e sobre a cabeça da gente. Afinal, estamos no alto sertão sergipano. A 150 km de Aracaju. Acabo de chegar à cidade de Poço Redondo, palco da matança de Lampião na década de 30, que agora recebe mais uma vez o cineasta Hermano Penna.

Ele já fez aqui o filme “Sargento Getúlio”, lançado em 1983. E volta para rodar “Aos ventos que virão”, história real de um jovem cangaceiro, sobrevivente, que escapa ao extermínio do bando. Consegue fugir da região, embrenha-se pelo sertão baiano e vai parar em São Paulo. Muito tempo depois, mudado pela cidade grande, volta, resolve virar político, depara-se com a corrupção eleitoral e, num momento de fúria, revive o tempo do cangaço. Invade uma zona de votação, quebra urnas, etc, etc, etc. Hermano Penna não conta mais para não estragar a surpresa do lançamento nos cinemas, programado para o ano que vem.

Pois é, falando assim parece simples, não é? O problema é traduzir tudo isto em imagem. A produção de “Ventos que virão” é uma loucura. Acostumada a suar com a produção de TV, fiquei assombrada com o requinte da produção de cinema.
 

Vista de Poço Redondo, a partir de uma das fazendas que será usada nas filmagens "Ventos que Virão"

Uma  casa da cidade foi  tomada pelo departamento de arte do filme. Num dos quadros de aviso, por exemplo, é possível ver a lista dos bichos necessários a cada dia de filmagem. São cavalos, bodes, bois. Aliás, a produção venceu o desafio de procurar dois bois idênticos, para uma sequência. Como os bois encontrados são “quase” iguais, a solução será maquiá-los antes de entrarem em cena.

 

Nas pratelerias da casa de arte, já estão prontos as peixeiras, os chapéus de cangaceiro, as botas e os adereços de couro, que marcaram as figuras do cangaço no nosso imaginário. Tudo encomendado na região. Não faltam nem os retratos amarelados, em molduras antigas.
 

A jornalista com o ator Rui Ricardo Diaz, equipes da filmagem e da TV Cidade

Uma verdadeira revolução envolve o povoado onde mora o personagem principal, vivido pelo ator Rui Ricardo Diaz, que fez Lula no cinema. Maior ponto de locação, o povoado é revirado para voltar ao tempo de Lampião. Todos os fios de eletricidade das ruas desaparecem aos poucos, embutidos em cabos e enterrados no chão. Afinal, na época não tinha luz no sertão. Ao mesmo tempo, as casas reformadas vão ganhar fachadas cenográficas pintadas de acordo com uma pesquisa histórica.

 

Atores baianos e sergipanos vão participar do elenco, que inclui ainda muita gente da comunidade, todos preparados em oficinas especiais nos últimos meses. No rosto de todos resplandece o orgulho de participarem de uma obra de arte tão sergipana, tão nordestina. E nos olhos dos realizadores, o brilho do sonho.


* Elma Almeida é jornalista. Mineira, viveu e trabalhou em São Paulo, em Brasília, e agora dirige a redação da TV Cidade em Sergipe.

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PS: É uma honra para esta reles blogueira publicar um texto de Elma Heloísa Almeida. Belo presente de aniversário de dois meses do blogue. Elma é jornalista das mais competentes, sensatas e bom caráter com quem já tive oportunidade de trabalhar – em Belo Horizonte, nossa terrinha do coração, e em Brasília, nosso sonho e concretude profissional. É minha fada-madrinha.

Desde nosso primeiro encontro, na redação do Jornal de Casa, em Beagá, floresceu a amizade – mais do que isso a irmandade – lá se vão muitos reveillons

Tempo, distância, revezes, idas e vindas não são capazes de quebrar ou amortecer encontros desta natureza.  É um privilégio, uma benção, ter pessoas assim em nossas vidas.



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